Defesa do amadorismo? Milly pede intervenção direta de Bap no futebol do Flamengo
O debate sobre os rumos do Flamengo ganhou um contorno curioso nos últimos dias. Após derrotas consecutivas, desempenho irregular e a perda da Supercopa, a jornalista Milly Lacombe defendeu publicamente que o presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, assuma um papel mais ativo no futebol, indo além das atribuições institucionais. A sugestão, apresentada como resposta ao mau momento esportivo, colide frontalmente com o discurso de profissionalização que o clube e parte da própria imprensa sustentam há anos.
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A cobrança surgiu em meio a uma temporada ainda em construção, mas já marcada por escolhas discutíveis no planejamento. O Flamengo apostou em um início de calendário sustentado pelo elenco sub-20. O resultado, até aqui, tem sido abaixo do esperado.
O que se cobra do presidente, afinal
A defesa de uma presença mais incisiva do presidente no ambiente do futebol reacende uma discussão antiga. Qual é o limite da atuação de um dirigente não remunerado em um clube que se diz profissional? Bap foi eleito para definir diretrizes, estruturar a governança, escolher executivos e cobrar resultados. Não para influenciar vestiário, sugerir escalações ou atuar como líder emocional do elenco.
Quando se pede que o presidente “desça ao futebol”, o que se propõe, na prática, é a substituição do método pelo improviso. A ideia de que a simples presença do mandatário resolveria problemas técnicos ignora décadas de erros cometidos exatamente por esse tipo de intervenção.
A contradição no discurso da profissionalização
O ponto central da crítica não está na cobrança por resultados, que é legítima, mas na solução apontada. A profissionalização sempre foi defendida como a separação clara entre quem decide o rumo estratégico do clube e quem executa o futebol. Quando o desempenho cai, cobra-se dos profissionais contratados. Se eles falham, são substituídos. O presidente não vira plano B.
Ao sugerir que Bap intervenha diretamente, o discurso abandona a lógica profissional e flerta com um modelo personalista, típico de gestões amadoras. É exatamente esse tipo de prática que costuma ser apontada como raiz de crises em clubes que não conseguem se organizar.
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Filipe Luís, elenco e responsabilidade técnica
O mau momento do Flamengo passa, inevitavelmente, pela comissão técnica e pelo elenco. Filipe Luís assumiu o comando em um cenário complexo, com calendário apertado e decisões estruturais pendentes. Ainda assim, cabe a ele responder pelo desempenho em campo, assim como aos jogadores mais experientes, que têm histórico e salário compatíveis com liderança.
Se há falhas emocionais, de entrega ou de leitura de jogo, a resposta deve vir do departamento de futebol. Psicologia esportiva, ajustes táticos, mudanças internas e até correções no elenco fazem parte do processo. Nada disso exige a presença do presidente no vestiário.
Quando a exceção vira regra
O futebol brasileiro está repleto de exemplos em que a “intervenção pontual” virou prática permanente, com efeitos devastadores. Presidentes que se sentem obrigados a aparecer em momentos de crise tendem a criar dependência simbólica, enfraquecendo técnicos e gestores. No médio prazo, o clube perde método, hierarquia e previsibilidade.
O Flamengo não precisa reinventar sua estrutura a cada tropeço. Precisa, sim, reconhecer erros de planejamento, corrigi-los com agilidade e cobrar quem foi escolhido para executar. Defender a intervenção direta do presidente não é modernidade. É um retorno a um modelo que o próprio clube já superou.
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O risco do retrocesso travestido de cobrança
A crítica pública de Milly Lacombe chama atenção menos pela cobrança e mais pela solução proposta. Exigir liderança não pode significar desmontar a lógica profissional. Se o presidente vira personagem do futebol, algo deu errado antes.
O clube tem problemas claros, mas também tem estrutura para corrigi-los. O que não pode é confundir liderança institucional com interferência técnica. Isso não é profissionalismo. É exatamente o contrário.
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