A CBF marcou para 10 de agosto, no Rio de Janeiro, uma reunião com os 40 clubes das Séries A e B para discutir a aplicação imediata das novas regras do futebol no Campeonato Brasileiro. A projeção, baseada nas informações de Igor Siqueira e Rodrigo Mattos, é que as mudanças já passem a valer na 23ª rodada, prevista para 15 e 16 de agosto, nas duas principais divisões nacionais. A medida mira aumento de bola rolando, ajustes de arbitragem e a implementação do impedimento semiautomático, mas nasce com uma contradição evidente: alterar procedimentos relevantes no meio da competição, quando todos os clubes já disputam pontos, tabela, permanência, título, vaga continental e sobrevivência financeira sob um regulamento em andamento.
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O pacote envolve prazos mais rígidos para retomadas de jogo e novas interpretações operacionais. A ideia inclui cinco segundos para cobrança de lateral, cinco segundos para tiro de meta, dez segundos para o jogador deixar o campo em substituições, um minuto fora após atendimento médico, VAR checando escanteios e aplicação de segundo cartão amarelo. A Conmebol também avisou que implementará as novas regras, com exceção da chamada “lei Vini Júnior”, que pune com cartão vermelho o jogador que coloca a mão na boca para esconder o que diz durante uma discussão.
O problema não é modernizar, é improvisar
O futebol brasileiro precisa de tecnologia, tempo de bola rolando, arbitragem mais rápida e protocolos menos confusos. Ninguém sério pode defender um jogo paralisado por cera, lateral eterno, goleiro enrolando tiro de meta ou VAR levando seis minutos para revisar lance que deveria ser resolvido com eficiência. O problema é o método. Quando uma entidade decide aplicar mudanças no meio do campeonato, abre margem para questionamentos legítimos sobre isonomia, adaptação, treinamento, comunicação e impacto competitivo.
A CBF já começou a disponibilizar instruções aos clubes envolvidos no play-off da Sul-Americana, justamente porque haverá intervalo entre a aplicação no Brasileirão e o reinício das competições continentais. Além disso, colocou na agenda novas reuniões mensais em 2026 para avançar temas ligados à criação da Liga Única: organização da competição em setembro, licenciamento e infraestrutura em outubro, realização das partidas em novembro e governança e integridade em dezembro. O calendário mostra que há uma tentativa de organizar o futuro, mas também revela um velho vício brasileiro: planejar a estrutura enquanto se remenda a competição em curso.
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Impedimento semiautomático, mas diferente da Copa
A principal novidade é o impedimento semiautomático. Só que o modelo brasileiro não será igual ao usado pela FIFA na Copa do Mundo. No Brasileirão, não haverá chip na bola. O sistema terá de 28 a 32 câmeras de alta resolução, o que, na visão da empresa responsável, compensaria a ausência do chip. A diferença não é pequena. Na Copa, o sistema combinava câmeras espalhadas pelo estádio com tecnologia na bola, permitindo maior precisão no momento do contato e na leitura do lance.
A ausência do chip é explicada, ao menos como hipótese, pela patente da tecnologia associada à Adidas, enquanto as bolas oficiais do Campeonato Brasileiro são da Nike. Se esse for mesmo o entrave, a CBF deveria tratar o tema como questão de negociação, licença e padronização tecnológica. Não faz sentido o futebol brasileiro investir em impedimento semiautomático e aceitar, de saída, uma versão diferente daquela vista no ambiente FIFA por um problema comercial que poderia ter sido enfrentado antes.
O sistema brasileiro, por outro lado, promete avanços visuais importantes. Enquanto na Copa do Mundo 16 câmeras trabalhavam com imagens de 50 frames por segundo, o Brasileirão deve utilizar cerca de 32 câmeras por jogo, em 4K e 100 frames por segundo. A promessa é criar uma réplica digital do confronto, com mais aparelhos captando informações e entregando imagens melhores para lances milimétricos. Isso pode reduzir aquele velho constrangimento do VAR nacional: zoom estourado, imagem pixelizada, linha torta e torcedor sem entender se a decisão veio da tecnologia ou de uma espécie de adivinhação com replay ruim.
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A tecnologia não apita sozinha
A diferença mais sensível estará na comunicação com os assistentes. Na Copa, pela velocidade do sistema, os bandeirinhas recebiam orientação em tempo real e eram comunicados sobre levantar ou não a bandeira. No Brasileirão, os assistentes seguirão trabalhando sem auxílio prévio da tecnologia. A marcação de campo prevalecerá até o fim da jogada, e o impedimento semiautomático entrará depois para validar ou não o lance. Em outras palavras: o Brasil terá uma tecnologia nova, mas ainda dependente do velho roteiro do VAR, com a jogada seguindo, a checagem vindo depois e o torcedor esperando a imagem final aparecer.
A empresa contratada pela CBF promete entregar a imagem digital final em segundos, comprovando ou descartando o impedimento. A Genius, responsável pelo serviço, também opera em competições como Premier League, Campeonato Mexicano e Bélgica, o que dá algum lastro internacional à escolha. Ainda assim, o desafio brasileiro nunca foi apenas contratar ferramenta. O problema está na aplicação. O VAR, em tese, também chegou para diminuir erro, acelerar justiça e dar suporte ao árbitro. Na prática, vimos protocolos quebrados, critérios móveis, revisões intermináveis e decisões que aumentaram a desconfiança em vez de reduzi-la.
O ponto crítico está no fator humano. A tecnologia pode melhorar imagem, oferecer mais câmeras, reduzir margem de erro e entregar animações em segundos. Mas, se o protocolo for mal aplicado, se o árbitro se deixar influenciar por jogador, pressão externa ou ruído de arquibancada, o sistema seguirá contaminado. A transcrição cita um lance envolvendo o Palmeiras em que o árbitro teria marcado uma coisa e depois voltado atrás influenciado por jogadores e torcedores. Esse tipo de episódio resume a maior fragilidade da arbitragem brasileira: muitas vezes, não falta ferramenta; falta autoridade, padrão e respeito ao procedimento.
Modernizar o Brasileirão é necessário. Implementar impedimento semiautomático pode ser positivo. Aumentar o tempo de bola rolando é uma obrigação para um campeonato que quer se vender melhor. Mas a CBF precisa entender que tecnologia sem planejamento vira maquiagem institucional. Mudar regra com a competição em andamento, adotar um sistema sem chip na bola, depender da promessa de entrega rápida de imagem e manter assistentes sem comunicação prévia exige explicação, treinamento e transparência. O futebol brasileiro não precisa apenas de câmeras em 4K. Precisa de governança em alta resolução.
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