Dossiê Flamengo x Libra: como parte da imprensa criou narrativas e ignorou o mérito jurídico do caso

O caso envolvendo Flamengo e Libra deixou de ser apenas uma disputa jurídica sobre critérios de divisão de receitas de audiência para se transformar em um dos episódios mais emblemáticos do jornalismo esportivo brasileiro recente. O que começou oficialmente em 24 de setembro de 2025, após a Justiça acolher o pedido do Flamengo e bloquear parte da verba ligada aos direitos de transmissão, rapidamente virou uma avalanche de narrativas, acusações sem provas, simplificações grosseiras e opiniões travestidas de informação. O episódio, agora registrado em um longo fio publicado no X e posteriormente aprofundado em análise audiovisual, funciona quase como um dossiê sobre os limites éticos de parte da cobertura esportiva nacional.
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Mais do que discutir quem estava certo financeiramente, o centro da questão sempre foi jurídico e estatutário. O Flamengo sustentava que os critérios de distribuição dos 30% da verba de audiência não estavam completos no Anexo 1 da Libra, sobretudo na definição dos pesos por plataforma. Sem unanimidade dos clubes para regulamentar esses pontos, a entidade não poderia operacionalizar os pagamentos da forma como vinha fazendo. Esse foi o mérito acolhido pelo Judiciário. Ainda assim, grande parte da cobertura preferiu abandonar a complexidade técnica para criar um enredo simplificado: o Flamengo teria “assinado e não lido”.
Foi nesse ambiente que nasceu uma narrativa repetida à exaustão em programas, colunas, lives e redes sociais.
O início da construção narrativa
O primeiro grande movimento ocorre em 28 de setembro de 2025, quando PVC publica sua coluna afirmando que o Flamengo havia concordado previamente com os critérios de distribuição de audiência e insinuando parcialidade do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. A partir daquele momento, o debate jurídico praticamente desaparece do noticiário esportivo tradicional. O foco passa a ser outro: transformar o clube em vilão político e institucional.
A frase “assinou e não leu” virou imediatamente a síntese da cobertura. O problema é que ninguém apresentava a assinatura que comprovaria a tese defendida. O próprio público começou a questionar onde estava o documento citado repetidamente por jornalistas e comentaristas.
No dia seguinte, o programa De Primeira, do UOL, amplia ainda mais a narrativa. PVC volta a afirmar que o Flamengo concordou com os critérios e simplesmente teria se arrependido depois. O caso passa então a ser tratado quase como birra administrativa da nova gestão de Bap contra algo já consolidado anteriormente por Rodolfo Landim.
O detalhe ignorado por boa parte da cobertura era simples: os critérios específicos por plataforma simplesmente não estavam definidos.
Quando o jornalismo abandona o mérito da questão
Ao longo das semanas seguintes, o padrão se repete de maneira quase coordenada. Em vez de aprofundar o conteúdo jurídico da ação, vários comentaristas passam a tratar o caso apenas como disputa política entre Flamengo e os demais clubes da Libra.
Danilo Lavieri entra na cobertura em 30 de setembro reproduzindo a mesma lógica argumentativa. Afirma que os critérios existiam, ainda que fossem “pouco claros”, e sustenta que o Flamengo havia concordado com tudo anteriormente. O problema é que o próprio debate posterior demonstraria justamente o contrário: os critérios por plataforma estavam omissos.
No mesmo período, surgem manifestações ainda mais agressivas em programas esportivos. Sormani utiliza palavrões ao vivo para se referir ao Flamengo e reforça a ideia de que o clube deveria “jogar sozinho”. Gustavo Zupak reduz um caso técnico e estatutário à narrativa de que Leila Pereira “peitava o Flamengo”. O mérito jurídico praticamente desaparece da cobertura.
Enquanto isso, o Flamengo insistia exatamente no mesmo ponto desde o início: não havia unanimidade aprovada para os critérios por plataforma exigidos pelo estatuto da própria Libra.
As ilações sobre o Tribunal de Justiça do Rio
Talvez o aspecto mais grave de toda a cobertura tenha sido a insistência em levantar suspeitas sobre o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro sem apresentação de provas concretas.
PVC repetiu diversas vezes a ideia de que decisões vindas do TJRJ “caíam em Brasília”, associando o caso Flamengo x Libra ao episódio envolvendo Ednaldo Rodrigues na CBF. O problema é que a analogia era tecnicamente equivocada. Conforme apontado posteriormente, o caso Ednaldo seguiu dinâmica judicial diferente da descrita pelo jornalista.
Rodrigo Mattos chegou a repreender PVC ao vivo durante um programa, questionando diretamente qual seria a insinuação feita contra o tribunal carioca. Ainda assim, a narrativa seguiu circulando.
Danilo Lavieri repetiu a mesma linha posteriormente, sugerindo que o Flamengo teria recorrido “ao Tribunal do Rio” após perder em primeira instância, como se tivesse buscado foro alternativo favorável. Na realidade, tratava-se apenas da instância superior dentro do próprio tribunal competente definido pelos próprios clubes da Libra no contrato firmado anteriormente.
Benja repetiria argumento semelhante dias depois, sendo contestado ao vivo por Mano, que explicou de maneira objetiva que o foro do Rio de Janeiro havia sido escolhido consensualmente pelos clubes para resolução de conflitos relacionados à Libra.
A reação institucional veio em seguida. A Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro publicou nota oficial repudiando as declarações que colocavam sob suspeita a atuação do Judiciário sem qualquer comprovação objetiva.
O “documento” de Danilo Lavieri e o nascimento do “jornalista pela metade”
O ápice do episódio acontece em 6 de outubro de 2025. Durante o Posse de Bola, Danilo Lavieri anuncia uma reportagem que supostamente provaria que Rodolfo Landim havia assinado concordando com todos os critérios de divisão de audiência da Libra. O tom era quase de revelação definitiva que encerraria qualquer discussão jurídica sobre o caso.
Só havia um problema.
O documento apresentado não comprovava aquilo que o jornalista afirmava.
Na prática, tratava-se do edital da reunião que reformou o estatuto da Libra e definiu premissas gerais de distribuição, mas sem regulamentar os pesos específicos por plataforma. Justamente o ponto central da ação movida pelo Flamengo.
A situação se agrava porque a matéria publicada no site do UOL trazia apenas parte do Anexo 1. O trecho decisivo, onde a tabela referente ao rateio por plataforma aparecia em branco, foi cortado da publicação. Rodrigo Mattos já havia divulgado anteriormente o documento completo.
Foi então que o perfil Mundo na Bola, conduzido por Fabrício Chicca, desmontou publicamente a narrativa construída na reportagem. O apelido “jornalista pela metade” nasce justamente daí: da publicação parcial do documento central da controvérsia.
O episódio virou meme nas redes sociais, mas expôs algo mais sério. O jornalismo esportivo brasileiro havia trocado análise documental por construção de narrativa.
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O silêncio após o erro
Outro ponto que chama atenção no dossiê é o comportamento posterior de parte dos envolvidos.
Mesmo após o acordo entre Flamengo e Libra em 2026 reconhecer, na prática, que os critérios precisavam ser ajustados, praticamente não houve autocrítica pública relevante. PVC chegou a admitir posteriormente que os critérios não estavam definidos no contrato e no Anexo 1 da Libra, mas sem corrigir suas colunas anteriores ou reconhecer explicitamente o erro inicial sobre a suposta concordância plena do Flamengo.
Danilo Lavieri também falou sobre o caso meses depois, mas classificou as críticas à sua reportagem como mera “guerra de narrativas”. Em novo posicionamento, chegou a afirmar que os critérios eram “confusos”, contradizendo diretamente a segurança com que sustentava anteriormente que tudo já estava acordado e definido.
O problema não é mudar de entendimento diante de novos fatos. Isso faz parte do jornalismo sério. O problema é não corrigir publicamente informações equivocadas depois que elas ajudaram a moldar toda a percepção pública sobre um tema complexo.
A imprensa escolheu lados
O fio publicado no X e transformado posteriormente em vídeo deixa uma conclusão bastante clara: boa parte da cobertura esportiva escolheu um lado antes mesmo de compreender o mérito jurídico do caso.
Enquanto o Flamengo apontava transgressões ao estatuto da própria Libra, ausência de unanimidade e irregularidades nos procedimentos internos da entidade, muitos programas preferiram reduzir tudo a frases prontas como “o Flamengo quer jogar sozinho”, “assinou sem ler” ou “Leila peitou o Flamengo”.
As transgressões levantadas pelo clube eram graves. Entre elas, a autorização de pagamentos sem aprovação da assembleia, alteração de pauta sem deliberação coletiva, adoção de cenário sem unanimidade exigida e até omissão de trechos relevantes em atas de reunião. Tudo isso foi levado à Justiça e serviu de base para o acolhimento inicial da liminar.
Ainda assim, o mérito jurídico virou detalhe secundário para parte relevante da cobertura.
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Um caso que deveria virar estudo acadêmico
Talvez o ponto mais importante desse dossiê esteja justamente na dimensão histórica do episódio. O caso Flamengo x Libra deixou de ser apenas um conflito esportivo ou financeiro. Ele se tornou uma demonstração pública de como narrativas podem ser construídas rapidamente quando parte da imprensa abandona rigor técnico em favor de posicionamentos emocionais, políticos ou comerciais.
O debate não é sobre torcer ou não torcer para clube. Todo jornalista esportivo possui simpatias pessoais. O problema começa quando preferências passam a contaminar análise factual, interpretação documental e cobertura jurídica.
A cobertura do caso Flamengo x Libra revelou uma imprensa esportiva frequentemente despreparada para lidar com temas técnicos, estatutários e institucionais. Em vez de estudar contratos, documentos e regras internas da liga, muitos optaram pelo caminho mais simples: transformar o assunto em guerra de torcida.
O episódio também desmonta um argumento recorrente utilizado contra mídias segmentadas. Durante anos, setores tradicionais tentaram desqualificar produtores independentes sob a alegação de falta de profissionalismo ou excesso de paixão clubística. No entanto, nesse caso específico, foram justamente espaços alternativos que se dedicaram a analisar documentos completos, confrontar versões e discutir efetivamente o mérito jurídico da questão.
No fim das contas, o caso Flamengo x Libra talvez diga menos sobre o clube carioca e muito mais sobre o estado atual do jornalismo esportivo brasileiro. Um ambiente cada vez mais guiado por engajamento, cortes virais, rivalidades fabricadas e narrativas aceleradas, onde muitas vezes a informação deixa de ser ponto de partida para se tornar apenas ferramenta de convencimento.
Estudo de caso: como Lavieri, PVC e Rodrigo Mattos cobriram o conflito entre Flamengo e Libra
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