CINEFOOT realiza sessão especial dedicada à paixão rubro-negra com a exibição de “Onde Estiver, Estarei — Uma Paixão Rubro-Negra”

O CINEFOOT exibirá, no dia 10 de agosto, no Estação Claro Rio, em Botafogo, o documentário “Onde Estiver, Estarei — Uma Paixão Rubro-Negra”, dirigido por Pedro Asbeg e construído a partir das histórias de torcedores que acompanharam as conquistas continentais do Flamengo em 1981 e 2019. A sessão integra a 16ª edição do festival dedicado ao cinema de futebol e ganha dimensão especial por também celebrar a memória de Arthur Muhlenberg, responsável pelo roteiro da produção e uma das vozes mais reconhecíveis do rubro-negrismo contemporâneo.
Ouça nossas análises e entrevistas sobre a eleição do Flamengo no seu agregador de podcast preferido: Spotify, Deezer, Amazon, iTunes, Youtube Music, Castbox e Anchor.
Realizado entre 6 e 11 de agosto no Rio de Janeiro e de 7 a 10 em São Paulo, o evento reúne 75 filmes de dez países, com entrada gratuita. O festival ocupa um espaço pouco explorado no audiovisual brasileiro ao compreender que o futebol não se resume às imagens das partidas, aos depoimentos de campeões ou às decisões tomadas dentro dos vestiários. Ele também é formado por deslocamentos, arquibancadas, lembranças familiares e relações afetivas que sobrevivem às mudanças de gerações.
A arquibancada deixa de ser cenário
A escolha de colocar o torcedor no centro da narrativa rompe com um modelo repetido em grande parte dos documentários esportivos. Normalmente, a arquibancada aparece como elemento de ambientação: uma tomada aberta da festa, alguns segundos de choro, bandeiras em movimento e, logo depois, o retorno aos atletas tratados como únicos protagonistas da história.
“Onde Estiver, Estarei” inverte essa lógica ao acompanhar Francisco Moraes e Claudio Cruz, testemunhas da conquista da Libertadores de 1981 que voltaram a se encontrar em Lima, no dia 23 de novembro de 2019, para assistir à final contra o River Plate. O filme transforma a viagem desses rubro-negros em uma espécie de ponte entre duas épocas separadas por 38 anos, mostrando que a permanência da paixão não depende apenas dos títulos conquistados.
Em 1981, acompanhar o Flamengo pelo continente envolvia estradas precárias, pouca informação, comunicações limitadas e deslocamentos que exigiam planejamento quase artesanal. Em 2019, a tecnologia permitia comprar passagens, acompanhar notícias em tempo real e registrar cada momento pelas redes sociais, mas o sacrifício financeiro, a ansiedade e o desejo de estar presente continuavam reconhecíveis.
Francisco e Claudio representam milhares de torcedores que transformaram o clube em compromisso pessoal antes que o resultado oferecesse qualquer recompensa. Eles não viajaram apenas porque o Flamengo poderia levantar uma taça. Estavam em movimento porque acompanhar a equipe já fazia parte de uma identidade construída ao longo da vida.
Arthur Muhlenberg e a linguagem do rubro-negrismo
A sessão também possui um peso inevitavelmente emocional. Arthur Muhlenberg morreu em abril de 2026, aos 62 anos, deixando uma obra marcada pela mistura de humor, provocação, memória e análise do Flamengo. Publicitário e cronista, ele ajudou a criar um vocabulário próprio para sentimentos que milhões de rubro-negros reconheciam, mas nem sempre conseguiam organizar em palavras.
Arthur assina o roteiro do documentário ao lado de Pedro Asbeg, numa parceria que já havia passado por outras produções. Durante o desenvolvimento do filme, a proposta inicial sofreu alterações, principalmente em razão da pandemia, e passou a concentrar ainda mais atenção nos personagens e nas experiências humanas que cercaram as campanhas continentais.
A homenagem do CINEFOOT inclui ainda “O rubro-negrismo racional de Arthur Muhlenberg”, obra na qual o cronista conduz uma reflexão sobre o Flamengo como cultura, forma de pertencimento e maneira particular de enxergar o mundo. A presença dos dois filmes oferece unidade à sessão: no primeiro, Arthur ajuda a contar a travessia de outros torcedores; no segundo, sua própria voz se transforma em documento.
A expressão “rubro-negrismo racional” contém uma contradição apenas aparente. Arthur nunca pretendeu eliminar a paixão para explicar o Flamengo. Seu trabalho procurava demonstrar que o clubismo poderia conviver com repertório, inteligência, ironia e consciência histórica, sem depender da gritaria ou da indignação fabricada que dominam parte crescente do debate esportivo.
A memória não pode depender apenas da saudade
A homenagem é justa, mas também expõe uma dificuldade antiga dos clubes brasileiros em preservar seus próprios personagens. Cronistas, torcedores, fotógrafos, radialistas e produtores independentes costumam receber reconhecimento depois que suas obras já se encontram dispersas, ameaçadas pelo desaparecimento de plataformas ou guardadas em arquivos pessoais.
O Flamengo produz diariamente uma quantidade imensa de conteúdo, mas ainda precisa tratar a memória de sua torcida como patrimônio institucional. Preservar depoimentos, digitalizar acervos, financiar documentários e organizar registros históricos não deveria depender exclusivamente do esforço individual de cineastas, jornalistas e colecionadores.
O cinema cumpre essa função ao retirar uma história do fluxo acelerado das redes sociais e devolvê-la ao público com tempo para observação. Na sala escura, uma viagem a Lima deixa de ser apenas lembrança de uma final e passa a representar amizade, envelhecimento, permanência e ligação entre gerações.
A limitação de lugares também reforça a importância de ampliar o acesso posterior às obras. A sessão especial dedicada a Arthur foi anunciada para uma sala de apenas 70 assentos, quantidade pequena diante do público potencial. O caráter gratuito democratiza a entrada, mas a preservação cultural somente se completa quando os filmes conseguem circular em outras cidades, plataformas, escolas, cineclubes e eventos ligados ao Flamengo.
LEIA MAIS:
Entre 1981, 2019 e aquilo que permanece
As Libertadores de 1981 e 2019 ocupam posições diferentes na história rubro-negra. A primeira consolidou internacionalmente a geração de Zico, enquanto a segunda encerrou uma espera de quase quatro décadas e devolveu ao clube uma relação de protagonismo com o continente.
O documentário não trata essas conquistas apenas como pontos de chegada. Ao acompanhar quem atravessou fronteiras para assistir aos jogos, a obra demonstra que os títulos também pertencem àqueles que financiaram viagens, suportaram eliminações, retornaram para casa sem taça e continuaram acreditando quando a América parecia distante.
Essa perspectiva impede que a torcida seja reduzida a números de audiência, arrecadação ou seguidores. O valor comercial existe e sustenta parte significativa da força do Flamengo, mas não explica sozinho por que alguém atravessa um continente, mantém amizades por décadas ou organiza a própria vida em torno de um calendário de partidas.
O CINEFOOT oferece, portanto, mais do que uma sessão comemorativa. Ao aproximar o trabalho de Pedro Asbeg, a escrita de Arthur Muhlenberg e a trajetória de Francisco Moraes e Claudio Cruz, o festival transforma experiências particulares em memória coletiva. O Flamengo aparece como clube, mas também como idioma compartilhado entre pessoas que talvez nunca tenham se conhecido e, ainda assim, reconhecem as mesmas histórias.
A permanência de Arthur estará justamente na capacidade de sua obra continuar provocando risos, pensamentos e lembranças depois de sua ausência. Quando as luzes do cinema se apagarem, a homenagem não encerrará uma trajetória, mas reafirmará que determinadas vozes permanecem vivas enquanto houver alguém disposto a ouvi-las, preservá-las e levá-las adiante.
Serviço
Sessão: “Onde Estiver, Estarei — Uma Paixão Rubro-Negra”
Data: 10 de agosto – 19h30
Local: Estação Claro Rio, Rua Voluntários da Pátria, 35, Botafogo
Ingresso: gratuito, com retirada pela Sympla
Documentário do Flamengo na HBO conecta 1981 e 2019 pela visão da torcida; Estreia dia 28
—
+ Siga o Ser Flamengo no Twitter, no Instagram e no Youtube.
Descubra mais sobre Ser Flamengo
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.


