COMO A UMBRO TRANSFORMOU AS CAMISAS DO FLAMENGO E MARCOU A MODA DO FUTEBOL NOS ANOS 90

A camisa de futebol deixou de ser apenas uniforme de jogo nos anos 90. Ela passou a carregar tecnologia, moda, cultura urbana, marketing, memória afetiva e uma nova forma de consumo esportivo. O Flamengo viveu esse processo por dentro, em uma década de mudanças estéticas profundas, quando a Umbro substituiu a Adidas, levou ao clube uma linguagem visual mais ousada e ajudou a transformar mantos rubro-negros em peças que, décadas depois, seguem reverenciadas nas arquibancadas, nas redes sociais, no colecionismo e no uso cotidiano dos torcedores.
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A história não começa exatamente em 1992, quando a marca inglesa passou a vestir o Flamengo. Para entender o impacto da Umbro na Gávea, é preciso voltar aos anos 80, quando as camisas ainda carregavam muito da lógica artesanal do futebol brasileiro. O algodão predominava, os números eram costurados em tecido, a transpiração deixava os uniformes pesados e a chuva transformava o manto em um obstáculo ao desempenho. Não havia a preocupação, hoje quase obrigatória, de unir estética, conforto, tecnologia e performance. A camisa cumpria uma função esportiva, mas ainda estava distante do papel cultural e comercial que assumiria pouco depois.
A virada começou com o poliéster, avançou com a sublimação e explodiu com a chegada de uma linguagem visual influenciada pelo streetwear, pela cultura de arquibancada inglesa, pelo hip hop, pelo skate, pelas cores vibrantes e pela moda urbana. Nos anos 90, o futebol deixou de vestir apenas atletas. Passou a vestir torcedores como consumidores de identidade. A Umbro entendeu isso cedo e fez da camisa um ponto de encontro entre campo e rua. No Flamengo, essa mudança não foi apenas uma troca de fornecedora. Foi uma virada estética.
Do algodão ao poliéster: quando a camisa começou a mudar o jogo
Em meados dos anos 80, a camisa de futebol ainda era uma peça pesada, pouco tecnológica e muito menos pensada para o consumo fora do estádio. O algodão tinha tradição, mas acumulava suor, demorava a secar e dificultava o desempenho em partidas de alta intensidade. Os números costurados reforçavam a aparência artesanal, e os uniformes guardavam uma simplicidade que hoje desperta nostalgia, mas que estava longe de oferecer as condições desejadas para atletas profissionais.
O poliéster começou a entrar no futebol nesse período, primeiro misturado ao algodão e depois como fibra dominante no início dos anos 90. A vantagem era evidente: o tecido sintético era mais leve, secava com maior rapidez e permitia novas possibilidades de impressão. O problema também apareceu logo para quem viveu a época. As camisas esquentavam, pinicavam e tinham uma textura que nem sempre privilegiava o conforto. Mesmo assim, a mudança abriu caminho para a transformação visual que marcaria a década.
A sublimação foi decisiva nesse processo. A técnica, baseada na transferência de tinta para o tecido por meio de calor, permitiu a criação de grafismos, desenhos geométricos, efeitos de profundidade, padrões tonais e estampas que antes seriam muito difíceis ou inviáveis na produção tradicional. A camisa deixou de ser apenas um conjunto de faixas, escudo, número e patrocinador. Ela passou a ser superfície de design.
A Holanda campeã da Eurocopa de 1988 simbolizou essa passagem. A Adidas usou um template já visto em seleções como Bélgica, Irlanda do Norte, Portugal e Polônia na Copa de 1986, mas aplicou na camisa laranja holandesa um efeito gráfico misturado ao branco, com sensação de movimento e tridimensionalidade. A peça se afastava da camisa totalmente laranja tradicional e, justamente por isso, tornou-se um marco. Era um aviso do que viria na década seguinte, quando ousadia, tecnologia e moda passariam a andar juntas no futebol.
O streetwear entra em campo
O futebol dos anos 90 não mudou sozinho. Ele foi atravessado pela moda urbana. O streetwear, formado por elementos do surf, do skate, do punk, do heavy metal, do hip hop e de outras expressões da contracultura, começou a influenciar não apenas a música e as ruas, mas também a televisão, o esporte e a forma como os jovens se vestiam. A roupa larga, os tênis de cano alto, as cores fortes, os moletons, as estampas e a mistura entre luxo recriado e cultura de periferia moldaram uma estética que chegaria às camisas dos clubes.
Na Califórnia, a ligação entre surf e skate ajudou a formar essa linguagem. Shawn Stussy, designer e modelador de pranchas na Costa Oeste, criou uma marca que dialogava com a cultura punk e com a liberdade visual da rua. Em Nova York, Dapper Dan personalizava peças e recriava elementos de luxo para um público ligado ao hip hop, aos guetos e às periferias. Marcas como Stüssy, FUBU, Wu-Wear e Supreme se consolidaram em um ambiente no qual vestir era também afirmar identidade, território e pertencimento.
O hip hop teve peso decisivo. A ascensão do gênero levou marcas tradicionais a se aproximarem de artistas e grupos que influenciavam comportamento. Parcerias como Kangol e LL Cool J, de forma espontânea entre 1984 e 1985, e Adidas e Run-DMC, em 1986, mostraram que a moda esportiva não precisava ficar restrita à prática atlética. Ela podia virar linguagem cultural.
A televisão também amplificou esse movimento. “Um Maluco no Pedaço”, lançado pela NBC em setembro de 1990, levou para a cultura pop global a figura de Will Smith com roupas largas, cores vivas e mistura de estilos. Carol Malachine, em “Manto Sagrado!”, observa esse período como uma época de combinação entre street style, hip hop, clubbers, grunge, preppy, tecidos brilhantes, estampas ousadas, bermudas de cintura alta e muita cor. Essa descrição ajuda a entender por que os uniformes de futebol também passaram a experimentar mais.
Umbro: Manchester, terrace culture e a ousadia que contaminou a década
A Umbro, fundada em 1924 e sediada em Manchester, entrou nos anos 90 com uma leitura muito própria do futebol. A marca tinha departamento interno de design e pesquisa, mas não estava focada apenas em desempenho. Ela também pensava estilo, moda e comportamento. Misturava sportswear, streetwear, alfaiataria e terrace culture, uma cultura de arquibancada ligada aos “casuals” ingleses, jovens torcedores que incorporavam marcas europeias de luxo e peças esportivas ao vestuário de rua.
Essa mistura nasceu em parte nas viagens de torcedores britânicos pela Europa, especialmente de grupos associados a Liverpool e Manchester. Marcas como Ellesse, Fila, Diadora e Kappa passaram a fazer parte de um estilo casual de futebol que unia arquibancada, moda e afirmação social. A Umbro absorveu essa atmosfera e levou para seus uniformes caimentos mais largos, golas marcantes, cores vibrantes, grafismos, casacos de comissão técnica e peças que funcionavam tanto dentro quanto fora do campo.
Antes mesmo de chegar ao Flamengo, a Umbro já ensaiava a estética que dominaria os anos 90. A terceira camisa da Escócia de 1988-89, com caimento mais largo, gola em V no estilo polo e detalhes geométricos em rosa e azul-marinho, dialogava com a ousadia da Holanda de 1988. A camisa reserva do Ajax do mesmo período também fugia do padrão mais conservador. Aos poucos, a marca inglesa ajudava a normalizar o excesso visual que marcaria a década.
A Copa de 1994 também foi simbólica para a Umbro, especialmente pela chuteira Speciali, que introduziu cores no logo da empresa, como amarelo e vermelho. Aquilo parecia detalhe, mas indicava uma nova etapa na relação entre produto esportivo e apelo visual. A partir dali, praticamente todas as fornecedoras passaram a adotar elementos que a Umbro ajudou a popularizar: oversized, calções mais largos, cintura alta, golas icônicas, estampas geométricas em camisas de goleiro e liberdade cromática.
O Brasil da sublimação: Carioca, Color Prints e a explosão visual
No Brasil, a moda urbana também já estava sob influência do skate, do hip hop, do funk, do rap nacional e de marcas como Company, Mormaii, Fiorucci, Bad Boy, Fido Dido, FUBU e Nauru. No futebol, a chegada dessa estética se deu principalmente pela sublimação. A Umbro fornecia para a Seleção Brasileira desde outubro de 1991, mas a transformação não veio apenas das multinacionais. Empresas brasileiras tiveram papel decisivo.
Jorge Bortolo, dono da Carioca, afirmou em entrevista ao Verminosos por Futebol que importou o método de transferência de tinta para tecido sintético com uso de calor após uma viagem à Europa em 1982. A Carioca, fundada em 1955 no Espírito Santo, chegou a vestir 129 clubes nos anos 90 e se tornou símbolo de uma estética marcada por poliéster, geometria, estampas chamativas, gola polo e grafismos ousados. No Campeonato Carioca de 1995, vestiu nove dos 16 participantes. No Rio, curiosamente, o Flamengo foi o único grande que nunca vestiu a marca, nem em treino nem em categorias de base.
A Carioca também democratizou o acesso ao design esportivo ao permitir que clubes amadores usassem modelos semelhantes aos de equipes profissionais. Era uma estratégia comercial, mas também cultural. O futebol de várzea, os clubes menores e as equipes locais passaram a vestir a mesma modernidade visual que chegava aos grandes estádios. A empresa faliu em 2002, reabriu em 2017 e segue em atividade.
Outra figura importante nessa engrenagem foi Roberto Diniz, ligado à Color Prints. Em entrevista ao Verminosos, ele afirmou que camisas de times produzidas no Brasil entre 1985 e 1996 passaram por suas mãos no processo de sublimação. Segundo seu relato, a empresa fornecia esse serviço para marcas como CCS, Finta, Dell’erba, Penalty, Topper, Rhumell e Umbro, que ainda não tinham know-how próprio para aplicar a tecnologia. Entre as peças estão a Carijó do Bragantino de 1990, produzida pela Dell’erba, a camisa brilhante do Cruzeiro usada por Ronaldo Fenômeno e o uniforme do Corinthians com listras formadas pelo nome, lançado pela Finta em 1993.
A chegada da Umbro ao Flamengo
A Umbro substituiu a Adidas no Flamengo em 1992. A empresa alemã fornecia uniformes ao clube desde 1980, e a transição começou de maneira discreta. O primeiro modelo da marca inglesa era praticamente igual ao último template da Adidas, mas sem as três listras nos ombros. A estreia ocorreu em 13 de setembro de 1992, em derrota para o Botafogo. Houve ainda variação com mangas totalmente pretas, sem a faixa vermelha.
A chegada da Umbro precisa ser entendida dentro de um futebol que ainda não tratava camisa como lançamento midiático. Não havia evento, campanha sofisticada, release para imprensa, teasers nas redes sociais ou apresentação pública como se vê hoje. A fornecedora produzia, o time entrava em campo e, depois de algum tempo, a peça chegava às lojas. Muitas vezes, o torcedor só percebia o novo uniforme durante o jogo.
O primeiro modelo produzido exclusivamente pela Umbro para o Flamengo estreou em 10 de março de 1993, na vitória por 3 a 1 contra o Internacional, pela Libertadores. A camisa abandonou o algodão e foi confeccionada em poliéster, com gola polo com botão, grafismos com as palavras “Fla” e “Mengo”, efeito brilhante no tecido e aplicações diferentes das usadas na era Adidas. O número seguia aveludado, mas o monograma CRF e os patrocínios eram aplicados diretamente na peça. O caimento, apesar das mudanças, ainda era justo.
Esse uniforme marcou a entrada do Flamengo na estética sintética da década. O clube começava a vestir uma camisa que não apenas identificava o time, mas também comunicava modernidade. A Umbro ainda estava ajustando sua linguagem no rubro-negro, mas já havia ali o início de uma relação que renderia algumas das peças mais lembradas por colecionadores e torcedores.
1994 e o manto que atravessou o centenário
Em 23 de janeiro de 1994, a Umbro lançou uma camisa que se tornaria um dos ícones da parceria. Com listras finas, gola polo com botão, grafismo e efeito brilhante, o manto também foi usado em 1995, ano do centenário do Flamengo. A novidade estava na aplicação emborrachada do CRF e do logo da Umbro. O número continuava aveludado, os patrocínios eram vazados diretamente no tecido e o caimento permanecia justo.
A camisa de 1994 é importante porque representa uma transição entre o Flamengo de um desenho ainda relativamente contido e o Flamengo da ousadia plena que viria em 1996. Ela conservava a estrutura rubro-negra, mas já se aproximava do brilho, da textura e do tratamento visual que marcariam o período. Era moderna sem romper completamente com a tradição.
No centenário, diferente do que muitos torcedores imaginam, a Umbro não produziu novos uniformes um e dois. A principal novidade de 1995 foi a reedição da Papagaio de Vintém, primeira camisa usada pelo futebol do Flamengo em 1912. A escolha tinha força simbólica evidente. Em vez de apenas atualizar o manto tradicional, o clube reviveu uma peça da própria origem futebolística.
A reedição trouxe duas novidades históricas. Foi a primeira vez que o escudo do remo apareceu em uma camisa de futebol do Flamengo, e também houve a inclusão do patch “Fla 100”, que sofreria alterações depois. O escudo de remo foi aplicado em bordado na camisa de jogo, de forma diferente dos modelos vendidos aos torcedores. Aquela peça também marcou a primeira vez em que o clube teve um terceiro equipamento em sua história, abrindo caminho para uma prática que hoje é parte natural do calendário comercial dos clubes.
1996: o Flamengo veste a década
Em 20 de janeiro de 1996, Umbro e Flamengo lançaram aquele que talvez sintetize melhor a moda dos anos 90 dentro da história rubro-negra. A camisa reunia brilho no tecido, grafismo por toda a peça, escudos do clube, a palavra “Flamengo”, gola polo em V e corte largo. Era uma peça grande, ousada, visualmente forte e completamente alinhada ao espírito da época.
As listras vermelhas e pretas eram irregulares, o patch trazia o monograma CRF e a camisa teve variações ao longo da temporada na posição e na cor dos patrocinadores. A versão branca também se destacou e, para muitos torcedores, não fica atrás do manto principal. O conjunto mostrava como a Umbro havia entendido que o uniforme poderia carregar a estética do momento sem deixar de ser Flamengo.
Aquela camisa também apareceu em um momento em que a imprensa começava a estranhar a aceleração dos lançamentos. Durante os anos 80, a Adidas passou cerca de cinco anos sem lançar um template completamente novo do Flamengo, de 1987 a 1992, embora houvesse variações. Nos anos 90, a lógica mudou. Clubes e fornecedoras passaram a renovar modelos com mais frequência, e o mercado percebeu que a camisa podia ser produto recorrente.
A revista Placar, em março de 1996, criticou esse “troca-troca” de uniformes e apontou o crescimento dos modelos número três e comemorativos. O texto mencionava a reedição da Papagaio de Vintém pelo Flamengo no centenário e observava que fabricantes e clubes não perdiam oportunidade de lançar versões atualizadas, por vezes com mudanças mínimas. A reportagem também ironizou o Flamengo, dizendo que “mudar é com o Mengo” e citando a alternância na largura das faixas rubro-negras. A crítica, vista com o distanciamento do tempo, soa quase premonitória. A revista ainda não imaginava a quantidade de camisas, coleções, collabs, linhas especiais e relançamentos que se tornariam rotina nas décadas seguintes.
1997: degradê, Copa Centenário e a camisa azul que virou raridade
Em 3 de agosto de 1997, contra o Olímpia, pela Copa Centenário de Belo Horizonte, o Flamengo estreou o quarto uniforme lançado pela Umbro. A camisa mantinha características noventistas do modelo anterior, mas trazia degradê entre preto e vermelho e um friso branco na altura do peito. O manto dois seguia a mesma linha visual, com faixa preta e vermelha em degradê.
A temporada de 1997 também ficou marcada pela tentativa de lançar outro terceiro uniforme. Segundo relato do ex-presidente Kleber Leite em seu blog, a Umbro realizou pesquisa para saber a cor preferida do público. O azul foi escolhido, e a marca produziu uma camisa que misturava azul, amarelo-ouro, preto e vermelho em listras irregulares com degradê, patch com escudo do remo e muito grafismo. Era uma peça radical, mesmo para os padrões daquela década.
A camisa chegou a ser colocada à venda em alguns estados e foi sucesso comercial, mas não havia passado pela aprovação do Conselho Deliberativo do Flamengo. A produção foi pausada e o modelo retirado das lojas. O episódio mostra como a relação entre fornecedora, clube, conselho e mercado ainda buscava seus limites. A camisa tinha apelo, mas esbarrou na formalidade institucional.
O colecionador Eduardo Garcia revelou que peças foram preparadas para jogo e que jogadores chegaram a posar para foto oficial na Gávea usando o uniforme, acompanhado de calções e meias pretas. Por nunca ter se tornado uma camisa regular de campo, o modelo virou item raríssimo do colecionismo rubro-negro. É uma daquelas histórias que unem mercado, bastidor, ousadia estética e burocracia de clube.
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1999: o último grande capítulo da Umbro
Em 14 de março de 1999, foi lançado o último manto sagrado produzido pela Umbro para o Flamengo. Apesar de ainda manter corte largo e gola polo, a camisa era mais limpa. O monograma CRF voltou em bordado branco com sublinhado vermelho, enquanto o logo da Umbro passou a trazer o nome ao lado dos diamantes, também bordados. Era uma peça menos carregada do que os modelos de 1996 e 1997, mas ainda preservava elementos da década.
Foi com essa camisa que o Flamengo conquistou a Copa Mercosul de 1999, último título internacional do clube até a Libertadores de 2019. O dado dá ao manto um peso histórico especial. Ele não é lembrado apenas pelo desenho ou pela parceria com a Umbro, mas por estar associado a uma conquista continental que marcou o fim de um ciclo vencedor no cenário internacional antes de duas décadas de espera.
Em 21 de julho de 1999, o Flamengo lançou novo terceiro uniforme, o segundo de sua história. A camisa era toda preta, com monograma CRF bordado em vermelho, sublinhado em branco no centro, e o logo da Umbro acima. Tinha faixas vermelhas nas mangas e nas laterais. Era uma peça sóbria em comparação com o “carnaval” gráfico de 1997, mas reforçava o caminho aberto pela Papagaio de Vintém: o terceiro uniforme já fazia parte da estratégia visual do clube.
A última vez que o Flamengo usou uma camisa produzida pela Umbro foi em 30 de julho de 2000, no empate por 1 a 1 contra o Juventude, no Alfredo Jaconi, pela estreia do Campeonato Brasileiro, diante de 2.429 espectadores. No jogo seguinte, o clube vestiria Nike, que trazia a tecnologia Dri-FIT e inauguraria outra etapa na história dos uniformes rubro-negros. A Umbro saía de cena, mas deixava uma coleção de peças que seguiriam vivas na memória do torcedor.
Por que aquelas camisas voltaram a ser desejadas
As camisas da Umbro no Flamengo não ficaram presas ao passado. Elas voltaram como objeto de desejo. Aparecem nos estádios, nas redes sociais, em perfis de colecionadores, no mercado paralelo e em releituras de fornecedoras que, de tempos em tempos, revisitam os anos 90 como fonte estética. O que antes era visto por parte da imprensa como excesso hoje é celebrado como identidade.
Esse retorno tem explicação. Os anos 90 produziram camisas com personalidade. Havia brilho, gola, corte largo, grafismo, patches, degradês, números aveludados, escudos aplicados de formas diferentes e uma coragem visual que contrasta com a padronização de muitos uniformes contemporâneos. Cada camisa parecia ter uma história própria. O torcedor reconhece isso e transforma a peça em memória vestível.
A Umbro também buscava colocar o uniforme na rotina do torcedor, não apenas no campo. Roupas de viagem, treinos, casacos e camisas de goleiro carregavam os mesmos elementos da década. A ideia era aproximar futebol e uso casual, algo que hoje parece óbvio, mas que naquele período ainda se consolidava. Ao ver essas peças nas arquibancadas atuais, é possível perceber que o objetivo deu certo, mesmo que seu efeito tenha atravessado décadas.
No caso do Flamengo, a força simbólica é ainda maior porque essas camisas pertencem a uma fase de transição da própria cultura de consumo rubro-negra. Elas nasceram antes da explosão das redes sociais, antes dos lançamentos cinematográficos e antes da lógica atual de múltiplas coleções por temporada. Mesmo assim, sobreviveram no imaginário. Talvez por isso sejam tão cultuadas. Elas não foram empurradas por campanhas digitais. Foram guardadas pelo afeto.
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Uma década que ensinou o futebol a se vestir
A passagem da Umbro pelo Flamengo ajuda a contar uma transformação maior. Nos anos 90, a camisa de futebol entrou definitivamente no território da moda, da tecnologia e do consumo. O algodão deu lugar ao poliéster, a sublimação abriu espaço para o grafismo, o streetwear contaminou o esporte, a terrace culture trouxe a rua inglesa para o estádio e marcas brasileiras como Carioca, Dell’erba, Finta, Penalty e outras ajudaram a tropicalizar essa revolução visual.
O Flamengo foi personagem relevante dessa mudança. Da transição discreta em 1992 ao primeiro modelo exclusivo em 1993, da camisa icônica de 1994 à Papagaio de Vintém no centenário, do manto exagerado de 1996 ao degradê de 1997, da camisa azul proibida ao último uniforme da Mercosul em 1999, a parceria com a Umbro refletiu a década em que o futebol se permitiu vestir sem medo.
Essas camisas não agradaram a todos no momento em que surgiram. A imprensa criticou, parte do público estranhou, conselhos impuseram limites e a tradição precisou negociar com a inovação. O tempo, porém, reorganizou o julgamento. O que parecia excesso virou referência. O que parecia modismo virou memória. O que era apenas uniforme se tornou peça de cultura rubro-negra.
A história da Umbro no Flamengo mostra que o manto sagrado também é documento. Ele registra tecnologia, gosto, mercado, política interna, moda urbana, ambição comercial e identidade torcedora. Cada gola, cada listra irregular, cada patch, cada textura brilhante e cada grafismo conta algo sobre o clube e sobre o tempo em que foi criado. Por isso, revisitar os anos 90 não é apenas matar saudade de camisas antigas. É entender como o futebol aprendeu a se vestir para além dos 90 minutos.
Fontes de pesquisa
Livros
MALACHINE, Carol. Manto Sagrado!. 1. ed. 2021.
ASSAFF, Roberto. Consagrado no gramado. 1. ed. 2022.
Revista
PLACAR. Edição de março de 1996. São Paulo: Editora Abril, mar. 1996.
Sites
FLA MANTO SAGRADO. Busca: Futebol Profissional, Umbro. Disponível em: http://flamantosagrado.com/site/busca?pg=1&esporte=Futebol%20Profissional&indumentaria=&fabricante=Umbro&uniforme=&util_inicio=&util_fim=. Acesso em: 25 jun. 2026.
VERMINOSOS POR FUTEBOL. Dono da Carioca relembra o tempo em que sua marca era uma das maiores do Brasil. Disponível em: https://www.verminososporfutebol.com.br/dono-da-carioca-relembra-o-tempo-em-que-sua-marca-era-uma-das-maiores-do-brasil/. Acesso em: 25 jun. 2026.
VERMINOSOS POR FUTEBOL. Este senhor materializou quase todas as camisas clássicas de times brasileiros dos anos 90. Disponível em: https://www.verminososporfutebol.com.br/este-senhor-materializou-quase-todas-as-camisas-classicas-de-times-brasileiros-dos-anos-90/. Acesso em: 25 jun. 2026.
VERMINOSOS POR FUTEBOL. Nos anos 90, mudanças de camisas a cada temporada não eram bem vistas por todos. Disponível em: https://www.verminososporfutebol.com.br/nos-anos-90-mudancas-de-camisas-a-cada-temporada-nao-eram-bem-vistas-por-todos/. Acesso em: 25 jun. 2026.
VERMINOSOS POR FUTEBOL. Dell’erba: a história da marca que fez as camisas mais loucas do futebol brasileiro. Disponível em: https://www.verminososporfutebol.com.br/dellerba-a-historia-da-marca-que-fez-as-camisas-mais-loucas-do-futebol-brasileiro/. Acesso em: 25 jun. 2026.
VERMINOSOS POR FUTEBOL. Finta: a história da marca esportiva brasileira que brilhou em campo nos anos 90. Disponível em: https://www.verminososporfutebol.com.br/finta-a-historia-da-marca-esportiva-brasileira-que-brilhou-em-campo-nos-anos-90/. Acesso em: 25 jun. 2026.
MANTOS DO FUTEBOL. Dell’Erba e suas chamativas camisas nos anos 90. Disponível em: https://mantosdofutebol.com.br/2025/09/dellerba-chamativas-camisas-anos-90/. Acesso em: 25 jun. 2026.
MANTOS DO FUTEBOL. Camisa da Holanda Euro Copa 1988 #ThrowbackThursday. Disponível em: https://mantosdofutebol.com.br/2015/10/camisa-da-holanda-euro-copa-1988-throwbackthursday/. Acesso em: 25 jun. 2026.
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KACE WEAR. O que é streetwear? Entenda o significado e a origem da moda street. Disponível em: https://www.kacewear.com.br/blogs/conteudo/o-que-e-streetwear-entenda-o-significado-e-a-origem-da-moda-street?srsltid=AfmBOopJQjj6VLAkpzz-cB2N97o7uRZ7aXSRWgiRArXiVimwBn_QrqJ_. Acesso em: 25 jun. 2026.
LEITE, Kleber. A terceira camisa. Blog do Kleber Leite, 17 jan. 2016. Disponível em: https://kleberleite.com/17/01/2016/13/08/a-terceira-camisa/. Acesso em: 25 jun. 2026.
I-D. How Supreme, Palace and Patta were influenced by 90s Umbro football kits. Disponível em: https://i-d.co/article/how-supreme-palace-and-patta-were-influenced-by-90s-umbro-football-kits/. Acesso em: 25 jun. 2026.
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NATIONAL MUSEUMS LIVERPOOL. What is terrace culture? And who are casuals? Disponível em: https://www.liverpoolmuseums.org.uk/stories/what-terrace-culture. Acesso em: 25 jun. 2026.
Detalhes dos contratos entre ADIDAS e FLAMENGO: contrapartidas, cifras milionárias e exigências
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