A diretoria do Flamengo acendeu um sinal de alerta ao admitir, em debate público recente, que a nova proposta de tributação em discussão no Congresso pode atingir diretamente a estrutura poliesportiva do clube, com impacto potencial sobre modalidades olímpicas historicamente deficitárias. O tema veio à tona em meio às discussões da reforma tributária, quando dirigentes rubro-negros explicaram que, embora o clube descarte qualquer transformação em SAF, será obrigado a rever custos caso a legislação avance nos moldes atuais. O problema não está apenas no futebol profissional, mas no efeito cascata que pode atingir projetos sociais, esportes olímpicos e até programas de incentivo fiscal, justamente aqueles criados para estimular esse tipo de investimento.
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O Flamengo, maior clube poliesportivo do país em número de modalidades e alcance social, reconhece que a nova tributação pode incidir até sobre recursos oriundos da Lei de Incentivo ao Esporte. Na prática, dinheiro que hoje deixa de ir diretamente ao caixa do governo para ser aplicado em projetos esportivos passaria a ser novamente tributado. Um paradoxo que desafia qualquer lógica de política pública. O clube atende a todos os requisitos legais desses programas e construiu, ao longo de anos, uma engrenagem que sustenta modalidades como ginástica, judô, natação, remo e canoagem, muitas delas responsáveis por medalhas olímpicas e formação de atletas para o Brasil.
O que está em jogo
A conta é simples e cruel. Se a legislação for mantida como está, clubes associativos como o Flamengo tendem a pagar mais impostos do que SAFs e até empresas de apostas, que operam com outra lógica tributária. Em um cenário projetado pela própria diretoria, uma receita anual na casa dos R$ 2 bilhões poderia gerar algo próximo de 15% de tributação adicional. Isso representaria centenas de milhões de reais drenados de um orçamento que hoje sustenta esportes não rentáveis, mas socialmente estratégicos.
Quando um clube se vê obrigado a escolher onde cortar, a corda arrebenta no lado mais fraco. Modalidades olímpicas não geram receitas equivalentes ao futebol e dependem de subsídios cruzados. A consequência, ainda que indesejada, passa a ser concreta: redução de investimentos, encerramento de projetos e perda de competitividade. Não por opção ideológica, mas por sobrevivência financeira.
O silêncio que incomoda
O debate, no entanto, ocorre quase à margem da grande mídia esportiva. Nomes frequentemente associados à defesa do esporte olímpico, do futebol feminino e da responsabilidade social dos clubes pouco ou nada disseram até aqui. Não há editoriais, mesas redondas ou colunas indignadas sobre a possibilidade de tributação de programas de incentivo criados pelo próprio Estado. O contraste chama atenção porque, historicamente, o Flamengo costuma ser o alvo preferencial quando decide reduzir investimentos em modalidades deficitárias.
O roteiro é conhecido. Quando o corte acontece, a narrativa se antecipa: clube malvado, gestão neoliberal, desprezo pelo esporte olímpico. O que não aparece é a raiz do problema. Pouco se discute que a eventual redução não decorre de falta de compromisso, mas de um modelo tributário que penaliza justamente quem investe fora do eixo estritamente lucrativo. A seletividade do debate ajuda a explicar por que o tema não ganha tração.
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SAFs, mercado e a pressão invisível
Outro ponto sensível é quem se beneficia dessa arquitetura tributária. Ao tornar clubes associativos mais onerados, o sistema cria estímulos indiretos para a transformação em SAF. Menos impostos, mais flexibilidade, entrada de capital privado. O discurso é vendido como modernização, mas o custo real pode ser a transferência de recursos que hoje financiam esportes olímpicos para projetos empresariais voltados exclusivamente ao lucro.
Não se trata de demonizar SAFs, mas de questionar a assimetria. Enquanto clubes poliesportivos carregam funções sociais, formativas e olímpicas, empresas esportivas operam com foco claro em retorno financeiro. Tratar ambos com a mesma régua, ou pior, penalizar quem investe no esporte de base e olímpico, revela uma escolha política. E essa escolha passa longe de um consenso ideológico, já que a votação envolveu parlamentares de esquerda, direita e centro.
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Um debate que deveria ser público
O caso expõe uma falha grave no debate nacional sobre esporte. A tributação proposta não afeta apenas o Flamengo. Corinthians, São Paulo, Palmeiras e outros clubes associativos também podem sentir os efeitos, inclusive em áreas sensíveis como o futebol feminino. Quando isso acontecer, a reação provavelmente virá. Mas virá tarde, quando projetos já tiverem sido desmontados.
O tema exige discussão agora, com dados, transparência e pressão política. Não para blindar clubes, mas para preservar políticas públicas que funcionam. Tributar a Lei de Incentivo ao Esporte é, em essência, tributar o próprio incentivo. Um contrassenso que ameaça o ecossistema esportivo brasileiro e que, até aqui, segue envolto em um silêncio conveniente.
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