Danilo Lavieri, ArrascaPênalti e a seletividade da imprensa contra o Flamengo

O debate sobre arbitragem no futebol brasileiro ganhou mais um capítulo nos últimos dias, mas desta vez o centro da discussão não foi apenas um pênalti marcado ou não marcado. O foco passou a ser a criação de um termo pejorativo, “ArrascaPênalti”, associado ao meia Arrascaeta, e a forma como parte da imprensa esportiva, especialmente a paulista, trata episódios semelhantes de maneira seletiva quando o personagem veste a camisa do Flamengo.
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O termo foi impulsionado pelo jornalista Danilo Lavieri, identificado publicamente por sua ligação com o Palmeiras, ao comentar um lance envolvendo a equipe paulista. A expressão rapidamente se espalhou nas redes sociais e passou a ser utilizada como uma tentativa de colar no camisa 10 flamenguista a imagem de um jogador que vive de cavar penalidades. O problema, para muitos analistas e torcedores, não está apenas na brincadeira de arquibancada, mas no fato de ela nascer a partir de um profissional de imprensa, com alcance e influência suficientes para transformar ironia em narrativa.
A discussão deixou de ser apenas sobre futebol e passou a tocar em algo mais profundo: responsabilidade jornalística, construção de imagem pública e o velho hábito de parte da mídia de transformar o Flamengo no vilão preferencial.
Quando o jornalista cria o rótulo
No ambiente das redes sociais, apelidos e provocações fazem parte da rotina do futebol. O torcedor exagera, ironiza, provoca e ressignifica quase tudo. Isso sempre existiu e continuará existindo. O problema muda de patamar quando o ponto de partida não é a arquibancada, mas um jornalista com espaço em grandes veículos.
Foi isso que gerou reação no caso de Arrascaeta.
Ao utilizar “pênalti à la Arrascaeta”, e depois ver o termo derivar para “ArrascaPênalti”, o debate passou a ser menos sobre o lance em si e mais sobre a intenção por trás da construção. Afinal, diferente de expressões como “Muricybol”, “Cucabol” ou “Dinizismo”, que descrevem modelos de jogo e podem até assumir sentidos positivos ou negativos conforme o contexto, “ArrascaPênalti” nasce exclusivamente como acusação.
Não existe neutralidade possível no termo.
Ele não descreve estilo, não analisa comportamento tático, não contextualiza um padrão de equipe. Ele marca um jogador com um carimbo.
E isso importa.
A falsa simetria nas comparações
Uma das defesas apresentadas por Danilo Lavieri foi a comparação com outros apelidos históricos do futebol, como “Cucabol”, “Muricybol”, “pênalti atleticano” ou até referências a Hulk e Abel Ferreira. A tentativa foi normalizar a situação como algo comum no ambiente esportivo.
Mas a comparação não se sustenta.
Quando Mauro Cezar explica a origem de “Cucabol”, por exemplo, ele deixa claro que o termo nasceu para descrever características de jogo do Palmeiras de Cuca em 2016, inspirado no já conhecido “Muricybol”, e não como uma acusação moral ou uma tentativa de transformar um treinador em símbolo de algo antiético.
A diferença central está aí.
“Cucabol” falava sobre o Palmeiras. “Pênalti atleticano” discutia um padrão ligado ao Atlético. Já “ArrascaPênalti” nasce para nomear um suposto vício individual de um jogador do Flamengo, e curiosamente surge em um contexto que beneficiava o Palmeiras. Não é apenas semântica. É intenção.
Os números não sustentam a narrativa
Outro ponto que enfraquece a construção do rótulo é a própria estatística.
Levantamentos compartilhados durante o debate mostram que Arrascaeta está longe de ser um jogador com histórico desproporcional de pênaltis sofridos. Em 370 jogos pelo Flamengo, ele teria sofrido apenas 13 penalidades, média que desmonta a ideia de um atleta conhecido por esse tipo de jogada.
Há comparações que apontam números superiores de outros jogadores como Dudu, Gabigol, Hulk e até Bruno Henrique dentro do próprio elenco rubro-negro.
Ou seja, o camisa 10 não lidera esse tipo de estatística nem no próprio clube. Ainda assim, o rótulo ficou com ele. Isso reforça a percepção de que a escolha não foi técnica, mas simbólica. Era preciso associar um rosto, um nome e, principalmente, um clube.
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O silêncio sobre outros casos
A seletividade também aparece quando situações semelhantes acontecem com atletas de outros clubes.
Durante o mesmo período, houve debates sobre lances envolvendo Vitor Roque, chamado por muitos de “Tigrinho”, e outros atacantes que frequentemente buscam o contato dentro da área. No entanto, não houve mobilização semelhante da imprensa para transformar isso em marca registrada.
Não surgiu “pênalti à la Tigrinho” com a mesma força. Não houve repetição massiva. Não houve esforço narrativo. A régua muda. E quando a régua muda sempre para o mesmo lado, deixa de ser coincidência.
O método da vilanização
A crítica central de parte da torcida e de jornalistas independentes não é sobre um apelido isolado, mas sobre um método.
Existe uma percepção consolidada de que o Flamengo, quando protagoniza qualquer debate nacional, costuma ser tratado sob uma lente diferente. Se um jornalista torce para outro clube, isso é normal. Se um jornalista é flamenguista, imediatamente vira “flapress”.
Se outro jogador simula, é malandragem de jogo. Se é no Flamengo, vira narrativa nacional. Se um clube paulista pressiona arbitragem, fala-se em bastidor político. Se o Flamengo reage, surge a suspeita de favorecimento obscuro. O problema não está na crítica. O futebol precisa dela. O problema está na assimetria.
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A resposta da torcida
Se há algo que a história do Flamengo ensina, é que a torcida costuma ressignificar aquilo que tentam usar contra ela. Foi assim com provocações antigas, com estigmas históricos e até com o próprio urubu, transformado de ofensa em símbolo máximo da identidade rubro-negra.
Não seria surpresa se “ArrascaPênalti” seguisse caminho parecido.
A diferença é que, desta vez, o debate expõe algo mais relevante do que a brincadeira em si: a necessidade de discutir o papel da imprensa esportiva e o limite entre análise, provocação e militância disfarçada de neutralidade.
Porque quando o jornalista deixa de relatar e passa a carimbar, a notícia deixa de ser informação e vira instrumento.
E isso, no fim, diz muito mais sobre quem escreve do que sobre quem joga.
Danilo Lavieri é rebatido ao vivo e mais uma narrativa sobre Flamengo é desmontada
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