Flamengo é condenado a pagar R$ 580 mil e pensão a ex-segurança do Ninho

A Justiça do Trabalho do Rio de Janeiro manteve a condenação do Flamengo em ação movida por Benedito Ferreira, ex-segurança do clube que participou do resgate de jovens durante o incêndio no Ninho do Urubu, em 8 de fevereiro de 2019. A decisão da Terceira Turma do Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região prevê o pagamento de aproximadamente R$ 580 mil em indenizações, além de uma pensão mensal calculada com base no salário que ele recebia. O último recurso apresentado pelo Rubro-Negro no tribunal foi rejeitado em 4 de novembro, após mais de quatro anos de disputa judicial. O caso expõe a dimensão das consequências enfrentadas por um trabalhador que esteve diretamente envolvido na tragédia e levanta questionamentos sobre a postura do clube diante de alguém que também sofreu os efeitos daquele dia.
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Benedito trabalhava no Flamengo desde 2008 e estava de serviço no centro de treinamento quando o incêndio atingiu o alojamento das categorias de base. Naquela madrugada, dez adolescentes morreram. O segurança participou do resgate de vítimas, retirando pelo menos três jovens do local. A atuação naquele momento, porém, teve consequências profundas para sua saúde, reconhecidas posteriormente por perícia médica no processo trabalhista.
Adoecimento reconhecido pela Justiça
A ação questionou, entre outros pontos, a maneira como o Flamengo tratou o afastamento de Benedito após o incêndio. Segundo a reclamação apresentada pelo ex-funcionário, o clube não relacionou sua ausência do trabalho junto ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) ao trauma vivido durante o resgate. O processo também envolveu questões trabalhistas e previdenciárias, em meio à deterioração de seu estado de saúde.
O laudo pericial identificou transtorno depressivo, transtorno de adaptação e transtorno de pânico, com agravamento do quadro e presença de ideação suicida. O perito estabeleceu nexo causal ou concausal entre as doenças diagnosticadas e o trabalho exercido no Flamengo. Também apontou que Benedito estava inapto para retornar à função de segurança ou a atividades semelhantes, evidenciando a perda de capacidade profissional para o trabalho que desempenhava.
A situação ganhou outro contorno com a demissão do funcionário, em 2022, enquanto ele ainda estava em tratamento médico. Na avaliação do juiz responsável pela sentença, a dispensa foi um ato ilícito, uma vez que o clube tinha conhecimento das condições de saúde do trabalhador. Desde então, Benedito precisou recorrer à Justiça para buscar o reconhecimento de seus direitos e a reparação pelos danos sofridos.
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Flamengo recorreu, mas condenação foi mantida
A primeira sentença favorável a Benedito saiu em julho de 2025. Na ocasião, o Flamengo foi condenado a pagar R$ 100 mil por danos morais e R$ 500 mil por danos materiais, além de conceder pensão mensal até que o ex-segurança completasse 78 anos. O juiz também determinou sua reintegração ao quadro de funcionários em até cinco dias, sob pena de multa. O clube recorreu da decisão.
No julgamento em segunda instância, a Terceira Turma do TRT-1 decidiu por unanimidade aumentar a indenização por danos morais de R$ 100 mil para R$ 150 mil. Houve, entretanto, uma alteração favorável ao Flamengo: os desembargadores restringiram o cálculo da pensão ao salário-base mensal recebido por Benedito. A condenação passou a incluir aproximadamente R$ 430 mil em indenização, além dos R$ 150 mil por danos morais. O valor considera o desconto de R$ 20 mil pagos anteriormente pelo clube em um acordo extrajudicial posteriormente anulado pela Justiça. Há ainda cerca de R$ 8,6 mil em custas processuais.
Mesmo depois desse julgamento, o Flamengo apresentou um agravo interno, rejeitado pelos desembargadores em 4 de novembro. A decisão mantém a condenação estabelecida pelo tribunal. É necessário, contudo, ter cuidado com a expressão “última instância”: o que foi noticiado pelo ge é a rejeição desse recurso no TRT-1, não uma confirmação de que todas as possibilidades de questionamento judicial estejam necessariamente encerradas.
O clube teve o direito de recorrer, como qualquer parte em um processo. Mas a legitimidade formal de uma medida jurídica não impede uma avaliação crítica sobre sua pertinência. Diante de um trabalhador que participou do resgate de vítimas, desenvolveu problemas de saúde reconhecidos por perícia e foi demitido enquanto estava em tratamento, a insistência em contestar a condenação causa desconforto. O Flamengo poderia ter escolhido uma postura menos conflituosa com alguém que também carregou as consequências daquela madrugada.
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Uma tragédia que não pode ser tratada como rivalidade
O caso de Benedito mostra que as marcas do incêndio não ficaram restritas às famílias dos dez jovens que morreram ou aos sobreviventes. Os profissionais que trabalhavam no Ninho do Urubu também foram atingidos por uma experiência traumática. O reconhecimento judicial do adoecimento do ex-segurança reforça que a responsabilidade de um clube não termina quando as equipes deixam o campo ou quando uma tragédia sai do noticiário.
A dimensão humana do episódio foi demonstrada em diferentes manifestações de solidariedade. Uma das mais marcantes veio do Vasco, que colocou uma bandeira do Flamengo em sua camisa como homenagem às vítimas, aos sobreviventes e aos familiares. Foi um gesto que ultrapassou a rivalidade e reconheceu que a perda daqueles adolescentes não pertencia apenas à torcida rubro-negra.
Por isso, causa indignação quando a tragédia é utilizada como provocação em discussões ou disputas entre torcedores. Transformar a morte dos jovens em instrumento de rivalidade desrespeita as famílias, os sobreviventes e todos aqueles que ainda convivem com as consequências do incêndio. Benedito também faz parte dessa história e teve seu sofrimento reconhecido pela Justiça.
A vitória judicial não apaga o que aconteceu, nem resolve automaticamente os problemas de saúde enfrentados pelo ex-segurança. Representa, porém, o reconhecimento de que o trabalho exercido no Flamengo teve relação com seu adoecimento e de que a forma como o clube conduziu sua situação profissional foi considerada irregular. Depois de anos de processos, Benedito conseguiu uma resposta favorável. O mínimo que se espera agora é que possa seguir seu tratamento com dignidade, sem precisar continuar lutando para ter reconhecidos direitos que deveriam ter sido respeitados desde o início.
VIDEO-DOCUMENTÁRIO: O NINHO DO URUBU: DO TERRENO AO LUXO E À TRAGÉDIA I Canal Ser Flamengo
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