Ícone do site Ser Flamengo

Confessou! Advogado de Lamacchia reforça conflito de interesse e coloca venda da SAF do Vasco sob pressão da ANRESF

Confessou! Advogado de Lamacchia reforça conflito de interesse e coloca venda da SAF do Vasco sob pressão da ANRESF

A tentativa de rebater o Flamengo na discussão sobre a possível venda da SAF do Vasco para Marcos Lamacchia acabou reforçando justamente o ponto que o clube rubro-negro vem levantando desde o início: há elementos objetivos demais para tratar o caso como simples paranoia competitiva, medo de rival ou interferência indevida. Em entrevista, o advogado André Sica, que representa Lamacchia e também possui histórico de atuação ligado ao Palmeiras, tratou o tema como “suposto conflito”, mas reconheceu a existência de uma discussão técnica em torno do caso. O problema é que, quando se olha para a cadeia de relações familiares, empresariais, financeiras e esportivas, a palavra “suposto” parece mais uma tentativa retórica de reduzir o impacto de uma operação que precisa ser analisada com rigor por CBF, ANRESF e demais órgãos responsáveis pela integridade do futebol brasileiro.


Ouça nossas análises e entrevistas sobre a eleição do Flamengo no seu agregador de podcast preferido: Spotify, Deezer, Amazon, iTunes, Youtube Music, Castbox e Anchor.


O centro da questão não está no direito do Vasco de vender sua SAF, buscar investimento, se reerguer financeiramente ou reconstruir sua operação após o fracasso da 777 Partners. Esse direito existe e não deve ser confundido com o debate sobre conflito de interesse. O Flamengo não questionou a venda anterior para a 777 porque, dentro do que se conhecia publicamente, não havia ligação direta com outro clube brasileiro concorrente, nem estrutura familiar e econômica capaz de gerar influência cruzada. Agora, a situação é outra. Marcos Lamacchia é enteado de Leila Pereira, presidente do Palmeiras; José Roberto Lamacchia, pai de Marcos, marido de Leila, dono da Crefisa e conselheiro palmeirense, aparece como avalista, garantidor ou fiador do negócio, além de já ter relação financeira anterior com o Vasco por meio de empréstimo envolvendo a SAF como garantia.

Não basta dizer que Marcos é autônomo

A defesa apresentada tenta sustentar que Marcos Lamacchia teria negócios próprios, patrimônio próprio e interesses próprios. Esse argumento pode ser relevante para diminuir a dependência econômica direta em relação à madrasta ou ao pai, mas não resolve a totalidade do problema. Em governança, conflito de interesse não exige apenas prova de má-fé, combinação secreta ou troca ilícita de informação. Muitas vezes, basta haver uma estrutura objetiva que permita influência, benefício indireto ou dúvida razoável sobre independência. É por isso que a transparência não é favor. É obrigação.

O próprio Código Civil lembra que parentesco por afinidade existe e não desaparece porque alguém prefere tratar a relação como detalhe menor. O artigo 1.595 estabelece que cada cônjuge é aliado aos parentes do outro pelo vínculo da afinidade, limitado a ascendentes, descendentes e irmãos do cônjuge. O enteado, portanto, é parente por afinidade em linha reta. Isso significa que existe vínculo familiar real entre Leila Pereira e Marcos Lamacchia, o que desmonta a tentativa de tratar a discussão como se fosse apenas uma narrativa política criada pelo Flamengo.

A situação se torna ainda mais delicada quando se acrescenta José Roberto Lamacchia à equação. Se ele fosse apenas pai de Marcos, já haveria debate. Mas ele também é marido da presidente do Palmeiras, conselheiro do clube paulista, dono da Crefisa e personagem público que já falou em “reerguer o Vasco”. Ao dizer isso, deixa de aparecer apenas como alguém que assina uma garantia financeira e passa a se colocar como figura ativa no projeto. Um fiador que afirma participar da reconstrução de um clube concorrente de outro ligado à sua esposa e ao seu próprio ambiente político não é um detalhe irrelevante.

TRANSMISSÃO AO VIVO COMPLETA:

O papel de André Sica aumenta a confusão

O debate também fica contaminado pela própria posição de André Sica. Ele é advogado de Marcos Lamacchia, representa ou já representou o Palmeiras em instâncias nacionais e internacionais, incluindo FIFA e STJD, e teve atuação ligada à Libra em período de forte conflito entre Flamengo e o grupo então conduzido com influência palmeirense. Sica foi advogado do Palmeiras, atuou juridicamente na Libra e esteve em um ambiente em que Bap chegou a dizer que “a Libra é verde”, justamente pela percepção de domínio político do Palmeiras sobre a organização.

Essa sobreposição de papéis não prova ilegalidade por si só, mas reforça a necessidade de cautela. Um advogado pode atender clientes diferentes, desde que respeite regras profissionais, sigilo e ausência de conflito jurídico direto. O problema, no campo da percepção pública e da governança esportiva, é que a operação já envolve Palmeiras, Leila, Crefisa, Lamacchia pai, Lamacchia filho, Vasco e agora um advogado com histórico ligado ao clube paulista e à Libra. Quando tantas pontas se encontram no mesmo tabuleiro, a resposta não pode ser deboche, minimização ou acusação de que o Flamengo está gastando energia à toa. A resposta precisa ser técnica, documental e transparente.

Sica afirmou que, mesmo se houvesse conflito técnico, ele duraria menos de um ano e que Marcos teria tranquilidade para implementar qualquer sugestão proposta pelo sistema regulador. A frase tenta transmitir segurança, mas ao mesmo tempo admite que existe um campo de discussão sobre conflito. Se há necessidade de remédio, mitigação, sugestão regulatória ou adaptação da operação, então não se trata de invenção de rival. Trata-se de um problema concreto que precisa ser tratado antes da aprovação, não depois que o leite derramar.

Transparência não é gasto desnecessário

Uma das passagens mais graves da entrevista é a tentativa de enquadrar a resistência à operação como “luta desgastante” e “gasto desnecessário de energia”. Essa visão inverte o problema. Em negócios que envolvem clubes de massa, competições nacionais, potenciais bilhões de reais, credores, torcedores, patrocinadores e integridade esportiva, pedir análise regulatória não é capricho. É justamente a função de um sistema de governança. A mulher de César não precisa apenas ser honesta; precisa parecer honesta. No futebol, esse princípio deveria ser ainda mais forte, porque a confiança na competição depende tanto da legalidade quanto da aparência de independência entre os participantes.

Quando o pedido de transparência incomoda, a pergunta inevitável é por quê. Se a operação é limpa, se Marcos é autônomo, se José Roberto Lamacchia será apenas garantidor, se Leila Pereira não terá influência alguma, se o Palmeiras não será beneficiado e se a Crefisa não criará ponte econômica entre clubes concorrentes, basta demonstrar tudo tecnicamente. Abrir contratos, detalhar garantias, explicar fontes de financiamento, apresentar governança, declarar impedimentos, apontar salvaguardas e aceitar fiscalização. O incômodo com a análise, por si só, já produz ruído político.

O argumento de que todos deveriam estar lutando juntos para que a operação aconteça, os credores sejam pagos, o Vasco se fortaleça e o futebol carioca cresça parece bonito, mas escapa do ponto central. Ninguém sério deveria torcer pela ruína do Vasco. Um Vasco financeiramente saudável, competitivo e bem administrado interessa ao futebol do Rio e ao campeonato brasileiro. Mas reerguer um clube não pode ser desculpa para criar um precedente perigoso. A pergunta não é se o Vasco precisa de dinheiro. Precisa. A pergunta é se esse dinheiro pode vir de uma estrutura familiar, empresarial e política conectada ao comando de outro clube que disputa as mesmas competições.

LEIA MAIS:

CASO PREFIRA OUVIR:

O Flamengo tem motivo para agir

Há quem diga que o Flamengo não deveria se meter no assunto. Essa posição parte do comentário de Rafael Marques, que defendeu a atuação dos órgãos jurídicos das entidades, mas não necessariamente a intervenção direta rubro-negra. A questão é que, sem provocação do Flamengo, talvez CBF, ANRESF e demais instâncias não olhassem o caso com a profundidade necessária. Em um ambiente historicamente leniente com zonas cinzentas, o clube que se sente afetado tem legitimidade competitiva para acionar o sistema e cobrar análise.

O Flamengo compete contra Vasco e Palmeiras. Se houver influência significativa, direta ou indireta, de um mesmo núcleo econômico e familiar sobre dois clubes, a integridade do campeonato fica ameaçada, ainda que ninguém tenha cometido qualquer ato ilícito até aqui. O risco não é apenas imediato. O risco está no precedente. Se essa operação passar sem critérios claros, amanhã outro grupo ligado a outro clube poderá tentar estrutura semelhante, alegando autonomia patrimonial, separação formal de pessoas jurídicas ou ausência de mando direto. A lei e a regulação existem também para impedir situações antes que elas se transformem em escândalo consumado.

Mesmo admitindo que Leila, José Roberto, Marcos e todos os envolvidos estejam bem-intencionados, a governança não pode depender da boa vontade de indivíduos. O sistema precisa funcionar para casos bons e ruins, para pessoas confiáveis e para oportunistas, para operações honestas e para estruturas desenhadas para burlar limites. A regra não deve ser feita olhando apenas a intenção declarada, mas a possibilidade objetiva de influência, troca de informação, circulação de atletas, compartilhamento de patrocinadores, favorecimento comercial e alinhamento estratégico entre clubes concorrentes.

O episódio coloca a ANRESF diante de seu primeiro grande teste. A agência nasceu para dar racionalidade, controle e sustentabilidade ao futebol brasileiro, mas sua credibilidade será medida quando precisar enfrentar casos politicamente sensíveis. Se aceitar uma operação dessa complexidade sem exigir explicações duras, salvaguardas robustas e limites claros, começará sua trajetória transmitindo a mensagem de que a regulação existe no papel, mas recua diante de grupos fortes. Se agir com independência, poderá estabelecer um marco importante para multipropriedade, influência significativa e conflitos por afinidade familiar.

No fim, a entrevista de André Sica não enfraqueceu a posição do Flamengo. Ao contrário, ajudou a mostrar que existe um debate técnico real e que a operação não pode ser empurrada pela narrativa emocional de salvação do Vasco. O clube cruz-maltino tem direito a investidores e precisa reconstruir sua SAF. Marcos Lamacchia tem direito de fazer negócios. Leila Pereira tem direito de presidir o Palmeiras. José Roberto Lamacchia tem direito a seus investimentos. Mas nenhum desses direitos elimina o dever de explicar, com documentos e regras claras, por que essa combinação não afeta a integridade das competições. Quando há tantos vínculos no mesmo negócio, a transparência não atrapalha. Ela é a única forma de impedir que o futebol brasileiro naturalize, em nome da pressa, um conflito que depois poderá cobrar preço alto de todos.

Possível venda da SAF do Vasco reacende alerta sobre governança e conflito de interesse no futebol

+ Siga o Ser Flamengo no Twitter, no Instagram e no Youtube.

Comentários
Sair da versão mobile