Empresário afirma que Flamengo não vendeu Gerson e explica impasse sobre comissão

A disputa entre Flamengo, Gerson e o empresário Marcão, pai do jogador, deixou de ser apenas uma discussão sobre a saída do antigo capitão para o Zenit e passou a revelar um emaranhado de contratos, direitos de imagem, comissões e versões conflitantes. Durante participação no podcast Terraflamistas, apresentado por Rodrigo Costa Cruz e Tulio Rodrigues, o empresário de futebol Luiz Vianna analisou a cobrança de uma comissão futura reivindicada pelo estafe do atleta, explicou a diferença entre uma venda negociada e o pagamento de uma cláusula rescisória e fez uma avaliação crítica sobre a participação de familiares na condução profissional de jogadores.
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O debate ocorre enquanto Flamengo e Gerson travam uma disputa judicial relacionada ao contrato de imagem assinado antes da transferência para a Rússia. O clube cobra R$ 42,7 milhões do jogador e da FGM Sports, empresa de Marcão, sob o argumento de que houve rompimento antecipado do acordo. A defesa sustenta que o vínculo foi encerrado com o pagamento integral da cláusula indenizatória desportiva e acusa a antiga diretoria rubro-negra de agir de má-fé. O processo tramita na 25ª Vara Cível do Rio de Janeiro e ainda não possui decisão definitiva sobre o mérito.
A comissão que já aparece nas contas do Flamengo
A controvérsia ganhou outra dimensão depois que Marcão afirmou possuir um documento firmado na época da recompra de Gerson, junto ao Olympique de Marseille, em 2023. Segundo sua versão, um grupo de empresários teria direito a receber uma comissão quando o jogador fosse novamente transferido. O pai do atleta reconheceu, porém, que o compromisso não estaria registrado diretamente em seu nome, circunstância que dificulta compreender quem seriam os beneficiários, qual serviço foi prestado e em que situação o pagamento se tornaria obrigatório.
O balanço financeiro do Flamengo acrescenta uma informação relevante ao caso. Nas demonstrações referentes a dezembro de 2023, o clube registrou R$ 85,715 milhões destinados ao Olympique de Marseille pela aquisição de Gerson, R$ 4,095 milhões classificados como custo de intermediação da TM9 Sports Ltda.
A existência de uma comissão já registrada não prova que uma segunda remuneração seria irregular. Uma transferência pode envolver diferentes representantes, empresas e serviços, cada qual com obrigações específicas. Também é possível estabelecer pagamentos condicionados a acontecimentos futuros, como uma revenda, o cumprimento de metas ou a valorização do atleta. O problema começa quando um contrato dessa natureza aparece publicamente apenas depois de uma ruptura ruidosa, sem que dirigentes ou intermediários esclareçam sua origem e seu alcance.
Luiz Vianna confirmou que a chamada comissão futura existe no mercado. Na avaliação do empresário, um agente pode aceitar receber menos no primeiro momento e vincular outra parcela a uma negociação posterior. O ponto decisivo, entretanto, está na redação do compromisso: o documento fala em “venda”, “transferência”, “rescisão”, “saída” ou simplesmente no encerramento do vínculo? Cada expressão pode produzir uma consequência diferente, razão pela qual nenhuma das partes deveria tratar a obrigação como indiscutível sem apresentar o contrato completo.
Venda negociada ou pagamento de multa?
O Zenit depositou 25 milhões de euros, aproximadamente R$ 160 milhões na cotação daquele período, para retirar Gerson do Flamengo em julho de 2025. A quantia correspondia à cláusula rescisória estabelecida na renovação assinada poucos meses antes. Como o pagamento foi feito à vista, o clube russo não precisou negociar o preço da operação com a diretoria rubro-negra.
Na interpretação apresentada por Vianna, Gerson não foi vendido de maneira consensual pelo Flamengo. O vínculo teria sido rompido porque o valor contratualmente previsto foi pago, ainda que a formalização da mudança exigisse procedimentos posteriores. Essa distinção, longe de ser uma discussão meramente semântica, pode definir se a comissão mencionada por Marcão deve ou não ser quitada.
Caso o acordo previsse remuneração apenas diante de uma venda conduzida pelo Flamengo, a cobrança enfrentaria um obstáculo evidente, pois não houve negociação de preço, parcelamento ou autorização discricionária do clube. Se a cláusula abrangesse qualquer transferência definitiva ou saída mediante compensação financeira, a interpretação poderia ser diferente. Sem o texto integral, transformar opinião em certeza serve mais ao confronto público do que ao esclarecimento dos fatos.
A análise de Vianna também recoloca no centro do debate uma decisão tomada pelo próprio Flamengo. Na renovação de abril de 2025, a multa de Gerson foi reduzida para 25 milhões de euros. Pouco depois, o Zenit comunicou que pagaria o montante, deixando nas mãos do atleta a escolha entre permanecer no Rio de Janeiro ou aceitar a proposta russa.
A pergunta mais incômoda, portanto, não é apenas se Marcão receberá uma comissão. É preciso saber por que o clube diminuiu a proteção contratual de um jogador que era capitão, titular da Seleção Brasileira e um dos ativos mais importantes do elenco. Se a redução foi negociada porque Gerson já demonstrava intenção de sair ou porque havia uma oferta previamente conhecida, a diretoria responsável deve explicar quais contrapartidas recebeu e por que considerou aquele valor adequado.
A tese de que a cláusula foi fixada em um patamar alto, mas possível de ser pago, merece atenção. Na prática, isso poderia ter permitido ao Flamengo afirmar que não vendeu seu capitão, embora tenha assinado um contrato que facilitava sua saída mediante o depósito de uma quantia previsível. A formalidade jurídica não elimina a responsabilidade administrativa de quem definiu as condições do vínculo.
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Quando o pai também é empresário
O segundo eixo da entrevista ultrapassou a disputa contratual e entrou na relação entre jogadores e familiares. Para Luiz Vianna, pais podem desempenhar papel valioso na organização da vida pessoal e financeira de um atleta, principalmente quando o sucesso chega cedo. A mistura entre afeto, expectativas familiares e negociação profissional, contudo, tende a dificultar decisões que deveriam ser tomadas com alguma distância emocional.
Vianna citou o empresário Jorge Machado para ilustrar o problema. Mesmo com larga experiência e participação em transferências relevantes, Machado teria pedido ajuda durante uma negociação envolvendo Rafael Sóbis porque tratava o jogador como um filho e não conseguia manter o necessário distanciamento. A história não desqualifica pais ou parentes que atuam no mercado, mas mostra que experiência, vínculo emocional e conflito de interesses podem coexistir.
No caso de Gerson, o debate público frequentemente oscila entre dois extremos igualmente convenientes. De um lado, o jogador é apresentado como vítima absoluta de empresários e familiares. Do outro, Marcão é apontado como responsável exclusivo por todas as escolhas da carreira do filho. Gerson era um profissional adulto, experiente, bem remunerado, capitão do Flamengo e presença constante na Seleção. Ouviu conselhos, avaliou propostas e aceitou seguir para a Rússia.
Nenhum empresário pode obrigar um atleta nessas condições a assinar um contrato. A influência familiar pode ser determinante, especialmente quando a oferta é apresentada como oportunidade de garantir estabilidade para várias gerações, mas a decisão continua pertencendo ao jogador. Retirar completamente sua responsabilidade significa infantilizar um profissional que já havia participado de grandes negociações no Brasil e na Europa.
O dinheiro que muda tudo e o dinheiro que muda pouco
Vianna afirmou que não teria aceitado a proposta do Zenit caso estivesse na posição de Gerson. Seu argumento não se limita ao contexto político e esportivo da Rússia. Para o empresário, existe uma fase em que cada milhão transforma a vida de um jogador e outra em que o acréscimo financeiro precisa ser comparado com perda de visibilidade, competitividade e perspectiva de carreira.
Gerson recebia um dos principais salários do elenco rubro-negro, disputava títulos, era capitão e se encontrava no ciclo de preparação para a Copa do Mundo de 2026. A proposta russa oferecia uma valorização expressiva, com relatos de que seus rendimentos seriam multiplicados. A escolha, porém, não pode ser analisada apenas por uma planilha, pois também envolvia ambiente esportivo, projeção internacional e continuidade na Seleção.
O exemplo de Rafael Sóbis, lembrado por Vianna, mostra que não existe uma fórmula universal. Quando deixou o Betis para atuar no Al-Jazira, o atacante sabia que poderia perder espaço no futebol de maior visibilidade, mas considerou que o retorno econômico compensava o risco. A diferença estava na consciência da decisão, assumida pelo próprio jogador depois de ouvir os argumentos profissionais.
Gerson também fez sua escolha e deve ser tratado como protagonista dela. Isso não absolve dirigentes, intermediários ou representantes de explicar os contratos que assinaram. Tampouco autoriza torcedores a reduzir toda a discussão à acusação de mercenarismo, como se carreira, dinheiro, família e planejamento esportivo fossem elementos facilmente separáveis.
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O que o Flamengo ainda precisa explicar
A entrevista de Luiz Vianna ajuda a desmontar duas simplificações. A primeira é a ideia de que toda comissão futura seria anormal ou suspeita. A segunda é a afirmação de que o pagamento da multa produziria, automaticamente, os mesmos efeitos de uma venda negociada para qualquer contrato paralelo existente.
O centro do caso permanece documental. O Flamengo precisa informar quem participou da recompra de Gerson, quais intermediários foram remunerados, qual serviço justificou os R$ 4,095 milhões pagos à TM9 Sports e se existe outro compromisso vinculado a uma saída futura. Marcão, por sua vez, deveria apresentar integralmente o acordo que diz possuir, com nomes, assinaturas, condições e beneficiários, preservando apenas informações que realmente precisem permanecer sob sigilo.
Enquanto isso não ocorrer, cada lado continuará selecionando o trecho que mais favorece sua narrativa. A antiga gestão tentará defender a operação realizada em 2023; a administração atual usará o processo para sustentar que o Flamengo foi prejudicado; o estafe do jogador buscará demonstrar que cumpriu os contratos e ainda possui valores a receber. O torcedor, que financia o clube e acompanha seus balanços, não deveria ser obrigado a escolher uma versão sem conhecer os documentos.
O caso Gerson não trata apenas da decisão de um atleta que trocou o Flamengo pelo Zenit. Ele expõe uma cultura do futebol brasileiro em que comissões, direitos de imagem, termos laterais e promessas futuras permanecem restritos a pequenos grupos até que uma briga transforme contratos privados em armas públicas. Mais do que encontrar um culpado conveniente, cabe exigir transparência de todos os envolvidos, porque a ausência de respostas alimenta suspeitas mesmo quando uma operação pode ter sido perfeitamente legal.
Flamengo acusa Gerson de mentir na Justiça e aponta contrato com Zenit antes da rescisão
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