CBF investiga vazamento de viagens de Samir Xaud enquanto anuncia novo regulamento com clubes para 2027

CBF investiga vazamento de viagens de Samir Xaud enquanto anuncia novo regulamento com clubes para 2027
Foto: Divulgação / CBF

A CBF voltou a aparecer em duas frentes que dizem muito sobre o momento da entidade sob o comando de Samir Xaud. De um lado, a confederação investiga o vazamento de informações sobre viagens pessoais atribuídas ao presidente, acusado em reportagens recentes de custear deslocamentos internacionais de familiares e de uma suposta amante com despesas ligadas à entidade, fatos negados pelo dirigente.

De outro, a mesma CBF anunciou a abertura de um processo de construção coletiva do novo regulamento das Séries A e B para 2027, com reuniões mensais entre agosto e dezembro de 2026 para discutir arbitragem, organização das competições, licenciamento, infraestrutura, realização das partidas, governança, fiscalização e integridade. A contradição política está no contraste: enquanto a entidade promete transparência para modernizar o futebol brasileiro, sua primeira reação diante de denúncias sensíveis parece mirar mais quem entregou os documentos do que o problema institucional revelado por eles.


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As informações sobre as viagens geraram ruído porque envolvem despesas de natureza pessoal atribuídas ao presidente da CBF. As informações citam apuração interna sobre vazamentos, com demissão de dois funcionários do setor financeiro, além de suspeitas, dentro da cúpula da entidade, de movimentação política ligada a Ednaldo Rodrigues, afastado do comando da confederação em 2025. A questão principal, porém, não é saber apenas quem vazou recibos, faturas ou documentos. A pergunta mais importante é outra: por que esse tipo de gasto teria passado por circuitos ligados à entidade e qual controle interno permitiu que a suspeita chegasse a esse ponto?

O incômodo aumenta porque a CBF é uma instituição privada, mas exerce função pública no futebol brasileiro. Ela organiza competições nacionais, administra a Seleção, dialoga com Fifa e Conmebol, controla regulamentos, influencia calendário, arbitragem e distribuição de poder. Portanto, quando há suspeita de uso da estrutura para despesas pessoais, o debate não pode ser reduzido a briga de bastidor. Se houve irregularidade, ela precisa ser explicada. Se não houve, a entidade deve demonstrar com documentos, comprovantes e critérios objetivos. Investigar vazamento pode até fazer parte da rotina administrativa, mas não pode substituir a prestação de contas.

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A outra CBF: diálogo, regulamento e promessa de liga

No mesmo momento em que enfrenta desgaste interno, a CBF anunciou um processo que, no papel, aponta para uma agenda mais moderna. A entidade informou que iniciará, ao longo do segundo semestre de 2026, uma construção coletiva do novo Regulamento dos Campeonatos Brasileiros das Séries A e B para a temporada de 2027, com participação dos clubes das duas divisões. O primeiro encontro está previsto para 10 de agosto e será dedicado à arbitragem. Depois virão reuniões em 14 de setembro, sobre organização das competições; 13 de outubro, com licenciamento e infraestrutura; 9 de novembro, sobre realização das partidas; e 7 de dezembro, para governança, fiscalização e integridade.

A iniciativa dá sequência ao diálogo aberto em abril, no Rio de Janeiro, quando CBF e clubes das Séries A e B começaram a discutir a criação de uma liga do futebol brasileiro. Naquele encontro, foram apontadas áreas prioritárias para fortalecer o produto nacional, como calendário, tempo de jogo, estádios, transmissão, sustentabilidade financeira e governança do regulamento. A confederação afirma que a ideia é preparar terreno para um eventual modelo de liga, aproximando a estrutura brasileira de referências internacionais observadas em imersões na Europa e durante a Copa do Mundo de 2026.

Esse debate é importante. O futebol brasileiro tem uma das competições mais valiosas do mundo, mas ainda convive com regulamentos frágeis, calendário irracional, arbitragem sem credibilidade, gramados ruins, estádios desiguais, insegurança jurídica e decisões tomadas de cima para baixo. Se a CBF realmente pretende construir regras com previsibilidade, transparência e qualidade técnica, ouvir os clubes é obrigação básica, não favor institucional. O problema é que a entidade precisa provar que o processo será mais do que uma vitrine de governança.

Bonitas palavras, velhos testes

Samir Xaud afirmou, no comunicado da CBF, que o futebol brasileiro precisa ser construído com diálogo e participação, porque decisões importantes não devem ser tomadas sem ouvir quem disputa as competições. O diretor executivo da entidade, Hélio Melillo, seguiu a mesma linha e disse que as decisões sobre o campeonato pertencem aos clubes, defendendo regras claras, previsíveis e alinhadas às melhores práticas internacionais.

As frases são corretas. O desafio é transformá-las em prática. A CBF tem longo histórico de centralização, improviso e uso político do regulamento. O futebol brasileiro sabe bem como decisões sobre arbitragem, calendário, mando de campo, punições, licenciamento e integridade podem ser aplicadas de forma desigual. Por isso, o processo anunciado só terá valor real se as reuniões produzirem atas, critérios públicos, consultas transparentes, prazos definidos e mecanismos de fiscalização que impeçam a velha cultura do “decide-se depois”.

Também haverá um teste político inevitável. Quando Flamengo, Palmeiras, Corinthians, São Paulo, Vasco, Botafogo, Bahia, Atlético-MG, Grêmio, Internacional ou qualquer outro clube apresentar sugestões, a reação não pode depender da camisa. Se o Fla defender critérios mais duros para gramados, arbitragem, integridade financeira ou multipropriedade, isso não pode ser tratado automaticamente como tentativa de mandar no campeonato. Se outro clube propuser medidas parecidas, também não pode virar “modernização” apenas por conveniência narrativa.

A CBF, nesse ponto, está diante de uma oportunidade e de um risco. A oportunidade é usar o debate do regulamento para construir as bases de uma liga mais profissional, com menos casuísmo e maior confiança pública. O risco é transformar a agenda em peça de comunicação enquanto os problemas internos seguem corroendo a autoridade moral da entidade. Não se moderniza o futebol brasileiro apenas com reuniões temáticas. Moderniza-se quando a regra vale para todos e quando a entidade que cobra integridade dos clubes também se submete a padrões rigorosos de transparência.

A crise das viagens e o anúncio do novo regulamento caminham lado a lado porque revelam as duas faces da CBF atual. Uma fala em governança, diálogo e melhores práticas. A outra tenta descobrir quem vazou documentos que constrangeram sua própria cúpula. O futebol brasileiro precisa de uma confederação capaz de discutir liga, arbitragem, calendário e sustentabilidade, mas também precisa de uma entidade que explique seus gastos, seus controles e suas relações de poder. Se a CBF quer liderar uma nova fase, deve começar pelo básico: menos caça ao vazador, mais resposta sobre o conteúdo vazado; menos discurso bonito, mais regra pública; menos bastidor, mais prestação de contas.

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