Consultor da FIFA revela à Flamengo TV: clubes que defendem gramado sintético treinam no natural

Consultor da FIFA revela à Flamengo TV: clubes que defendem gramado sintético treinam no natural
Fotos: Cesar Grecco/Palmeiras e Reprodução/Flamengo TV

O uso do gramado sintético voltou ao centro do debate no futebol brasileiro em meio a discursos que tentam apresentá-lo como solução definitiva para qualidade, calendário e custos. A discussão ganhou força a partir de falas recentes de dirigentes, consultores e comentaristas, que apontam o piso artificial como “futuro inevitável” do esporte, mesmo diante de dados, práticas internas dos clubes e posições técnicas que caminham na direção oposta. O cenário expõe uma contradição difícil de ignorar e ajuda a entender por que o tema segue tratado de forma superficial no país.


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Nos bastidores, a realidade é menos linear do que o discurso público sugere. Informações colhidas junto a profissionais que atuam diretamente na preparação de atletas indicam que ao menos três dos principais clubes brasileiros que mandam seus jogos em gramados sintéticos realizam a maior parte dos treinamentos em campos naturais. A justificativa é simples: menor impacto físico, melhor adaptação biomecânica e redução de risco de lesões ao longo da temporada. A prática, embora conhecida internamente, raramente é admitida de forma aberta. Se o sintético fosse, de fato, o ambiente ideal, não haveria razão para evitá-lo no cotidiano.

Esse paradoxo dialoga com um segundo ponto pouco explorado: o custo real do gramado artificial. A narrativa de que ele é mais barato se sustenta apenas quando se olha para manutenção direta. Quando entram na conta gastos médicos, controle de carga, adaptação de treinos e gestão de elenco, a equação muda. Não por acaso, estudos recentes da NFL, impulsionados por pressão dos próprios atletas, apontam para a substituição gradual do sintético por superfícies naturais ou híbridas. Em ligas europeias, o movimento segue a mesma lógica, ainda que com soluções tecnológicas distintas.

A posição institucional da FIFA também costuma ser distorcida no debate nacional. A entidade não recomenda o gramado sintético como padrão para o futebol de alto rendimento. O uso é tolerado em contextos específicos, sobretudo onde condições climáticas extremas inviabilizam a manutenção adequada da grama natural. Não é o caso da maior parte do Brasil. O que existe, na prática, é uma acomodação comercial travestida de discurso técnico.

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O ponto de inflexão está no modelo de exploração dos estádios. Arenas multiuso passaram a priorizar shows, eventos corporativos e ativações comerciais, transformando o campo em variável secundária. No Allianz Parque, por exemplo, a arrecadação anual com espetáculos supera com folga a receita gerada em dias de jogo. Em 2024, esse montante se aproximou de 300 milhões de reais, dos quais apenas uma fração chegou ao clube. Nesse contexto, o gramado sintético não surge como escolha esportiva, mas como solução logística para proteger contratos e agendas.

Há, porém, alternativas. O Real Madrid oferece um exemplo emblemático. Após uma reforma estimada em cerca de 800 milhões de euros no Santiago Bernabéu, o clube espanhol passou a operar com um sistema retrátil de gramado, capaz de alternar superfícies e preservar a qualidade do campo para o futebol. O investimento é alto, mas revela a prioridade: o jogo permanece no centro do projeto. A tecnologia permite shows, eventos e partidas sem comprometer o desempenho esportivo.

No Brasil, a tendência aponta para um caminho diferente. A CBF já sinalizou que trabalha com a ideia de criar padrões distintos para gramados naturais e sintéticos, institucionalizando uma divisão que hoje é informal. Isso atende interesses comerciais imediatos, mas não resolve o problema central. A qualidade do espetáculo segue desigual, o impacto físico nos atletas permanece maior e o debate continua preso a slogans fáceis.

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Enquanto isso, clubes como o Flamengo insistem em uma abordagem menos ruidosa e mais técnica. A defesa não é ideológica nem saudosista. Trata-se de padronização, fiscalização e exigência mínima de qualidade, independentemente do tipo de piso. O futebol brasileiro não carece de soluções mirabolantes, mas de decisões que coloquem o jogo acima da conveniência. O silêncio em torno das contradições do gramado sintético talvez explique por que, apesar de tanto barulho, o problema segue sem enfrentamento real.

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Por Tulio Rodrigues (@PoetaTulio)

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Tulio Rodrigues

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