Flamengo apresenta 66 propostas para transformar Brasileirão em produto global e reposicionar nova liga; confira

O Flamengo apresentou à CBF uma proposta para a criação de uma nova liga com 66 sugestões divididas em 10 eixos estratégicos, buscando deslocar a discussão sobre o futuro do Campeonato Brasileiro de uma disputa restrita aos direitos de transmissão para uma agenda mais ampla de produto, governança, calendário, estádio, mídia, marketing, formação, finanças e internacionalização. O documento, chamado “O novo produto do futebol brasileiro”, foi apresentado em maio e parte de uma tese central: o Brasileirão reúne torcida, tradição, mercado consumidor e capacidade de formação de atletas, mas ainda não consegue converter esses ativos em valor econômico na mesma proporção das grandes ligas internacionais.
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A proposta rubro-negra não trata a liga apenas como uma mesa de negociação sobre divisão de dinheiro. O Flamengo tenta colocar no centro do debate a construção de um produto mais organizado, previsível, vendável e global. Na visão do clube, o Campeonato Brasileiro precisa deixar de ser visto somente como competição esportiva doméstica e passar a funcionar como plataforma de entretenimento, mídia, tecnologia, hospitalidade, dados, turismo e propriedade intelectual. É uma mudança de mentalidade que mexe em pilares antigos do futebol nacional, acostumado ao improviso, à tabela divulgada em partes, à falta de padronização dos estádios, à variação da qualidade de transmissão e à ausência de uma governança capaz de aplicar regras com clareza.
O diagnóstico apresentado é duro, mas conhecido por quem acompanha o futebol brasileiro com alguma atenção. O Brasil tem clubes populares, rivalidades fortes, calendário cheio de jogos relevantes, torcidas gigantescas, atletas exportados todos os anos e uma cultura futebolística que poucos países no mundo conseguem reproduzir. Ainda assim, o produto econômico fica abaixo do potencial. Na comparação citada na apresentação, a Premier League arrecada cerca de 7,5 bilhões de euros por ano, enquanto o Brasileirão gira em torno de 1,8 bilhão anual. Para o Flamengo, a distância não se explica apenas pela diferença de mercado, mas pela falta de organização, governança, infraestrutura, comunicação e padronização.
Da briga por TV para a construção de produto
O ponto mais relevante da proposta é a tentativa de mudar a pergunta. Em vez de discutir apenas quanto cada clube receberá pela transmissão, o Flamengo propõe que se discuta primeiro que campeonato o Brasil pretende vender. Essa inversão é importante porque, no modelo atual, a maior parte do debate público fica presa à divisão de receitas, aos percentuais de audiência, à força das torcidas e ao conflito entre blocos. São temas relevantes, evidentemente, mas insuficientes para transformar o Brasileirão em uma liga de padrão internacional.
A leitura rubro-negra é que o dinheiro deve ser consequência de um produto mais forte, não o único ponto de partida. O Flamengo defende que uma liga real precisa organizar calendário, qualificar a transmissão, padronizar estádios, melhorar a segurança, internacionalizar a comunicação, profissionalizar a arbitragem, disciplinar finanças e estabelecer regras de governança com sanções. Sem essa combinação, o campeonato continuaria sendo uma disputa por receitas existentes, não uma máquina capaz de gerar novas fontes de valor.
Essa distinção é decisiva. Quando um clube fala apenas em divisão de direitos, a conversa rapidamente vira acusação de egoísmo, privilégio ou concentração de recursos. Quando a proposta entra no campo do produto, o debate ganha outra dimensão. O Flamengo tenta dizer que o Campeonato Brasileiro só terá mais dinheiro para repartir se antes criar uma estrutura capaz de atrair patrocinadores, audiência internacional, consumidores digitais, turistas, famílias nos estádios, plataformas de streaming, marcas globais e mercados que hoje olham pouco para o futebol brasileiro.
O documento apresentado pelo clube mira 2035 como horizonte de transformação e fala em potencial de impacto econômico agregado superior a R$ 153 bilhões. Também projeta elevar a participação econômica do futebol brasileiro de 0,72% para 1,21% do PIB nacional. São números ambiciosos, que dependem de reformas profundas e de um nível de coordenação raro no futebol do país. O ponto, porém, está menos na cifra isolada e mais no caminho sugerido: tratar o Brasileirão como ativo nacional, não apenas como calendário de jogos.
Os 10 eixos da proposta
A arquitetura do documento se organiza em 10 eixos: calendário, intensidade, público e segurança, infraestrutura, transmissão, redes sociais, marketing, talentos, governança e finanças. A ideia é que nenhuma medida isolada será suficiente para mudar o patamar do campeonato. Um calendário melhor ajuda a TV, mas não resolve o problema se o estádio for ruim. Uma transmissão moderna melhora a imagem, mas perde força se o jogo for marcado sem previsibilidade. Um marketing mais agressivo atrai público, mas não se sustenta se a governança for frágil e as finanças dos clubes continuarem descontroladas.
Dentro dessa lógica, o calendário aparece como base de tudo. O Flamengo defende uma competição com datas previsíveis, tabela antecipada, proteção de Datas Fifa e menor dependência de improvisos. Hoje, o Campeonato Brasileiro frequentemente convive com detalhamentos tardios, mudanças de horário, conflitos com competições internacionais e dificuldade de planejamento para clubes, emissoras, patrocinadores e torcedores. Em uma liga que quer ser produto premium, a previsibilidade não é luxo. É condição mínima de venda.
A transmissão surge como outro eixo central. A proposta fala em produto audiovisual único, com padrão global de sinal, identidade visual, câmeras, dados ao vivo e capacidade de distribuição internacional. Isso significa sair de um modelo em que cada exibidor imprime sua própria lógica e caminhar para uma liga com pacote visual reconhecível, sinal limpo para venda externa, grafismos padronizados, estatísticas em tempo real e linguagem compatível com o mercado global. Sem esse padrão, o Brasileirão pode até ter grandes jogos, mas continuará sendo vendido de forma fragmentada.
O estádio também deixa de ser tratado apenas como local do jogo. Na visão do Flamengo, precisa virar experiência. Isso envolve setores familiares, torcida mista, biometria, stewards, ingresso digital, Wi-Fi, iluminação, qualidade do gramado, acessibilidade, segurança e hospitalidade. O torcedor não pode ser visto somente como alguém que entra, assiste e vai embora. Ele é consumidor de uma jornada que começa antes da partida, passa pelo acesso ao estádio, pela conectividade, pelo conforto, pela alimentação, pela loja, pelo conteúdo e pela sensação de pertencimento.
Governança, sanção e fim do improviso
A proposta rubro-negra também insiste em governança com capacidade real de punição. Esse ponto é sensível porque o futebol brasileiro tem regras, mas nem sempre tem consequência. O documento fala em conselho de clubes, compliance, licenciamento financeiro, código de conduta, regulamentos claros e mecanismos para reduzir conflitos de interesse. Em outras palavras, o Flamengo defende que a liga não pode ser apenas um condomínio de clubes negociando receitas. Precisa ter estrutura administrativa, critérios técnicos e sanções aplicáveis.
Esse eixo conversa diretamente com o problema histórico da credibilidade. Um campeonato que muda regra de última hora, convive com atrasos, permite desequilíbrios financeiros sem controle e não estabelece padrões mínimos de funcionamento perde valor perante o mercado. Patrocinadores, investidores e parceiros internacionais querem previsibilidade. O torcedor também. Sem governança, qualquer projeto de liga vira arranjo político temporário.
A sustentabilidade econômica aparece na mesma linha. O Flamengo cita fair play financeiro, controle de origem de recursos, revisão tributária e proteção contra uso abusivo da recuperação judicial. O tema é delicado porque muitos clubes brasileiros convivem com dívidas gigantescas, modelos frágeis de financiamento e soluções emergenciais que, em alguns casos, distorcem a competição. Uma liga que pretende crescer precisa decidir como lidar com clubes que gastam acima da própria capacidade, atrasam compromissos ou usam brechas legais para competir em condições artificiais.
O debate financeiro, portanto, não desaparece. Ele muda de lugar. Em vez de ser apenas a discussão sobre quanto entra no caixa a partir da TV, passa a envolver como os clubes gastam, de onde vem o dinheiro, que tipo de investimento é permitido, quais riscos podem contaminar o campeonato e como impedir que a irresponsabilidade de alguns comprometa o valor coletivo da liga. Para o Flamengo, esse controle é parte da construção do produto.
TRANSMISSÃO AO VIVO COMPLETA:
Internacionalização e disputa por atenção global
O Flamengo também trata o Brasileirão como conteúdo de exportação. A proposta fala em contas multilíngues, produção para Reels e TikTok, uso de influenciadores, documentários, road shows internacionais, fantasy games, estúdios próprios e vitrines digitais de talentos. A ideia é disputar atenção em um mercado global em que o futebol brasileiro não concorre apenas com outros campeonatos, mas com streaming, games, redes sociais, entretenimento digital e consumo fragmentado.
Essa leitura é importante porque o Brasil ainda costuma vender seu futebol para fora de forma tímida. O país revela jogadores, exporta talentos e mantém prestígio histórico, mas não transforma o campeonato em narrativa internacional permanente. A Premier League não vende apenas jogos. Vende personagens, rivalidades, bastidores, identidade visual, tecnologia, distribuição global e previsibilidade. O Brasileirão, apesar de ter matéria-prima, raramente empacota sua história com o mesmo cuidado.
O Flamengo sabe disso porque já opera, em alguma medida, com essa lógica. O clube tem comunicação em outros idiomas, investe em conteúdo digital, tenta dialogar com mercados externos e entende que sua marca ultrapassa o território nacional. Ao propor que a liga adote ferramentas semelhantes, o Flamengo tenta transferir para o campeonato uma visão que já enxerga o futebol como propriedade intelectual e entretenimento multiplataforma.
A base também entra nessa estratégia. Os jovens talentos brasileiros não seriam apenas ativos para venda precoce ao exterior, mas parte de uma vitrine global mais organizada. Em um campeonato com melhor transmissão, dados, storytelling e alcance internacional, a formação poderia gerar mais valor antes da transferência. O atleta deixa de ser vendido apenas pelo potencial observado por scouts e passa a ser apresentado dentro de uma narrativa de liga, clube, performance e mercado.
O que mudaria na prática
Se a agenda avançasse, o Campeonato Brasileiro passaria a ter uma operação mais previsível. A tabela seria planejada com antecedência, as janelas ficariam mais claras, os estádios teriam padrões mínimos, a transmissão ganharia identidade própria e o torcedor encontraria uma experiência mais próxima de ligas consolidadas. O produto deixaria de depender tanto da força individual de cada clube ou da qualidade isolada de uma emissora. Passaria a ter uma lógica de competição.
A experiência de estádio também mudaria de status. Hoje, muitas vezes, ela é tratada como problema de segurança. Na proposta, vira plataforma de consumo, lazer, hospitalidade e conteúdo. Isso significa olhar para a ida ao jogo como parte essencial do produto. Um campeonato que deseja atrair famílias, turistas, marcas e transmissão internacional precisa oferecer ambiente seguro, confortável e tecnologicamente funcional.
A transmissão deixaria de ser apenas exibição do jogo e se tornaria embalagem comercial do Brasileirão. Um feed único, com identidade visual, estatísticas, câmeras padronizadas, sinal internacional e qualidade mínima nacional, ajudaria a vender o campeonato para outros mercados. Sem isso, cada partida continuará parecendo pertencer a um produto diferente, sem unidade estética e comercial.
A comunicação da competição também passaria a operar em lógica internacional e multiplataforma. Bastidores, vídeos curtos, storytelling, contas em inglês e espanhol, documentários e conteúdos digitais criariam escala fora do Brasil. Não basta ter bons jogos. É preciso contar bem a história desses jogos, dos clubes, dos atletas e das rivalidades.
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Uma proposta ambiciosa em um ambiente resistente
O Flamengo coloca uma agenda ampla sobre a mesa, mas sabe que o futebol brasileiro resiste a reformas estruturais. A criação de uma liga envolve interesses divergentes, clubes com tamanhos diferentes, disputas políticas, contratos vigentes, blocos comerciais, relação com a CBF, divergências sobre divisão de receitas e medo de perda de poder. É por isso que a proposta rubro-negra tende a ser recebida com desconfiança por parte dos rivais, principalmente quando vem acompanhada da defesa de garantias comerciais ao clube que mais gera audiência e receita.
Ainda assim, o documento tem mérito ao colocar o debate em outro patamar. O Flamengo pode ser criticado por defender seus próprios interesses, e naturalmente faz isso, mas a proposta não se resume a uma reivindicação por mais dinheiro. Há uma tentativa de discutir calendário, estádio, transmissão, governança, comunicação, finanças e internacionalização. Quem discorda da posição rubro-negra precisa enfrentar também esses pontos, não apenas repetir que o clube quer ganhar mais.
O risco do debate público é reduzir tudo à caricatura. De um lado, o Flamengo egoísta, interessado apenas em ficar com a maior fatia. Do outro, os demais clubes como vítimas de uma potência econômica. Essa leitura pode render barulho, mas não resolve o problema central: o futebol brasileiro é submonetizado, desorganizado e ainda não transformou sua paixão em produto global. A proposta do Flamengo, mesmo passível de críticas, obriga a discussão a encarar essa realidade.
O país precisa decidir se quer uma liga apenas para repartir receitas ou para construir valor. A diferença entre uma coisa e outra é enorme. Repartir receita é olhar para o dinheiro que já existe. Construir valor é organizar um campeonato capaz de gerar mais dinheiro, mais audiência, mais interesse, mais segurança, mais previsibilidade e mais relevância internacional. O Flamengo apresentou seu roteiro. Agora, a pergunta é se o futebol brasileiro tem maturidade para discutir o produto antes de brigar pela divisão do caixa.
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