Poucos personagens da história do futebol brasileiro conseguem atravessar gerações com a mesma força de Arthur Antunes Coimbra. Quase quatro décadas após encerrar sua trajetória como jogador, Zico continua produzindo feitos que ultrapassam os limites das quatro linhas. Agora, o maior ídolo da história do Flamengo também alcança um resultado expressivo no cinema nacional. O documentário “Zico, o Samurai de Quintino” superou a marca de 65 mil espectadores em apenas cinco semanas de exibição e se consolidou como o terceiro documentário brasileiro mais assistido do circuito comercial nos últimos cinco anos.
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O desempenho ganha relevância em um cenário no qual documentários nacionais costumam enfrentar dificuldades para competir por espaço nas salas de cinema. A produção dirigida por João Wainer conseguiu romper essa barreira ao transformar uma história amplamente conhecida em uma experiência emocional capaz de dialogar tanto com torcedores quanto com o público interessado em grandes trajetórias humanas.
O sucesso comercial chega acompanhado de reconhecimento técnico. A Academia Brasileira de Cinema anunciou a indicação de André Felipe Silva e João Wainer ao Prêmio Grande Otelo na categoria Melhor Montagem de Documentário. O reconhecimento reforça a qualidade narrativa da obra, construída a partir de um extenso trabalho de pesquisa e organização de material histórico.
Muito além dos gols e títulos
Ao contrário de produções tradicionais voltadas exclusivamente para a carreira esportiva, “Zico, o Samurai de Quintino” busca compreender o personagem por trás do ídolo. O filme mergulha na intimidade do Galinho utilizando um acervo pessoal raríssimo, composto por fitas VHS, registros em Super-8, fotografias, documentos e objetos que ajudaram a construir uma das trajetórias mais importantes da história do esporte brasileiro.
Entre os itens apresentados estão a camisa utilizada na conquista do Mundial Interclubes de 1981 e cadernos onde o próprio Zico registrava estatísticas, gols e observações sobre sua carreira. O material oferece ao espectador uma dimensão pouco conhecida do ex-camisa 10, revelando um profissional meticuloso, disciplinado e obcecado pelo aperfeiçoamento constante.
As gravações começaram em 2023, ano em que Zico completou 70 anos. A equipe percorreu locais fundamentais para a construção da identidade do craque, incluindo Quintino, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro onde nasceu, diferentes pontos da cidade, além do Japão, país que se tornou parte inseparável de sua história após a passagem pelo Kashima Antlers e sua contribuição para o desenvolvimento do futebol japonês.
O encontro entre Quintino e o Japão
O título do documentário não é fruto do acaso. A expressão “Samurai de Quintino” sintetiza uma das características mais marcantes da personalidade de Zico. Formado nas ruas do subúrbio carioca, o ex-jogador sempre carregou valores associados à disciplina, ao respeito, à dedicação e ao senso coletivo.
Essas características fizeram com que sua adaptação ao futebol japonês fosse quase natural. Em um dos trechos centrais da obra, o documentário explora justamente essa conexão entre duas culturas aparentemente distantes, mas que encontraram em Zico um ponto de convergência.
A proposta não é apenas contar a história do atleta que brilhou pelo Flamengo, pela Seleção Brasileira e pelo Kashima Antlers. O filme procura entender como a personalidade construída em Quintino ajudou a moldar um dos maiores embaixadores do futebol mundial.
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Depoimentos que ajudam a reconstruir a trajetória
A narrativa é enriquecida por entrevistas exclusivas com familiares, amigos e personagens fundamentais da carreira do Galinho. Participam do documentário sua esposa Sandra, os filhos e nomes que dividiram momentos históricos com o craque. Entre os depoimentos estão Maestro Júnior, Carpegiani, Carlos Alberto Parreira e Ronaldo Fenômeno. Cada um deles ajuda a compor diferentes perspectivas sobre a dimensão esportiva e humana de Zico.
O diretor João Wainer resumiu o espírito da produção ao afirmar que o projeto permitiu descobrir ensinamentos que vão muito além do futebol.
“Mais do que as conquistas e glórias do Zico, venho aprendendo com ele lições que vão além do futebol, como humildade, respeito e gentileza“, destacou.
Já o produtor André Wainer reforçou o caráter singular da obra.
“Gostamos de dizer que este é um filme de não ficção, apesar de muitas jogadas do Zico parecerem fora da realidade.“
Flamengo como parte da construção da memória
Embora o documentário tenha alcance nacional e internacional, é impossível separar a trajetória de Zico da história do Flamengo. O clube aparece não apenas como cenário das maiores conquistas do craque, mas como parte essencial de sua construção simbólica. O Rubro-Negro atuou como parceiro institucional da produção, auxiliando no acesso a conteúdos históricos, acervos e conexões fundamentais para a reconstrução de diversos momentos apresentados na tela.
A relação entre Zico e Flamengo transcende estatísticas. São 508 gols, inúmeros títulos e uma identificação que permanece viva décadas após sua aposentadoria. Em muitos aspectos, contar a história do Galinho significa revisitar capítulos fundamentais da própria identidade rubro-negra.
Um novo público a partir do streaming
Após consolidar sua trajetória nos cinemas, o documentário inicia uma nova etapa. A partir desta quarta-feira, 3 de junho, “Zico, o Samurai de Quintino” chega às principais plataformas de TVOD do país, incluindo Claro+, Vivo Play, Google TV, YouTube Filmes, Amazon Store e Apple TV.
A chegada ao vídeo sob demanda representa uma oportunidade de ampliar significativamente o alcance da obra. Muitos torcedores que não tiveram acesso às salas de cinema agora poderão conhecer uma narrativa que vai além dos lances históricos e mergulha na formação de um personagem que ajudou a redefinir o futebol brasileiro.
O desempenho alcançado até aqui demonstra que a figura de Zico continua despertando interesse muito além da nostalgia. O sucesso do documentário mostra que seu legado permanece atual, relevante e capaz de dialogar com diferentes gerações. Em uma época marcada pela velocidade das redes sociais e pela fragmentação da atenção, a trajetória do Galinho prova que grandes histórias continuam encontrando espaço quando são contadas com profundidade, sensibilidade e respeito à memória.
Mais do que um filme sobre um ídolo, “Zico, o Samurai de Quintino” se transforma em um registro histórico sobre valores que ajudaram a construir uma das carreiras mais admiradas do esporte mundial. Talvez seja justamente essa combinação entre talento, disciplina, humanidade e pertencimento que explique por que, tantos anos depois, o nome de Zico continua mobilizando multidões dentro e fora dos estádios.
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