Ícone do site Ser Flamengo

Falta de lógica? Pedrinho votou a favor da redução de estrangeiros e depois disse que não era o melhor caminho

Falta de lógica? Pedrinho votou a favor da redução de estrangeiros e depois disse que não era o melhor caminho

Imagem: Reprodução / CazeTV

Pedrinho tentou explicar por que votou a favor da redução do número de estrangeiros no Campeonato Brasileiro, mas a justificativa apresentada pelo presidente do Vasco deixa uma contradição difícil de contornar: ele próprio admite que a medida, isoladamente, não representa o caminho que considera adequado para fortalecer a formação de jogadores brasileiros. Ainda assim, decidiu aprová-la com base em um “voto de confiança” na CBF e na expectativa de que mudanças sejam discutidas posteriormente.


Ouça nossas análises e entrevistas sobre a eleição do Flamengo no seu agregador de podcast preferido: Spotify, Deezer, Amazon, iTunes, Youtube Music, Castbox e Anchor.


A questão ganhou peso depois da reunião de 21 de setembro, quando clubes das Séries A e B e federações aprovaram a redução gradual do limite de estrangeiros relacionados por partida. Atualmente, são permitidos nove jogadores nascidos fora do Brasil. A regra aprovada prevê oito em 2027, sete em 2028, seis em 2029 e cinco a partir de 2030. Segundo a CBF, a votação teve apenas dois votos contrários entre os participantes.

É justamente nesse ponto que a explicação de Pedrinho começa a perder consistência. O dirigente afirma que não considera a redução, por si só, o melhor caminho para fazer com que os jogadores formados no país permaneçam mais tempo nos clubes. Na avaliação apresentada por ele, o problema passa por contratos mais longos, multas rescisórias maiores e mudanças nas regras que permitam aos jovens atuar por mais tempo antes de uma eventual transferência.

O raciocínio, portanto, parte de uma premissa compreensível: limitar estrangeiros não resolve sozinho a dificuldade de retenção dos talentos brasileiros. O próprio presidente vascaíno reconhece isso. O problema aparece no passo seguinte. Se essas condições são consideradas fundamentais para que a política alcance o objetivo pretendido, por que aprovar primeiro a restrição e deixar para depois a discussão das medidas que deveriam acompanhá-la?

ENTREVISTA COMPLETA:

O Vasco conhece o problema na prática

A contradição ganha uma dimensão ainda maior quando se observa a realidade do próprio Vasco. O clube terminou a janela de transferências com 11 estrangeiros no elenco profissional. A equipe precisou administrar a limitação de relacionados ao longo da temporada, deixando jogadores fora das partidas para respeitar o limite vigente.

Isso significa que não se trata de uma discussão abstrata para o Vasco. A utilização de atletas estrangeiros já fazia parte da montagem do elenco e da estratégia esportiva do clube. Em agosto, antes do fechamento da janela, o Vasco havia chegado a dez jogadores estrangeiros e precisou priorizar a busca por brasileiros para posições ainda consideradas necessárias.

O ponto não é defender que o limite deva necessariamente permanecer em nove. Há argumentos legítimos em favor de maior espaço para jogadores formados no Brasil. A própria CBF apresentou dados segundo os quais atletas de até 20 anos responderam por 50,1% das receitas brasileiras com transferências para o exterior entre 2016 e 2025, indicando a importância econômica da formação e negociação de jovens talentos.

O problema está na maneira como uma decisão dessa natureza é tomada. Uma gestão pode discordar da proposta, apresentar contrapontos, negociar alterações ou até aprová-la porque entende que os benefícios superam os custos. O que não parece lógico é reconhecer publicamente que faltam elementos importantes para que a medida funcione e, mesmo assim, votar a favor esperando que esses elementos sejam acrescentados depois.

A lógica do “voto de confiança”

A expressão utilizada por Pedrinho é o centro da discussão: “voto de confiança”. O dirigente explicou que acredita que a CBF está buscando mudanças, que haverá novas conversas e que a redução poderá ser revista. Também defendeu alterações relacionadas à duração dos contratos dos jovens, às multas rescisórias e ao número de partidas que um jogador pode disputar antes de trocar de clube durante o Campeonato Brasileiro.

Só que uma votação sobre uma regra esportiva não é exatamente uma promessa para o futuro. Ela produz efeitos concretos sobre os clubes. A partir de 2027, a redução começa a entrar em vigor, enquanto as possíveis correções mencionadas pelo presidente do Vasco ainda dependem de novas negociações e decisões.

A própria CBF informa que a medida poderá ser revista a cada temporada, mas isso não elimina o problema original: uma regra foi aprovada antes de que todas as condições consideradas necessárias por um dos próprios dirigentes estivessem definidas.

É aí que a justificativa deixa de ser apenas contraditória e passa a revelar uma fragilidade de gestão. Um dirigente não precisa concordar com todos os pontos de uma proposta para votar a favor. Mas, se entende que determinados mecanismos são indispensáveis para que ela alcance seu objetivo, seria razoável esperar que esses mecanismos fossem tratados como parte da negociação antes da aprovação, e não como uma espécie de etapa posterior condicionada à boa vontade dos envolvidos.

LEIA MAIS:

CASO PREFIRA OUVIR:

O que o voto deveria resolver?

Existe ainda outra questão. A CBF apresentou a redução como parte de um conjunto maior de medidas destinadas a ampliar o espaço dos jogadores mais jovens. O limite total de inscritos permanecerá em 50 atletas, com uma divisão progressiva entre Lista A e Lista B. A partir de 2027, serão 30 vagas na primeira e 20 na segunda, chegando a 25 para cada grupo em 2030. A entidade afirma que 33 dos 40 clubes das Séries A e B já possuem até 30 jogadores acima de 23 anos inscritos.

Ou seja, existe uma política mais ampla sendo construída. É possível discutir se ela será suficiente, se os incentivos estão corretamente desenhados e se a redução dos estrangeiros produzirá o efeito esperado. O debate é legítimo. O que não se sustenta bem é apresentar a aprovação como um simples gesto de confiança quando o próprio voto não veio acompanhado da garantia das mudanças consideradas necessárias pelo dirigente.

No caso de Pedrinho, a dificuldade da explicação está justamente na sequência dos acontecimentos: ele identifica problemas na proposta, apresenta soluções para esses problemas, admite que a redução não é, para ele, o melhor caminho e, mesmo assim, aprova a medida esperando que as correções apareçam posteriormente. Isso não transforma automaticamente a regra em equivocada, mas torna bastante questionável a lógica utilizada para justificar o voto.

Para um dirigente que representa um clube diretamente afetado pela mudança, especialmente um Vasco que atualmente possui um dos maiores contingentes de estrangeiros da Série A, a expectativa seria de uma negociação mais objetiva: estabelecer as condições, defender os interesses do clube e somente então decidir. Depositar a decisão em um voto de confiança significa aceitar primeiro uma consequência concreta e confiar que os mecanismos de correção virão depois.

É justamente essa inversão que torna a justificativa tão vulnerável. Pedrinho apresentou argumentos que, em boa parte, fazem sentido quando analisados isoladamente. O problema é que eles não conduzem naturalmente ao voto que ele decidiu dar. E, quando a explicação de uma decisão começa reconhecendo que a própria medida não representa o melhor caminho e termina com a aprovação baseada na expectativa de futuras mudanças, a pergunta inevitável passa a ser menos sobre a regra dos estrangeiros e mais sobre o método utilizado para tomar decisões que afetam diretamente o futebol do clube.

Bap processa Pedrinho e pede indenização por danos morais após ataques

—

+ Siga o Ser Flamengo no Twitter, no Instagram e no Youtube.

Comentários
Sair da versão mobile