O projeto do estádio próprio do Flamengo no Gasômetro entrou em uma fase ainda mais complexa, não apenas por causa do custo bilionário da obra ou da cautela financeira defendida por Luiz Eduardo Baptista, o Bap, mas principalmente pela indefinição em torno da concessão de gás canalizado no Rio de Janeiro. A área comprada pelo clube abriga estrutura essencial da Naturgy, atual operadora da CEG e da CEG Rio, e a decisão do governo estadual de discutir uma nova licitação para o serviço acrescentou uma camada de incerteza ao processo de liberação do terreno.
Na prática, antes de falar em arquibancada, camarote, naming rights ou inauguração, o Flamengo precisa lidar com uma equação anterior: quem vai operar o gás no Rio, onde ficará a nova estação, quem conduzirá a transferência dos dutos e quando o terreno estará efetivamente limpo para receber uma obra desse porte.
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A informação mais sensível apresentada é que o Flamengo segue fazendo uma espécie de poupança para o estádio, com valores mensais destinados ao projeto, mas trabalha em ritmo menor do que poderia porque não há, neste momento, segurança sobre a operação de gás no local. Segundo informações, a Naturgy teria paralisado ações para deixar o terreno diante da incerteza sobre a continuidade da concessão, já que o contrato atual vence em julho de 2027 e o Estado passou a avaliar uma relicitação. Esse ponto muda o centro do debate, porque mostra que a demora não depende apenas da prioridade política do presidente rubro-negro ou da capacidade do Flamengo de captar dinheiro no mercado.
O gargalo que a gestão anterior tentou tratar como detalhe
A presença da infraestrutura de gás no terreno do Gasômetro não é novidade. Desde o início das discussões, já havia registro de que a construção do estádio estava condicionada à transferência de estruturas do sistema de distribuição de gás canalizado, incluindo uma Estação de Regulagem e Medição, o chamado City Gate, localizada dentro da área arrematada pelo Flamengo. A própria documentação do processo apontava a existência dessas instalações e atribuía ao vencedor do leilão responsabilidades relacionadas à eventual desmobilização e transferência dos equipamentos, o que tornava evidente que comprar o terreno não significava poder construir imediatamente.
Esse é o ponto que precisa ser dito com clareza para a torcida. O Flamengo deu um passo importante ao garantir a área, mas herdou junto uma operação pública sensível, ligada ao abastecimento de gás de uma parte relevante da cidade. Não se remove esse tipo de estrutura por vontade, pressão de rede social ou discurso eleitoral. É preciso projeto técnico, regulação, licença, novo local, remanejamento de dutos, segurança operacional e descontaminação posterior. O problema não está no sonho da Nação, que é legítimo, mas na forma como parte da política rubro-negra vendeu prazos sem dar ao torcedor a dimensão real dos obstáculos.
O cronograma defendido em campanha pela gestão anterior, com estádio inaugurado em 2029, fica cada vez mais distante da realidade apresentada pelos fatos. A informação aponta que, depois de definido quem será o concessionário, ainda seria necessário encontrar um novo terreno para a estação, construir a nova estrutura, remanejar dutos e só então iniciar a descontaminação da área atual. A conta final mencionada é de cerca de seis anos para liberar o terreno, considerando quatro anos para a nova estação e remanejamento da operação, mais dois anos de descontaminação, antes mesmo do início da obra do estádio.
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A relicitação que virou problema para o Gasômetro
O antigo governo do Rio decidiu, em fevereiro de 2026, abrir licitação para as concessões de gás canalizado da CEG e da CEG Rio, atualmente operadas pela Naturgy, cujos contratos vencem em julho de 2027. A justificativa oficial foi modernizar os contratos e a regulação estadual, em meio a questionamentos do TCE-RJ sobre a legalidade de uma renovação e à criação de uma CPI na Alerj para investigar o serviço de distribuição de gás canalizado e os atos relacionados ao processo de renovação ou relicitação.
A Naturgy, por sua vez, defende a renovação das concessões e, ao mesmo tempo, afirma que participaria de uma eventual licitação. A empresa argumenta que controla as distribuidoras desde 1997, que os contratos têm validade de 30 anos, que a concessão expira em julho de 2027 e que a renovação permitiria investimentos de R$ 14 bilhões, com expansão do gás natural para 22 novos municípios e mais de 1,2 milhão de usuários adicionais. A reportagem reproduzida na live também destaca que a FGV fez diagnóstico sobre o tema, sem recomendar diretamente uma ou outra saída, mas apontando que a não renovação poderia gerar indenização bilionária ao Estado.
Esse cenário é ruim para o Flamengo porque coloca o clube no meio de uma disputa que não controla. A decisão sobre relicitar ou renovar não cabe à Gávea. A definição sobre o operador do gás passa pelo governo estadual, pelo regulador, pelo Tribunal de Contas, por eventuais audiências, por disputas administrativas e, possivelmente, por judicialização. Enquanto isso, o Flamengo pode estudar, poupar e planejar, mas não consegue tratar o terreno como área livre. A insegurança sobre quem comandará o serviço a partir de 2027 afeta a interlocução e trava qualquer cronograma mais agressivo de retirada da estação.
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Dinheiro guardado não resolve tubulação ativa
Bap costuma colocar o custo do dinheiro no centro da discussão sobre o estádio. A leitura é correta porque uma obra bilionária, em um país de juros altos, pode comprometer a competitividade esportiva se for feita sem prudência. Mas a novidade da Naturgy mostra que o gargalo atual é ainda mais básico. Mesmo que o Flamengo conseguisse parceiros, naming rights, financiamento ou uma poupança robusta, não poderia iniciar a construção sem resolver a operação de gás existente no terreno.
É por isso que o debate precisa sair da simplificação. Não basta dizer que Bap não prioriza o estádio, assim como não bastava prometer inauguração em 2029 como se a área estivesse pronta para obra. O problema é anterior à vontade da gestão. Um presidente poderia tratar o projeto como prioridade máxima e, ainda assim, não teria como avançar sem a retirada da estação, a definição do novo operador, a escolha de um local substituto e a descontaminação do solo. Isso não absolve o Flamengo de cobrar, articular e pressionar institucionalmente, mas impede que o assunto seja reduzido a falta de desejo político.
A Prefeitura e o Flamengo chegaram a firmar, em agosto de 2025, um termo de compromisso que manteve o clube com o terreno do Gasômetro e assegurou a continuidade dos estudos de viabilidade e desenvolvimento do projeto, com avaliações técnicas e econômicas conduzidas por consultorias como FGV, Arena Venues + Events, Soloeste Engenharia e AECOM. O próprio comunicado reconhecia a necessidade de aprofundar estudos, prorrogar prazos e ajustar obrigações, o que já indicava que a arena estava longe de ser uma obra com cronograma simples.
O Flamengo, portanto, está diante de um dilema de tempo. A concessão do Maracanã ainda dá fôlego ao clube, mas não elimina a necessidade estratégica de encontrar uma solução para sua casa no longo prazo. A partir da década de 2030, o tema voltará com força, seja para construir no Gasômetro, negociar outro caminho ou discutir uma eventual aquisição ou controle definitivo do Maracanã. O que não pode mais acontecer é tratar o torcedor como se o estádio dependesse apenas de maquete, promessa e vontade.
A questão da Naturgy desmonta a retórica fácil. O terreno existe, o sonho continua, a poupança pode estar sendo formada e os estudos seguem como parte do processo, mas a obra só começa quando o Flamengo tiver área livre, licenciada, descontaminada e juridicamente segura. Enquanto a concessão de gás estiver indefinida, sem clareza sobre renovação, licitação ou novo operador, o clube continuará preso a uma espera que revela o tamanho do erro cometido por quem vendeu rapidez onde havia duto, estação, regulação e serviço público essencial.
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