Landim processa o Flamengo e tenta anular regra que barra vínculos com SAFs

Rodolfo Landim, ex-presidente do Flamengo, levou à Justiça do Rio uma disputa que nasceu dentro da Gávea, passou pelo estatuto do clube e chegou ao Judiciário com uma contradição difícil de ignorar. Impedido de participar dos poderes rubro-negros por causa de sua ligação com a SAF do Confiança, em Sergipe, Landim pede a suspensão imediata do ato que o afastou e também a nulidade parcial das alterações estatutárias aprovadas neste ano.
Na prática, o caso não trata apenas do direito individual de um ex-presidente ocupar assentos nos conselhos do clube, mas de uma pergunta mais ampla: o Flamengo pode se proteger de dirigentes, investidores ou consultores ligados a outras agremiações sem que isso seja tratado como perseguição política? A ação foi revelada pela coluna de Ancelmo Gois, em O Globo, que informou que Landim sustenta que a reforma teria sido feita para “inviabilizar uma eventual candidatura” sua nas próximas eleições do clube.
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O ponto central da controvérsia está no vínculo de Landim com o projeto da SAF do Confiança. A defesa política do ex-presidente passou a apresentar a sua atuação como consultoria, mas a própria cobertura sobre a aprovação da SAF mostra uma participação mais robusta. Em novembro de 2025, a transformação do futebol do Confiança em Sociedade Anônima do Futebol foi aprovada por unanimidade em Assembleia Geral, com 481 sócios-torcedores aptos ao voto, além de membros da diretoria e dos conselhos do clube sergipano. A proposta foi apresentada pela LG2, empresa capitaneada por Rodolfo Landim, Gustavo Oliveira e Gabriel Araujo, e previa uma fase de transição para que o grupo participasse do planejamento da transformação da associação em SAF.
Essa diferença entre “consultor” e integrante de um projeto de gestão não é detalhe semântico. É justamente nela que mora o conflito de interesse apontado pelo Flamengo. Um ex-presidente rubro-negro, membro nato de conselhos internos, com acesso a informações sensíveis, estratégicas e financeiras, pode ao mesmo tempo participar da estruturação de outro clube que pretende crescer no futebol brasileiro? A resposta do estatuto aprovado pelo Conselho Deliberativo foi dura: não pode. A discussão, porém, ganhou outro contorno quando Landim, que em outros momentos criticou adversários por judicializarem decisões internas, recorreu agora ao mesmo caminho para tentar derrubar uma regra aprovada pelos poderes do clube.
A regra que Landim quer derrubar
A alteração estatutária aprovada em fevereiro ampliou o veto à participação de associados ligados a outras agremiações ou SAFs nos poderes do Flamengo. Antes, o estatuto já impedia dirigentes de clubes que disputassem competições oficiais contra o Rubro-Negro, mas a emenda apresentada pela gestão Bap expandiu o alcance da norma para vínculos diretos e indiretos, incluindo investidor, acionista, cotista, gestor, administrador, diretor ou conselheiro, remunerado ou não. O texto também equiparou à condição de investidor o associado que realize aporte financeiro, empréstimo, garantia ou qualquer suporte econômico a outra agremiação ou SAF, ainda que de modo eventual, gratuito ou informal.
O dispositivo ainda criou uma quarentena de 12 meses após o desligamento formal, efetivo e comprovado do associado em relação ao outro clube ou SAF. Isso significa que o impedimento não é eterno, nem funciona como expulsão política. O associado pode se desligar do projeto externo, comprovar o fim do vínculo econômico, financeiro ou de gestão, cumprir o prazo estatutário e voltar a participar dos poderes rubro-negros. Essa é uma diferença essencial para separar proteção institucional de perseguição pessoal.
O ponto mais sensível é destacado com clareza: Landim não estaria apenas pedindo para ser reconhecido como alguém que não se enquadra no impedimento. Ele busca também a nulidade parcial das alterações do estatuto. Esse pedido, caso prosperasse, poderia abrir caminho não apenas para sua própria recondução, mas também para o retorno de aliados políticos igualmente atingidos pela regra, como nomes ligados ao projeto do Confiança.
É aí que a discussão deixa de ser apenas jurídica e passa a ser política. Um associado pode discordar de uma norma e buscar seus direitos. Isso é legítimo. O problema surge quando a contestação tenta transformar uma regra geral de governança em um suposto ato pessoal de perseguição, mesmo diante de um cenário em que o futebol brasileiro vive a expansão das SAFs, a multiplicação de grupos multiclubes, a entrada de investidores privados e a necessidade cada vez maior de preservar informações estratégicas das instituições.
O Confiança não é uma nota de rodapé
O caso seria bem diferente se Landim estivesse apenas dando uma palestra, emitindo um parecer pontual ou conversando informalmente com dirigentes do Confiança. Não é o que se conhece publicamente. O ge noticiou que Landim era o principal nome da LG2, grupo que atuaria na administração da SAF por meio de um Conselho Consultivo. Na mesma matéria, o ex-presidente afirmou que a gestão da SAF já trabalhava em parceria com a diretoria do clube sergipano na transição e na montagem do elenco para 2026, mesmo antes da formalização final do processo.
Esse dado muda o peso da discussão. Se a SAF do Confiança participa de montagem de elenco, governança, planejamento, transição e futura administração, a presença de Landim nos conselhos do Flamengo deixa de ser uma questão meramente protocolar. O Conselho de Administração rubro-negro debate orçamento, contratos, estratégias, investimentos e temas internos que podem interessar a qualquer clube com ambição esportiva. O Conselho Deliberativo também recebe informações relevantes sobre o funcionamento institucional. Em um futebol cada vez mais empresarial, dados internos valem dinheiro, posição política e vantagem competitiva.
A comparação com Palmeiras e Vasco ajuda a entender o incômodo. O Flamengo tem se posicionado contra modelos que criem sobreposição de interesses entre clubes, investidores e estruturas de poder. Seria incoerente defender uma barreira rígida no futebol brasileiro e, ao mesmo tempo, aceitar dentro dos próprios conselhos um ex-presidente ligado a outro projeto de gestão esportiva. A instituição não pode medir conflito de interesse pela biografia do personagem. Ou a regra vale para proteger o Fla, ou ela se transforma em conveniência de ocasião.
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A contradição de quem criticava a judicialização
O trecho mais incômodo dessa história está no passado recente. Em 2018, durante a eleição rubro-negra, a chapa de Landim criticou a judicialização feita por adversários na disputa sobre a cor das chapas e acusou o movimento de desrespeitar decisões soberanas dos poderes internos do Flamengo. Em 2021, no debate sobre voto à distância, o presidente também defendeu a autonomia administrativa do clube diante da tentativa de Walter Monteiro, candidato na ocasião, de levar a questão ao Judiciário, com o argumento de que caberia aos órgãos rubro-negros definir as regras eleitorais.
O padrão é conhecido na política rubro-negra. Quando a decisão interna favorece um grupo, fala-se em autonomia associativa. Quando atrapalha o projeto de poder, surge a urgência de bater à porta do Judiciário. O problema não está em acionar a Justiça, que é um direito de qualquer associado, dirigente ou ex-presidente. A crítica está na seletividade do discurso. Landim tratava a judicialização dos outros como ataque ao Flamengo. Quando a caneta judicial pode servir ao seu próprio interesse, o gesto passa a ser vendido como defesa de direitos.
Esse tipo de mudança não é detalhe retórico. Ele revela uma cultura política em que o estatuto é reverenciado quando serve de escudo e questionado quando vira limite. O Flamengo já viu isso muitas vezes. Regras internas são defendidas com solenidade no poder e relativizadas na oposição. A diferença, agora, é que o pano de fundo não é apenas uma disputa de chapa, cor eleitoral ou documento de votação. O pano de fundo é o conflito entre o maior clube do Brasil e o novo ambiente das SAFs, no qual dirigentes podem circular entre projetos, fundos, consultorias e empresas de gestão esportiva.
Proteção institucional não é perseguição
A defesa de Landim pode argumentar que a emenda foi feita sob medida para atingi-lo. Mesmo que esse tenha sido um dos fatores políticos do debate, isso não elimina automaticamente a legitimidade da norma. Muitas regras nascem depois de casos concretos. Um clube percebe uma vulnerabilidade, identifica um risco e cria uma barreira para evitar que o problema se repita. A existência de um personagem que motivou a discussão não torna a regra ilegal por si só, desde que o texto seja geral, impessoal e aplicável a qualquer associado na mesma condição.
A emenda aprovada pelo Flamengo não cita Landim. Ela alcança qualquer pessoa com participação, influência, função de gestão ou expectativa econômica em outra agremiação ou SAF. Atinge antigos aliados, ex-dirigentes, investidores, consultores e qualquer associado que se enquadre no dispositivo. Pode ser uma regra dura, pode ser debatida politicamente, pode até ser aperfeiçoada, mas seu objetivo institucional é claro: impedir que alguém com vínculo relevante em outro clube participe das estruturas de poder rubro-negras.
A pergunta correta, portanto, não deveria ser se Landim gostou da mudança. A questão é se o Flamengo tem o direito de estabelecer uma barreira preventiva para proteger sua governança. Em um clube associativo, decisões estatutárias aprovadas pelo Conselho Deliberativo possuem peso político e institucional. O Judiciário pode intervir quando há ilegalidade, abuso ou violação de direitos, mas não deveria substituir a vontade associativa apenas porque um grupo perdeu uma votação ou porque determinado projeto eleitoral foi atingido por uma regra de compliance.
Há uma saída simples para Landim, prevista no próprio estatuto: desligar-se integralmente do Confiança, encerrar qualquer vínculo econômico, financeiro ou de gestão, cumprir a quarentena de 12 meses e voltar à vida política do Flamengo pelos caminhos internos. Essa alternativa desmonta a tese de inviabilização absoluta. O que existe é uma escolha: manter o vínculo com outro projeto esportivo ou recuperar plenamente o espaço nos poderes rubro-negros.
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O Flamengo acima dos personagens
O Flamengo precisa aprender a separar biografia de governança. Landim teve importância na história recente do clube, presidiu um período de títulos relevantes e participou de decisões que marcaram a instituição. Nada disso lhe dá salvo-conduto para circular acima das regras que valem para os demais associados. O mesmo raciocínio serviria para qualquer ex-presidente, dirigente histórico ou benemérito. O clube não pode depender da boa vontade individual de quem detém informação estratégica. Precisa de norma, controle e consequência.
Também seria errado transformar a discussão em caça política. Landim não deve ser alvo de inquérito interno ou punição artificial apenas por disputar espaço, criticar a gestão ou buscar direitos. O Flamengo já cometeu erros graves quando tratou divergência como ameaça e perseguiu personagens por conveniência de grupo. A diferença aqui é que não se discute expulsão, suspensão disciplinar ou ataque pessoal. Discute-se impedimento estatutário diante de vínculo com outro clube.
A ação judicial de Landim, no fundo, coloca o Flamengo diante de um teste de maturidade. Se a atual gestão usar o caso apenas como troféu político, desperdiçará a chance de consolidar uma regra importante. Se a oposição tratar a emenda como perseguição sem enfrentar o conflito de interesse, repetirá a velha prática de dobrar a instituição ao projeto pessoal. O clube precisa resistir às duas tentações.
O que está em jogo é maior do que Landim, Bap, Confiança ou qualquer eleição futura. O Flamengo precisa decidir se seus conselhos serão espaços de proteção institucional ou extensões de projetos privados espalhados pelo futebol brasileiro. Em um tempo de SAFs, investidores, fundos e redes de influência, o Rubro-Negro não pode esperar o conflito explodir para agir. A regra pode até ter nascido de uma circunstância concreta, mas sua utilidade vai além do personagem da vez. O Mais Querido não pertence a ex-presidentes, presidentes atuais ou grupos políticos. Pertence à sua história, aos seus associados e à sua torcida, e por isso precisa ser protegido inclusive daqueles que um dia o comandaram.
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