Emenda do profissionalismo: o que vai mudar na estrutura do Flamengo? Veja a proposta final

A proposta de reforma estatutária que institui a chamada “emenda do profissionalismo” chega ao Conselho Deliberativo do Flamengo nesta terça-feira (15), depois de quatro meses de tramitação interna e de mudanças no texto original apresentado pela gestão de Luiz Eduardo Baptista, o Bap. O substitutivo mantém o núcleo da ideia — separar a estrutura de governança da execução profissional —, mas incorpora sugestões de conselheiros, devolve competências ao Conselho Deliberativo e cria novas regras para transparência, composição administrativa e funcionamento do clube.
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Da proposta inicial ao texto que será votado
O processo começou em 11 de maio, quando Bap, por meio do Conselho Diretor, protocolou a proposta na Secretaria dos Conselhos do Flamengo. O documento foi encaminhado ao Conselho Deliberativo e passou pela análise da Comissão Permanente de Estatuto, responsável por verificar a adequação da matéria às regras internas do clube.
Em 31 de maio, houve um parecer prévio com a abertura de prazo para apresentação de emendas. A partir daí, conselheiros e associados puderam sugerir alterações ao projeto. O resultado desse processo foi um texto substitutivo, apresentado em 5 de setembro, que será levado à reunião desta terça-feira.
A arquitetura central não foi modificada. O projeto continua propondo uma estrutura dividida entre um núcleo de supervisão, formado por associados, e uma diretoria profissional responsável pela execução. As mudanças ocorreram principalmente na composição dos órgãos, nas competências atribuídas a cada instância e nos mecanismos de governança.
O que muda em relação ao estatuto atual
A principal transformação está na maneira como o estatuto passa a enxergar a administração do Flamengo. Hoje, o Conselho Diretor concentra funções estratégicas e operacionais, com o presidente, um vice-presidente e até 19 vice-presidentes de departamento. Esses cargos são ocupados por associados e, em regra, não são remunerados.
Na proposta final, o Conselho Gestor assume uma função predominantemente estratégica e de supervisão, enquanto a execução cotidiana fica sob responsabilidade de uma diretoria profissional remunerada. O novo desenho prevê, entre outras posições, um diretor-geral para a estrutura corporativa e um diretor de futebol responsável pelo futebol profissional e pelas categorias de base.
A mudança é importante porque o Flamengo já utiliza profissionais em diferentes áreas, mas isso atualmente depende da interpretação e da vontade de cada administração. O estatuto permite que um presidente organize a operação dessa maneira, mas também deixa aberta a possibilidade de que seu sucessor altere o modelo.
A emenda pretende justamente retirar essa dependência. Se aprovada, a profissionalização deixa de ser uma escolha administrativa de determinado presidente e passa a integrar a estrutura permanente do clube.
Essa diferença explica uma das ideias centrais da reforma: quem governa não executa; quem executa não governa.
Diretor-geral e diretor de futebol
Dois cargos ganham destaque no novo modelo. O diretor-geral passa a comandar a estrutura corporativa, enquanto o diretor de futebol assume formalmente a chefia do departamento responsável pela modalidade.
O diretor de futebol ficará subordinado diretamente ao presidente, e não ao diretor-geral. A comissão responsável pela análise da proposta justificou a manutenção dessa vinculação pela intenção de preservar uma separação específica para o futebol dentro da estrutura executiva.
Também será formalizado o cargo de procurador-geral, que passará a integrar o Conselho Gestor e terá requisitos próprios, como formação jurídica e idade mínima de 35 anos.
Outra alteração relevante envolve as áreas administrativas. A proposta estabelece 18 diretorias profissionais, além da estrutura específica do futebol. Entre as novas áreas incorporadas ao texto final estão responsabilidade social, relacionamento com o torcedor e recursos humanos e capital humano.
No relacionamento com o torcedor, o projeto contempla expressamente a relação com torcidas organizadas, embaixadas e consulados. É uma inclusão que amplia o conceito de gestão profissional para além das áreas financeiras e esportivas.
Mais poder para o Conselho Deliberativo
Um dos pontos que sofreram alteração durante a tramitação foi justamente a distribuição de poder entre os órgãos do clube.
A proposta inicial havia retirado do Conselho Deliberativo a competência relacionada à criação e extinção de departamentos. O texto final devolve essa atribuição à instância deliberativa. Assim, uma eventual mudança estrutural dessa natureza continuará dependendo da aprovação dos conselheiros.
Também houve mudança na política de governança. O Conselho de Administração fará a revisão do texto por iniciativa do diretor-geral, mas a aprovação final ficará com o Conselho Deliberativo. Na prática, o substitutivo preserva a intenção de profissionalizar a execução sem eliminar a participação política e institucional dos associados. O parecer da Comissão Permanente de Estatuto trata esse equilíbrio como uma das bases da reforma.
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Transparência, nepotismo e regras para gestores
Outro avanço previsto é a criação estatutária de um Portal de Governança e Transparência. O Flamengo já possui uma área de transparência em seu site, mas a existência de uma ferramenta desse tipo passará a estar prevista no próprio estatuto.
A proposta estabelece obrigações para esse portal, ressalvando informações protegidas por sigilo ou cláusulas de confidencialidade. A ideia é criar uma obrigação institucional, e não apenas uma iniciativa que possa ser adotada ou abandonada conforme a administração.
O texto final também prevê vedação expressa ao nepotismo na contratação de profissionais da diretoria profissional e estabelece regras relacionadas à atuação político-partidária dos gestores. O regime de trabalho deixa de ser essencialmente associativo e eletivo para assumir caráter contratual e profissional, com avaliação de desempenho e possibilidade de terceirização.
O que mudou desde maio
Apesar das alterações, o coração do projeto apresentado em maio permanece intacto. A separação entre Conselho Gestor e Diretoria Profissional continua sendo o eixo da reforma, assim como a criação dos cargos de diretor-geral e diretor de futebol e a substituição das antigas 19 vice-presidências departamentais por uma estrutura executiva profissional.
Algumas sugestões apresentadas durante a discussão, entretanto, não foram incorporadas. Entre elas estão uma diretoria profissional autônoma para o futebol feminino, um conselho consultivo específico para os esportes olímpicos e a criação de um comitê com poder deliberativo sobre contratações de jogadores.
Neste último caso, a manutenção da autonomia executiva evita acrescentar uma nova etapa de decisão sobre contratações. A escolha sobre reforços continuará dentro da estrutura profissional, sem a criação de um colegiado com poder para deliberar individualmente sobre essas operações. O parecer também explica as razões para as propostas rejeitadas, indicando que o processo não se limitou a aceitar ou descartar sugestões sem justificativa.
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Uma mudança que pode sobreviver às eleições
A votação desta terça-feira representa, portanto, mais do que uma avaliação da forma como a atual gestão trabalha. O ponto central é decidir se esse modelo deverá continuar existindo independentemente de quem ocupar a presidência do Flamengo.
Desde a chamada Chapa Azul, a partir de 2013, a profissionalização da administração aparece como uma das discussões recorrentes no clube. Profissionais passaram a ocupar espaços importantes ao longo dos anos, mas a presença de dirigentes associados em áreas estratégicas, especialmente no futebol e no patrimônio, manteve forte influência política na operação.
A proposta de Bap procura transformar essa experiência em regra estatutária. O presidente pode deixar o cargo, uma nova eleição pode mudar o grupo político no comando e diferentes visões administrativas podem chegar à Gávea. O que permaneceria, caso a emenda seja aprovada, seria a obrigação de manter uma estrutura executiva profissional.
O Flamengo continuaria sendo uma associação civil, com seus associados preservando a soberania sobre as principais decisões institucionais. A diferença estaria na separação mais clara entre quem define as diretrizes, quem fiscaliza e quem administra o cotidiano.
É justamente nessa fronteira que a votação do Conselho Deliberativo ganha peso. A discussão não trata apenas de trocar nomes ou cargos no organograma, mas de definir até que ponto a profissionalização será uma política de uma gestão ou uma característica permanente do Flamengo.
Entenda a reforma do profissionalismo que pode mudar radicalmente a governança do Flamengo
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