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Estrutura, organização e logística: por que a Gaviões da Fiel levou vantagem sobre as organizadas do Flamengo na Supercopa

Estrutura, organização e logística: por que a Gaviões da Fiel levou vantagem sobre as organizadas do Flamengo na Supercopa

A comparação entre torcidas voltou ao centro do debate esportivo brasileiro após a Supercopa disputada em Brasília, quando Flamengo e Corinthians se enfrentaram em um contexto de arquibancadas cheias, clima de decisão e forte repercussão nas redes sociais e na imprensa. O que começou como uma discussão pontual sobre apoio durante os 90 minutos rapidamente ganhou contornos mais amplos, envolvendo organizadas, identidade nacional, gestão de clube e até julgamentos morais sobre quem “sabe torcer melhor”.


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O estopim veio com uma coluna publicada por Juca Kfouri, na qual o colunista afirmou que a “nação não aprendeu com a fiel e vaiou o Flamengo”. A frase, replicada e debatida, foi tratada como síntese definitiva do que teria acontecido no Mané Garrincha. O problema não está na crítica em si, mas na tentativa de transformar um episódio específico em regra geral, ignorando contexto, estrutura e diferenças históricas entre arquibancadas.

A provocação virou verdade pronta

A reação foi imediata. Torcedores do Flamengo lembraram que a vaia ocorreu no intervalo e ao fim do jogo, algo recorrente no futebol brasileiro, enquanto o apoio durante a partida se manteve. Outros lembraram, em tom provocativo, que “ainda bem que a Nação não é a Fiel”, citando episódios históricos dolorosos do Corinthians, como rebaixamentos e crises prolongadas.

Esse embate, natural no ambiente futebolístico, saiu das redes e foi absorvido por parte da imprensa como se fosse um diagnóstico definitivo: a torcida do Corinthians virou modelo; a do Flamengo, problema. A simplificação é tentadora, mas intelectualmente frágil.

Torcida não é conceito absoluto

Pergunte a um corintiano qual é a melhor torcida do país e a resposta será imediata. Faça o mesmo com flamenguistas, vascaínos ou palmeirenses e o resultado se repete. Isso faz parte do jogo simbólico do futebol. O erro começa quando essa disputa identitária passa a ser tratada como dado objetivo, imune a debate.

Logo após a Supercopa, um texto reflexivo publicado por Benfica, integrante do jurídico da Raça Rubro-Negra, ajudou a recolocar a discussão em um terreno mais sério. Longe de buscar explicações fáceis, ele propôs uma análise da arquibancada do Flamengo a partir de múltiplos fatores, internos e externos, reconhecendo que o comportamento coletivo nunca nasce de uma causa única.

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Nação não substitui organização

Um dos pontos centrais do texto é a distinção entre o orgulho legítimo de ter uma torcida nacional e a necessidade concreta da presença das torcidas organizadas, especialmente fora do Rio de Janeiro. O fato de o Flamengo ter milhões de torcedores espalhados pelo país não garante, automaticamente, uma arquibancada pulsante.

Quantidade não é sinônimo de intensidade. O torcedor local, muitas vezes sem vivência contínua de estádio, não se comporta da mesma forma que grupos habituados à dinâmica da arquibancada. A presença organizada cria ritmo, coordenação e efeito de contágio emocional. Negar isso é desconhecer como o futebol funciona há décadas.

Preço, perfil e elitização

Outro ponto recorrente é a relação entre engajamento e perfil do público presente. Ingressos caros e barreiras de acesso elevadas tendem a formar arquibancadas mais silenciosas, compostas por espectadores ocasionais. Esse fenômeno não é exclusividade do Flamengo.

Dados de 2025 mostram que Flamengo e Corinthians praticam tickets médios semelhantes, ambos acima da inflação quando comparados a 2012. O Corinthians, inclusive, figura entre os clubes que mais encareceram o acesso ao estádio no período. A elitização das arquibancadas é um processo estrutural, intensificado após a Copa de 2014, e atinge praticamente todos os grandes centros.

O papel decisivo das organizadas

A performance da arquibancada cresce proporcionalmente à presença das organizadas. Isso não hierarquiza torcedores nem cria castas. Trata-se de reconhecer o peso do hábito. Quem frequenta estádio com regularidade desenvolve maior consciência coletiva e tende a puxar o restante do público.

Esse fenômeno pode ser observado empiricamente. Em 2025, dois jogos se tornaram referência: a semifinal da Libertadores contra o Racing, na Argentina, e a final contra o Palmeiras, em Lima. Em ambos, a presença massiva e organizada de rubro-negros resultou em atuações históricas fora do país.

Estrutura não nasce do nada

A diferença estrutural entre organizadas do Rio e de São Paulo ajuda a explicar o que se viu em Brasília. Levantamentos recentes mostram que a Gaviões da Fiel opera como uma associação altamente organizada, com CNPJ único que engloba sede, loja virtual e escola de samba. São cerca de 140 mil associados adimplentes, com receitas oriundas de mensalidades, produtos próprios e parcerias comerciais.

Esse modelo permite logística complexa. Na caravana para Brasília, dos 184 ônibus que saíram, 74 eram da Gaviões. Considerando custos médios de transporte, cada torcedor pagou valores acessíveis graças à escala e ao planejamento prévio. Não foi algo espontâneo, mas resultado de estratégia, investimento e organização.

Rio vive outra realidade

No Rio de Janeiro, as organizadas convivem há anos com punições coletivas, suspensões prolongadas e estigmatização institucional. Em vez de responsabilização individual, pune-se o CNPJ. Isso compromete a capacidade de arrecadação, planejamento e crescimento estrutural.

Não por acaso, as duas maiores organizadas do Flamengo passaram longos períodos afastadas da arquibancada. Quando conseguiram se reorganizar, como nas campanhas recentes de Libertadores, mostraram capacidade de mobilização e impacto direto no ambiente do estádio.

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Apoio institucional faz diferença

Clubes também influenciam esse cenário. Em 2021, o Palmeiras ofereceu apoio logístico e institucional às suas organizadas para a final da Libertadores em Montevidéu, facilitando interlocução com autoridades locais. No Corinthians, a relação entre clube e Gaviões inclui, inclusive, facilitação na distribuição de ingressos, o que gerou uma dívida milionária da organizada com o clube.

Nada disso garante vitória em campo, mas interfere diretamente no ambiente. No Flamengo, esse tipo de relação é mais distante e fragmentada.

Comparar não resolve

Reconhecer que o Corinthians possui organizadas mais estruturadas não significa afirmar que sua torcida seja “melhor” do que a do Flamengo. Uma coisa é organização; outra é identidade, capilaridade e presença orgânica. O Flamengo demonstra, repetidamente, manifestações espontâneas em cidades pequenas, no interior do país e até fora do Brasil, algo difícil de replicar em qualquer outro clube.

O que se viu em Brasília foi fruto de planejamento. O que se vê em motociatas no interior da Bahia ou em encontros improvisados no exterior é outra dimensão do torcer. Comparar uma coisa com a outra sem distinção é empobrecer o debate.

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