O Flamengo iniciou a temporada de 2026 promovendo uma das mais profundas reestruturações de sua base nos últimos anos. A decisão, revelada em detalhes por reportagem do GE e confirmada por dirigentes do clube, marca uma mudança clara de filosofia: menos atletas, menos obsessão por títulos imediatos e foco absoluto na formação técnica, no desenvolvimento humano e na criação de jogadores capazes de alimentar o time profissional e gerar retorno esportivo e financeiro.
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A transformação ocorre no Ninho do Urubu, sob coordenação do diretor técnico José Boto e execução direta de Alfredo Almeida, responsável exclusivo pelas categorias de base. O plano rompe com práticas adotadas recentemente e se inspira em modelos europeus, especialmente o do Barcelona, priorizando talento, leitura de jogo e liberdade criativa desde as primeiras categorias.
Mudança de filosofia e novo critério de sucesso
A principal inflexão está no modo como o Flamengo passa a medir o sucesso da base. Até aqui, conquistas em torneios de base funcionavam como termômetro de eficiência. Agora, o clube admite que títulos não são mais prioridade nos ciclos de 2026 e 2027. O parâmetro passa a ser outro: quantos atletas chegam preparados ao time principal e quantos se transformam em ativos valorizados no mercado.
Apesar de resultados expressivos nos últimos anos, como o bicampeonato da Libertadores Sub-20, a diretoria reconhece que o impacto esportivo dessas gerações no elenco profissional foi limitado desde a saída de Vinícius Júnior, em 2018. Entre esse período e hoje, poucos nomes conseguiram se firmar ou gerar receitas relevantes, como João Gomes e, em menor escala, Éverton Araújo.
Esse diagnóstico levou o clube a assumir que a busca por títulos nas categorias inferiores pode, inclusive, mascarar falhas estruturais no processo formativo.
Menos físico, mais futebol
Outro eixo central da reestruturação é a inversão de prioridades no perfil dos atletas. O Flamengo passa a privilegiar o fator técnico em detrimento do físico, algo que dialoga diretamente com a crítica feita por dirigentes à padronização do futebol moderno, cada vez mais voltado para força, estatura e intensidade.
A ideia é resgatar fundamentos historicamente associados ao futebol brasileiro, permitindo que jovens errem, tentem jogadas e desenvolvam criatividade sem amarras táticas precoces. José Boto resume essa visão ao defender que força e disciplina podem ser ensinadas mais tarde, enquanto talento é mais raro e difícil de formar.
Em apresentação interna, o presidente Bap foi direto ao tratar do tema: o clube vinha priorizando atletas grandes e fortes em idades muito jovens, o que garantia vitórias imediatas, mas não necessariamente jogadores prontos para o alto nível quando o físico deixava de ser diferencial.
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Enxugamento drástico e nova estrutura
A mudança de conceito veio acompanhada de medidas práticas. O Flamengo reduziu o número de atletas da base de cerca de 400 para aproximadamente 250. O objetivo é simples: permitir acompanhamento individual mais qualificado e concentrar recursos em quem realmente apresenta potencial de evolução.
A nova estrutura também separa funções. Alfredo Almeida assume o comando exclusivo da base, enquanto José Boto se dedica ao futebol profissional. A coordenação foi dividida entre Kadu Borges, responsável do sub-14 ao sub-20, e Danilo Mattos, à frente das categorias iniciais.
Além disso, o clube passou a adotar um modelo inédito de valorização dos profissionais da base. Técnicos e colaboradores agora recebem um percentual sobre o saldo financeiro gerado por atletas que ajudaram a formar ou identificar. A lógica é criar pertencimento e evitar a evasão de talentos internos, algo comum no mercado brasileiro.
Investimento seletivo e novas parcerias
A política de captação também foi ajustada. O Flamengo passa a focar contratações pontuais de atletas entre 15 e 17 anos, com investimentos considerados baixos internamente, na faixa de até R$ 2 milhões por jogador. O raciocínio é financeiro e esportivo: basta que um desses jovens “estoure” para compensar todo o aporte realizado.
Esse modelo já é aplicado com sucesso por clubes como o Palmeiras e passa a orientar o Flamengo nos próximos ciclos. Para ampliar o alcance do scout, o clube firmou novas parcerias com equipes formadoras como Inter de Minas e Tolentino Esportes, da Bahia, que se somam a alianças antigas, como o CEWG, de Goiás, e o Clube Trieste, tradicional parceiro do rubro-negro e já citado pela imprensa europeia como um dos “segredos” da formação na Gávea.
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Orçamento recorde e visão de longo prazo
Durante reunião que marcou o início oficial da temporada da base, realizada na Gávea, a diretoria deixou claro que a mudança de filosofia não significa redução de investimento. Pelo contrário. Segundo o vice-presidente Fábio Palmer, a base terá em 2026 o maior orçamento de sua história.
“O maior legado dessa gestão não é no futebol profissional, é na base. Ganhar é importante, mas formar é mais”, afirmou Palmer, reforçando que o clube assume uma visão de médio e longo prazo, mesmo reconhecendo que o processo pode gerar um período de menor visibilidade esportiva.
A fala ecoa o próprio discurso de Bap, que já havia antecipado uma “fase de seca” em termos de resultados, apostando todas as fichas em jovens hoje com 15 e 16 anos, pensando no retorno esportivo a partir de 2027.
Um risco calculado
A reestruturação da base do Flamengo não é conservadora nem imediatista. Ao admitir abrir mão de títulos e reduzir drasticamente o número de atletas, o clube assume riscos claros. Em contrapartida, tenta corrigir distorções acumuladas ao longo dos últimos anos e retomar uma vocação que foi essencial para o crescimento financeiro e esportivo da década passada.
Se dará certo, só o tempo dirá. O que já está claro é que o Flamengo decidiu mudar o jogo na base, mesmo sabendo que o placar, por um período, pode não refletir a ambição do projeto.
Reestruturação da base do Flamengo: o plano que muda a formação de jogadores no clube
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