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Danilo Lavieri critica o jornalismo esportivo que ele próprio ajudou a construir

Danilo Lavieri, “pênalti à la Arrascaeta” e o debate sobre imparcialidade na cobertura de Palmeiras e Flamengo

O debate sobre a deterioração do jornalismo esportivo brasileiro ganhou mais um capítulo curioso quando Danilo Lavieri resolveu criticar exatamente o ambiente que ele próprio ajudou a alimentar nos últimos meses. Durante participação eno programa Posse de Bola, do UOL, ao lado de Juca Kfouri e outros comentaristas, o jornalista falou sobre a guerra institucional entre Flamengo e Palmeiras, lamentou o crescimento do clubismo, criticou a influência das mídias clubísticas e defendeu a necessidade de maior neutralidade e lisura dentro da cobertura esportiva.


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O discurso, no papel, parece correto. O problema aparece quando se confronta essa fala com o histórico recente do próprio Lavieri. A crítica à transformação do debate esportivo em uma disputa de narrativas perde força quando parte relevante dessa radicalização passou justamente por ações, textos, falas e construções impulsionadas por ele mesmo, especialmente no caso da Libra, nas discussões sobre arbitragem e na insistência em narrativas seletivas envolvendo o Flamengo.

A contradição não passou despercebida. O tema foi amplamente debatido no Canal Ser Flamengo, onde se expôs não apenas a incoerência do discurso atual, mas também a forma como certos jornalistas passaram anos ajudando a transformar opinião em tese, insinuação em manchete e rivalidade esportiva em disputa de legitimidade institucional .

O discurso de Juca e a entrada de Lavieri

Durante o programa, Juca Kfouri lamentou o ambiente de beligerância entre Flamengo e Palmeiras e criticou o retorno de um velho bairrismo entre Rio e São Paulo. Também fez um alerta sobre o crescimento das chamadas mídias clubísticas e sobre como essa lógica estaria contaminando não apenas influenciadores independentes, mas também a própria imprensa tradicional.

Juca afirmou que esse movimento se transformou em uma “peste” que infesta a cobertura esportiva, especialmente quando jornalistas passam a atuar como representantes de torcidas organizadas em vez de profissionais comprometidos com informação e contexto .

Na sequência, Danilo Lavieri reforçou a mesma linha. Disse que o problema se agrava quando esse comportamento sai das arquibancadas e invade espaços que deveriam ser neutros, como redações, bastidores e reuniões de clubes. Segundo ele, o futebol passa a ser contaminado quando jornalistas, dirigentes e instituições deixam de pensar no esporte e passam a atuar apenas em defesa de seus próprios interesses .

O argumento seria irrepreensível se não viesse justamente de alguém que participou ativamente da construção desse ambiente.

A convocação de Abel e a mídia palestrina

Antes mesmo da fala de Lavieri, Abel Ferreira já havia deixado claro seu método. Em entrevista coletiva, o técnico do Palmeiras praticamente convocou a chamada “mídia palestrina” para reforçar a narrativa do clube sobre arbitragem, STJD e suposto favorecimento ao Flamengo. Pediu que observassem os fatos, levantassem dados e sustentassem publicamente a tese de perseguição.

Na prática, o recado foi simples: era preciso transformar a narrativa institucional em discurso coletivo.

Esse movimento não ficou restrito aos canais independentes ligados ao Palmeiras. Ele rapidamente encontrou eco em setores da grande imprensa, onde comentaristas e colunistas passaram a reproduzir a mesma lógica, muitas vezes sem o devido contraponto. O que era apresentado como análise passou a funcionar como reforço de uma tese já pronta.

O problema não está na existência de canais clubísticos, mas no fato de jornalistas tradicionais passarem a agir como se fossem extensão desses espaços, usando a autoridade da grande imprensa para validar narrativas parciais .

O caso Arrascaeta e a fabricação de uma marca

Um dos exemplos mais evidentes citados é o uso da expressão “pênalti à la Arrascaeta”, que mais tarde acabou ressignificada nas redes como “Arrasca Pênalti”. A tentativa de transformar o meia rubro-negro em símbolo de simulação não nasceu como piada espontânea de internet, mas como construção discursiva.

O termo foi utilizado por Danilo Lavieri ainda em fevereiro, antes mesmo da explosão viral da expressão, com o objetivo claro de associar Arrascaeta à imagem de um jogador que cava faltas e induz a arbitragem ao erro .

Posteriormente, a frase ganhou vida própria nas redes sociais, foi absorvida por outros comunicadores e acabou transformada em meme. Mas sua origem não foi humorística. Ela nasceu como narrativa.

Esse ponto é central porque desmonta a tentativa posterior de tratar tudo como simples brincadeira de internet. Quando a marca é criada por um jornalista e carregada de intenção editorial, ela deixa de ser apenas uma piada. Ela passa a influenciar percepção pública.

A matéria da Libra e a assinatura que nunca se sustentou

Outro caso emblemático envolve a matéria sobre a Libra e a suposta assinatura de Rodolfo Landim no critério de divisão dos 30% de audiência. A publicação ajudou a consolidar a tese de que o Flamengo teria concordado formalmente com uma divisão que depois passou a contestar.

O problema é que, com o avanço das informações e das decisões posteriores, essa leitura perdeu sustentação. Ainda assim, Danilo Lavieri jamais reconheceu de forma clara o erro ou reviu publicamente a construção inicial.

Esse episódio se tornou uma espécie de marca permanente sobre sua cobertura, justamente porque simboliza um tipo de jornalismo que trabalha com metade da informação e, quando confrontado pelos fatos posteriores, prefere manter a narrativa original em vez de corrigi-la .

É por isso que a crítica sobre lisura e responsabilidade soa contraditória. Quem cobra transparência institucional também precisa aceitar revisão pública quando erra.

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O contraste com Juca Kfouri

Há exemplos recentes em que Juca revisou posicionamentos e reconheceu publicamente equívocos em análises de arbitragem. Isso não o torna infalível, mas preserva um princípio essencial do jornalismo: a disposição de corrigir o erro quando ele se torna evidente .

Com Lavieri, a crítica é justamente oposta. A percepção é de resistência em admitir falhas, mesmo quando os fatos posteriores desmontam a sustentação inicial. E isso enfraquece qualquer discurso moral sobre responsabilidade editorial.

O Flamengo não criou essa guerra

Outro ponto importante levantado é a falsa simetria que tenta colocar Flamengo e Palmeiras como igualmente responsáveis pela atual guerra institucional.

O Palmeiras já opera esse método há anos, desde o início do ciclo de Abel Ferreira, com pressão constante sobre arbitragem, tribunais, mídia e adversários. O Flamengo passou a reagir depois, especialmente quando percebeu que permanecer em silêncio significava aceitar passivamente a consolidação dessas narrativas .

A diferença entre reação e método é profunda. O Palmeiras institucionalizou a estratégia. O Flamengo passou a contrapor quando percebeu que o silêncio apenas fortalecia a tese rival. Quando Lavieri tenta tratar ambos como lados equivalentes, ignora deliberadamente a origem e a cronologia desse processo.

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A preocupação só surgiu quando houve contraponto

Talvez o ponto mais revelador de toda essa discussão seja justamente o momento em que a preocupação com o jornalismo apareceu.

Durante anos, a construção de narrativas seletivas, o reforço de suspeitas sem provas robustas e a transformação de comentários em marcas públicas passaram sem grande desconforto. A inquietação só ganhou força quando o Flamengo passou a responder, quando influenciadores rubro-negros começaram a confrontar essas versões e quando parte da audiência deixou de aceitar automaticamente a autoridade tradicional da grande imprensa.

A preocupação não surgiu com o problema. Surgiu com a perda do monopólio da narrativa.

E isso explica muito.

Quando a crítica vira espelho

O jornalismo esportivo brasileiro vive hoje um problema real de radicalização, superficialidade e clubismo disfarçado de análise. Juca Kfouri tem razão ao alertar para isso. A crítica é necessária.

Mas ela perde força quando feita sem autocrítica.

Danilo Lavieri não está errado ao dizer que há um problema grave no ambiente atual. O erro está em ignorar o próprio papel dentro dessa engrenagem. Não é possível condenar a fábrica fingindo nunca ter participado da produção.

O debate sobre Flamengo, Palmeiras, Libra e arbitragem precisa de menos personagens defendendo suas próprias versões e mais profissionais dispostos a reconhecer onde ajudaram a piorar o cenário. Porque quando um jornalista critica exatamente o modelo que ajudou a fortalecer, a fala deixa de soar como reflexão.

E passa a parecer apenas espelho.

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