Flamengo TV é apontada como referência pelo YouTube Brasil

Flamengo TV é apontada como referência pelo YouTube Brasil
Foto: Paula Reis/Flamengo

Flamengo TV foi apontada por Victor Machado, responsável pelas parcerias de TV, filmes e esportes do YouTube Brasil, como um dos principais exemplos do mercado quando o assunto é a estruturação de conteúdo esportivo para clubes. Em entrevista ao MKT Esportivo, Machado destacou a maneira como o Rubro-Negro vem organizando uma grade própria e defendeu que as emissoras das agremiações deixem de ser encaradas apenas como ferramentas institucionais para assumir também uma função comercial.


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A declaração ganha relevância em um momento em que o YouTube deixou de ser apenas um espaço complementar à televisão tradicional e passou a ocupar posição cada vez mais importante no consumo de esporte no Brasil. O próprio Machado tem participado da construção dessa estratégia desde 2019 e, nos últimos anos, passou a defender um modelo em que diferentes plataformas, formatos e produtos convivem dentro da jornada do torcedor.

Flamengo TV como referência

Questionado sobre clubes que trabalham bem seus produtos digitais, Machado citou Flamengo e Corinthians pelo tamanho das torcidas, mas destacou especificamente a Flamengo TV como exemplo de estruturação. Para ele, o ponto central está em enxergar o YouTube não apenas como uma janela de distribuição, mas como uma oportunidade comercial.

A lógica proposta pelo executivo amplia o conceito de “TV do clube”. Um mesmo conteúdo precisa ser pensado desde a produção para diferentes formatos: vídeo longo, corte curto, material horizontal, versão vertical e adaptações para plataformas como Instagram e TikTok. Em vez de produzir uma entrevista ou um bastidor para um único destino, a ideia é construir um conteúdo capaz de circular por diferentes ambientes digitais.

Esse movimento acompanha uma transformação maior no próprio YouTube. A plataforma brasileira passou a tratar o esporte como um ecossistema que envolve transmissões ao vivo, vídeos longos, Shorts, creators, publicidade e consumo em diferentes telas. Em 2026, a empresa chegou a destacar o crescimento do consumo esportivo nas TVs conectadas e a consolidação do país como referência interna para modelos de distribuição esportiva.

De centro de custo a unidade de negócio

Um dos pontos mais diretos apresentados por Machado foi a necessidade de mudar a maneira como os clubes enxergam suas próprias estruturas de conteúdo. Segundo ele, a televisão oficial não deveria ser tratada simplesmente como uma despesa necessária para manter a comunicação com o torcedor.

A proposta é transformá-la em uma unidade de negócio. Isso significa estabelecer metas comerciais, criar produtos para patrocinadores e aproveitar a audiência gerada pelos conteúdos para construir novas receitas. O AdSense do YouTube é apenas uma parte possível dessa equação. O potencial maior estaria na capacidade de integrar a produção audiovisual aos pacotes comerciais negociados pelo clube.

A mudança exige, portanto, uma aproximação maior entre conteúdo e departamento comercial. Se um clube consegue manter milhares ou milhões de torcedores consumindo vídeos regularmente, essa atenção também passa a ter valor para marcas. A audiência deixa de ser apenas um indicador de desempenho editorial e pode se tornar parte de uma propriedade comercial.

É uma discussão que vai além do Flamengo. O crescimento das transmissões esportivas digitais no Brasil criou um mercado no qual plataformas, clubes, ligas, anunciantes e produtores precisam pensar conjuntamente em distribuição e monetização. O YouTube, por exemplo, vem trabalhando justamente com a ideia de complementaridade entre diferentes meios, em vez de enxergar necessariamente uma disputa simples entre internet e televisão.

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O resultado do jogo não pode decidir toda a programação

Outro ponto levantado na entrevista foi a dependência que os conteúdos oficiais ainda mantêm em relação ao desempenho da equipe em campo. Uma vitória costuma ampliar o interesse do torcedor, enquanto uma derrota pode reduzir a audiência de determinados formatos. Para Machado, entretanto, essa relação não deveria determinar toda a estratégia editorial.

A referência utilizada é o entretenimento esportivo produzido em outros mercados. Em algumas ligas, jogadores participam de desafios, brincadeiras, entrevistas descontraídas e formatos que não dependem diretamente do resultado da partida. O objetivo é criar motivos para o torcedor acompanhar o clube também nos dias em que não há jogo ou quando o desempenho dentro de campo não é positivo.

No caso do Flamengo, isso abre espaço para uma grade mais diversificada. O clube já possui conteúdos de bastidores, notícias, transmissões e programas ligados ao cotidiano da equipe. A ampliação poderia passar por desafios entre atletas, encontros entre jogadores de diferentes modalidades, participação de ídolos e conteúdos capazes de explorar personagens do universo rubro-negro sem depender necessariamente de uma partida.

A própria estrutura do clube oferece possibilidades. Um atleta do futebol poderia conversar com uma jogadora do futebol feminino, um nome de outra modalidade poderia visitar o centro de treinamento ou jogadores poderiam participar de formatos pensados especificamente para entretenimento. A lógica é ampliar o universo de histórias disponíveis para o torcedor.

Uma grade que não muda conforme a tabela

O desafio, nesse modelo, é criar hábito. Se um programa está previsto para determinado dia, sua publicação não deveria desaparecer porque o Flamengo perdeu no fim de semana. O resultado pode influenciar a repercussão, mas não necessariamente precisa determinar a existência do conteúdo.

Essa mudança é cultural. O torcedor brasileiro ainda está muito acostumado a associar a comunicação esportiva ao desempenho da equipe. Uma grade mais próxima da lógica televisiva tradicional exige previsibilidade: programas recorrentes, formatos reconhecíveis e conteúdos que continuem sendo produzidos independentemente da classificação no campeonato.

Também existe uma questão específica de cada plataforma. Nem tudo precisa ser publicado da mesma maneira em todos os lugares. Um vídeo pode funcionar no YouTube e não ter o mesmo desempenho no X; um corte pode ser adequado para Instagram; outro formato pode encontrar melhor espaço no TikTok. A estratégia, portanto, não é simplesmente replicar o mesmo material, mas entender a linguagem de cada ambiente.

A experiência do YouTube com o esporte reforça essa tendência. A plataforma vem ampliando sua presença nas transmissões e no conteúdo esportivo ao mesmo tempo em que trabalha com diferentes formas de descoberta e consumo. Em 2026, a Copa do Mundo aparece como um dos principais exemplos dessa transformação, com o YouTube se posicionando como destino gratuito para os 104 jogos no Brasil.

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O elogio também traz uma cobrança

A avaliação de Victor Machado coloca a Flamengo TV em uma posição interessante. Ser citada como referência por um executivo responsável justamente pela estratégia de conteúdo e parcerias do YouTube Brasil representa reconhecimento da estrutura construída pelo clube. Ao mesmo tempo, o próprio raciocínio apresentado na entrevista mostra que ainda existe espaço para avançar.

O próximo passo não seria simplesmente produzir mais vídeos, mas construir uma grade capaz de gerar audiência recorrente e transformar essa atenção em valor comercial. Isso envolve integração entre jornalismo, entretenimento, produção audiovisual, marketing e vendas, sem fazer com que uma área trabalhe isoladamente da outra.

Para o Flamengo, a discussão passa por uma pergunta simples: quanto do potencial de uma torcida gigantesca pode ser convertido em uma audiência que acompanha o clube todos os dias, e não apenas quando há jogo? A resposta não depende somente do número de inscritos ou das visualizações de uma publicação. Envolve frequência, variedade, identidade e capacidade de criar produtos que tenham valor para o público e para os parceiros comerciais.

A Flamengo TV já aparece, aos olhos de quem trabalha diretamente com o mercado do YouTube, como um exemplo de estrutura. O desafio seguinte é fazer com que essa referência seja acompanhada por uma programação cada vez mais ampla, previsível e comercialmente sustentável, capaz de manter o torcedor conectado ao clube mesmo quando a bola não está rolando.

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