O Flamengo voltou ao centro de um debate que atravessa fronteiras, atravessa redações e expõe mais sobre quem acusa do que sobre o clube acusado. Nos últimos dias, declarações do jornalista brasileiro Júlio Gomes e do inglês Tim Vickery ajudaram a consolidar uma narrativa já conhecida: a de que o Flamengo seria o “vilão” do futebol brasileiro e sul-americano por se organizar, arrecadar mais e competir em outro patamar.
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O debate ganhou força em meio às negociações avançadas por Lucas Paquetá, à discussão sobre a distribuição de direitos de transmissão e à velha resistência a aceitar que o futebol mudou. O que se vê, porém, não é uma análise estrutural do problema, mas uma tentativa recorrente de transformar competência em ameaça.
A romantização do caos
Júlio Gomes foi direto ao ponto ao afirmar que o futebol brasileiro era mais competitivo quando era mais bagunçado. A frase, que circulou amplamente, carrega uma lógica perigosa: a de que o caos é virtuoso porque nivela todos por baixo. Nessa leitura, organização deixa de ser mérito e passa a ser um problema.
O futebol brasileiro dos anos 70, 80 e 90, tantas vezes citado como exemplo de equilíbrio, era também um ambiente de salários atrasados, dívidas impagáveis, viradas de mesa frequentes e clubes estruturalmente quebrados. Qualquer time podia ganhar não porque todos eram bons, mas porque todos conviviam com o improviso. A aleatoriedade substituía o planejamento.
Defender esse modelo como ideal é admitir que a incompetência precisa ser protegida para que o jogo siga “emocionante”. É uma lógica semelhante à de confundir justiça com miséria compartilhada.
Tim Vickery e o “Bond villain” tropical
Do outro lado do Atlântico, Tim Vickery classificou o Flamengo como um “Bond villain”, um vilão ambicioso disposto a dominar o futebol sul-americano. O argumento central foi a desigualdade financeira, especialmente na distribuição dos direitos de TV.
O dado citado é real: o Flamengo recebe mais do que outros clubes. A interpretação, porém, ignora o essencial. Pelo modelo da Libra, 40% da receita é distribuída de forma igualitária, 30% por desempenho esportivo e 30% por audiência. O Flamengo recebe mais porque entrega mais audiência e resultados. Isso não é distorção, é mercado.
Mais do que isso: segundo a Deloitte Football Money League, apenas 29% da receita rubro-negra vem da televisão. O restante nasce de patrocínios, matchday, produtos licenciados e exploração comercial da marca. Mesmo com uma divisão de TV completamente igualitária, o Flamengo seguiria à frente. A desigualdade não é causa, é consequência da gestão.
Quando a organização vira pecado
Há uma contradição evidente no discurso dos críticos. Os mesmos que dizem que o Flamengo “quebra o mercado” são os que afirmam que Paquetá é caro demais. As duas coisas não coexistem. Ou o clube está inflacionando o sistema, ou está pagando caro demais por um jogador. Quando a narrativa vem antes dos dados, a análise morre.
O que se tenta punir, no fundo, é a organização. A fala de Júlio Gomes deixa isso explícito: na bagunça, quem tem menos estrutura tem mais chance. Na ordem, quem trabalha melhor vence. Transformar isso em problema diz muito sobre o nível do debate.
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Por que o Flamengo virou vilão agora?
Esse tipo de vilanização não acompanhou outros ciclos de hegemonia no futebol brasileiro. O São Paulo tricampeão brasileiro, campeão da Libertadores e do mundo, era tratado como exemplo. O Corinthians pós-2010 foi celebrado. O Palmeiras de Paulo Nobre virou modelo de reconstrução. Nenhum deles foi colocado como ameaça ao esporte.
Com o Flamengo, a lógica se inverteu. A boa gestão passou a ser vista como algo a ser contido, não replicado. Em vez de perguntar por que Vasco, Corinthians ou São Paulo não conseguem se organizar, parte da imprensa prefere discutir mecanismos para frear quem fez o dever de casa.
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O incômodo real
O incômodo não é com o Flamengo. É com a exposição das falhas alheias. Um clube organizado, em meio ao amadorismo, escancara erros históricos de gestão, escolhas políticas desastrosas e décadas de improviso. É mais confortável chamar isso de vilania do que assumir responsabilidades.
O Flamengo não destrói a competitividade. Ele evidencia quem abriu mão dela ao longo do tempo. Transformá-lo em vilão é o atalho retórico de quem não quer discutir o problema de verdade.
ABSURDO! Júlio Gomes diz que organização beneficia Flamengo e defende a volta da bagunça no futebol
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