CBF promove Péricles Bassols após polêmica no VAR da Supercopa envolvendo o Flamengo

A CBF colocou Péricles Bassols no centro da nova estrutura da Comissão de Arbitragem poucos meses depois de ele aparecer em uma das maiores controvérsias recentes envolvendo o VAR no futebol brasileiro. O ex-árbitro, que era gerente técnico de VAR, foi nomeado vice-presidente da comissão e seguirá acumulando a função anterior, justamente a área que deveria ter recebido explicações públicas mais convincentes após a polêmica na Supercopa entre Flamengo e Corinthians. O anúncio, feito pela entidade, foi vendido como parte de um processo de qualificação e profissionalização da arbitragem, mas reacendeu uma pergunta incômoda: como a CBF fala em desenvolvimento técnico se promove um personagem associado a uma discussão sobre interferência externa na cabine de vídeo?
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A mudança foi apresentada como novidade administrativa. Péricles Bassols assumiu a vice-presidência da Comissão de Arbitragem, enquanto Kléber Gil, ex-assistente Fifa e então chefe da comissão de arbitragem de Santa Catarina, passou a integrar o conselho ao lado de Luiz Flávio de Oliveira e Fabrício Vilarinho. Netto Goés, diretor de arbitragem da CBF, afirmou que as escolhas representavam investimento em treinamento e a busca por bons instrutores no processo de desenvolvimento da arbitragem brasileira. A fala seria protocolar em qualquer federação minimamente organizada, mas ganha outro peso quando o principal nome promovido é o mesmo que esteve na cabine do VAR em Flamengo x Corinthians, na Supercopa, durante a revisão que terminou com a expulsão de Carrascal.
A promoção e o passado recente
A Supercopa virou objeto de debate não apenas pela expulsão de Carrascal, mas pela forma como o lance foi conduzido. A discussão jamais foi simplesmente se o jogador do Flamengo merecia ou não o cartão vermelho. O ponto central sempre esteve no protocolo. O vídeo divulgado pela própria CBF mostrou Péricles Bassols, então observador do VAR, próximo à mesa da cabine e se comunicando com os responsáveis pela revisão. Segundo o UOL, a polêmica envolveu exatamente a comunicação de Bassols com a cabine no lance ocorrido no fim do primeiro tempo e revisado antes do reinício da partida.
A CBF defendeu, à época, que a participação de Bassols teria se limitado a orientar sobre procedimento e não configuraria interferência externa. Em nota ao UOL, a entidade sustentou que ele não participou da decisão final, nem recomendou a expulsão, e que a decisão coube ao árbitro de campo após revisão na Área de Revisão do Árbitro (ARA), recomendada pelo árbitro de vídeo Rodolpho Toski. O mesmo texto, no entanto, traz um trecho do protocolo oficial do VAR que ajuda a entender por que a polêmica não pode ser varrida para debaixo do tapete: o observador pode avaliar o trabalho do VAR e impedir uma infração de protocolo, mas não deve se envolver em tomada de decisões.
É exatamente nessa fronteira que mora o problema. Se Bassols apenas impediu uma infração de protocolo, a CBF deveria ter explicado de forma didática, transparente e completa por que sua fala não influenciou a decisão. Se houve instrução direta sobre a possibilidade de revisão, como apontaram analistas de arbitragem, a discussão muda de patamar. A entidade não pode tratar como detalhe a presença de uma figura de comando, com poder técnico sobre a área de VAR, dentro de uma cabine em que árbitros trabalham sob pressão. Hierarquia pesa. Cargo pesa. Voz de superior pesa mais ainda.
A comentarista Renata Ruel, da ESPN, chamou atenção para esse ponto ao analisar as imagens liberadas pela CBF. Ela destacou que normalmente aparecem no material apenas VAR, AVAR e técnico, mas naquele jogo era possível ver Bassols, observador do VAR e membro da comissão de arbitragem, próximo à mesa. Mais do que a imagem, o áudio indicaria instruções claras aos árbitros de vídeo durante a revisão da conduta de Carrascal em Bidon. A crítica reforça que a função do observador é verificar o cumprimento do protocolo, não instruir diretamente a equipe no processo decisório.
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A CBF e a pedagogia do silêncio
O futebol brasileiro se acostumou a aceitar explicações pela metade quando o assunto é arbitragem. A CBF divulga áudios, publica notas, muda nomes, cria cargos, promete treinamento e fala em profissionalização. O que raramente aparece é prestação de contas real. No caso da Supercopa, a entidade poderia ter feito uma coletiva técnica, mostrado a cadeia de comando, explicado o papel de cada integrante na cabine, apresentado o protocolo em linguagem simples e respondido a especialistas. Em vez disso, a discussão ficou espalhada entre vídeos, cortes, análises de programas esportivos e notas defensivas.
O resultado é previsível. Quando a mesma pessoa envolvida numa controvérsia é promovida meses depois, a desconfiança aumenta. A promoção de Bassols à vice-presidência da comissão, acumulando ainda a gerência técnica do VAR, passa a impressão de que a CBF não apenas minimizou o episódio como tratou a polêmica como irrelevante para sua avaliação interna. No futebol brasileiro, muitas vezes, errar, ser questionado ou virar centro de controvérsia não produz apuração pública, mas fortalecimento dentro da máquina.
A metáfora popular é conhecida: caiu para cima. No caso de Bassols, ela se encaixa porque a CBF não tirou o dirigente da área sensível. Ao contrário, ampliou sua influência. Se antes ele era gerente técnico do VAR, agora também é vice-presidente da Comissão de Arbitragem. Isso significa mais poder político, mais autoridade interna e mais capacidade de moldar a formação de árbitros, justamente em uma área marcada por cobranças de transparência e credibilidade.
O Flamengo como laboratório de crise
O Flamengo aparece de novo no meio de uma discussão que ultrapassa o próprio clube. Não se trata de pedir benefício para o Rubro-Negro, nem de transformar cada erro de arbitragem em conspiração. O ponto é outro: quando uma partida envolvendo o Fla gera uma polêmica de protocolo, a resposta institucional da CBF deveria ser exemplar, porque o alcance do clube aumenta a cobrança pública e amplia a responsabilidade da entidade. Se a CBF não consegue explicar com clareza um lance de Supercopa com áudio, imagem e repercussão nacional, como convencerá torcedores de clubes menores em jogos com menos câmeras, menos pressão e menos debate?
A arbitragem brasileira vive uma crise de confiança porque suas estruturas parecem responder mais à autopreservação do que ao controle de qualidade. O problema não está apenas no erro de campo. Erro de árbitro existe em qualquer lugar do mundo. O que corrói a credibilidade é a sensação de que o sistema se protege mesmo quando deveria se expor ao escrutínio. Quando um observador aparece orientando uma cabine, a CBF precisa provar que o procedimento foi correto. Quando promove esse mesmo observador, precisa explicar por que a controvérsia não compromete sua autoridade técnica.
Há ainda uma questão de comando. O UOL registrou críticas de especialistas à presença de figuras de alto escalão em funções ligadas à operação da partida, inclusive a avaliação de que esse tipo de exposição gera ambiente de insegurança e mina a autoridade dos árbitros. A lógica é simples: se quem chefia, treina ou escala está ali perto da operação, a autonomia da equipe fica naturalmente pressionada, ainda que ninguém dê uma ordem explícita.
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Profissionalização não combina com opacidade
A CBF gosta de usar a palavra profissionalização quando fala de arbitragem. O termo aparece em reformas, cursos, intercâmbios, comissões e discursos oficiais. Mas profissionalizar não é apenas reunir árbitros em treinamentos, criar cargos ou importar terminologias. Profissionalizar é construir processo, estabelecer responsabilidade, publicar critérios, reconhecer falhas e impedir que dúvidas graves sejam respondidas com silêncio institucional.
A nomeação de Bassols poderia ser defendida tecnicamente se viesse acompanhada de uma explicação robusta. A CBF poderia dizer o que avaliou, quais critérios usou, por que considera que sua atuação na Supercopa foi compatível com o protocolo e quais medidas adotou para evitar novas dúvidas sobre a presença de observadores na cabine. Sem isso, o anúncio fica com cara de recado interno: a entidade banca seus quadros, independentemente da percepção pública.
Essa postura cobra preço. Torcedores passam a acreditar que o sistema é fechado. Clubes se sentem vulneráveis. Árbitros de campo ficam expostos. O VAR, que nasceu para corrigir erros claros, vira fonte permanente de desconfiança. A cada áudio divulgado, mais perguntas surgem. A cada promoção sem explicação, cresce a sensação de que a arbitragem brasileira presta contas apenas a si mesma.
No fim, a discussão sobre Péricles Bassols não é apenas sobre uma pessoa. É sobre o tipo de arbitragem que a CBF quer construir. Se a entidade deseja uma estrutura respeitada, precisa entender que credibilidade não se impõe por cargo, nota oficial ou discurso de treinamento. Credibilidade nasce da coerência entre o que se promete e o que se pratica. Ao promover Bassols sem resolver publicamente as dúvidas deixadas pela Supercopa, a CBF transforma uma polêmica mal explicada em símbolo de sua própria dificuldade de mudar.
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