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Homenagem a Silva Batuta

Homenagem a Silva Batuta

Foto: Divulgação/Canal Ser Flamengo

Há ex-jogadores que ficam na memória. Há outros que permanecem no clube de um modo mais raro, quase orgânico, como se a história não tivesse aceitado rompê-los do lugar onde ajudaram a construir algo. Valter Machado da Silva, o Silva Batuta, pertence a esse segundo grupo. A homenagem prestada pelo Blog Ser Flamengo ao ex-atacante não foi apenas um gesto de reverência a um ídolo do passado. Foi também um reconhecimento a uma figura que continua ligada ao cotidiano rubro-negro, décadas depois de ter feito do gol sua linguagem mais eloquente.

A entrega da placa, conduzida por Tulio Rodrigues e Gilson Lima, partiu de uma ideia simples e poderosa, agradecer. A simplicidade, nesse caso, não diminui o gesto. Pelo contrário. Dá a ele o tom certo. Porque falar de Silva exige menos pirotecnia e mais memória. Exige voltar a um tempo em que o atacante paulista, revelado nas categorias de base do São Paulo, chegou ao Flamengo para deixar uma marca profunda em pouco tempo de campo e, depois, em muito tempo de convivência com o clube.

Silva teve duas passagens pelo Flamengo. A primeira começou em 1965, ano em que logo conquistou o Campeonato Carioca e terminou a temporada como artilheiro. Em 1966, repetiu o protagonismo ofensivo. Não era apenas um centroavante de números generosos, embora os números sejam fortes por si. Era um jogador de presença, técnica e imposição, desses que se faziam notar tanto pelo que concluíam quanto pelo modo como ocupavam o jogo. Naquele período, o Flamengo encontrava em Silva uma referência ofensiva clara, um atacante com repertório para decidir e com peso para sustentar o setor mais sensível do time.

Depois dessa primeira etapa, veio a ida para o Barcelona. O movimento, por si só, já ajudaria a medir a dimensão do jogador. Em seguida, passou pelo Santos e retornou ao Flamengo em 1968. Mais uma vez, foi artilheiro da temporada. Ficou até 1969, quando partiu para o Racing, da Argentina, onde alcançou outro patamar de identificação e se tornou, ali também, um nome de grande reverência. Poucos atacantes conseguem construir vínculos tão fortes em praças tão distintas. Menos ainda conseguem fazê-lo sem que uma história apague a outra. Silva conseguiu.

No Flamengo, seu saldo foi de 132 jogos e 70 gols. O número, por si, já o coloca em posição de destaque. Mas a leitura fria das estatísticas não dá conta de tudo. Seu currículo rubro-negro inclui, além do Carioca de 1965, conquistas como o Torneio Triangular Gilberto Alves, em Goiás, o Torneio Quadrangular de Vitória, no Espírito Santo, o Quadrangular do Equador, o Troféu Mohamed V, no Marrocos, e o Troféu Restelo, em Portugal. Em um futebol menos globalizado na forma e, ao mesmo tempo, intensamente internacional na circulação de excursões e torneios, esses títulos também ajudavam a consolidar prestígio e presença. Silva estava ali, no centro disso tudo.

Um atacante de seu tempo, mas maior do que ele

É importante situar Silva no contexto de sua geração. O futebol dos anos 60 tinha outro ritmo, outra marcação, outro desenho físico e outra lógica de calendário. Havia menos proteção ao jogador, mais contato, gramados mais pesados, viagens mais duras e um jogo em muitos aspectos mais cru. Sob esse ambiente, construir uma carreira sólida já era difícil. Construir carreira de relevo em clubes grandes, no Brasil e fora dele, era ainda mais raro.

Silva foi convocado para a Copa do Mundo de 1966 e chegou a atuar ao lado de Pelé. Esse detalhe, que poderia parecer apenas uma curiosidade de currículo, ajuda a dimensionar sua estatura. Não se tratava de um atacante importante apenas no circuito doméstico. Era um nome reconhecido no futebol mundial, alguém cuja trajetória ultrapassava o escopo regional e dialogava com o mais alto nível da época.

Ainda assim, talvez um dos aspectos mais nobres de sua biografia esteja no pós-carreira. Depois de pendurar as chuteiras, Silva não se afastou do Flamengo. Atuou como olheiro e, mais tarde, passou a trabalhar na parte social do clube, onde segue até hoje. Esse dado muda o tom de qualquer homenagem. Não se está falando somente de um ídolo que brilhou e foi embora. Fala-se de alguém que continuou servindo ao Flamengo em outras frentes, silenciosas, menos visíveis, menos celebradas, mas igualmente valiosas.

A homenagem e o sentido de continuidade

Foi nesse contexto que o Blog Ser Flamengo decidiu homenageá-lo. A placa entregue a Silva trazia uma mensagem direta, de gratidão e reconhecimento por seu amor e dedicação ao Clube de Regatas do Flamengo. Não havia ali a pretensão de encerrar sua importância em metal gravado. Havia, isso sim, a consciência de que certos nomes não podem ser deixados à margem do tempo.

O gesto tem peso também porque parte de uma iniciativa independente, movida por memória e identidade. Em um ambiente em que a velocidade das redes frequentemente empurra o passado para o esquecimento, parar para homenagear um ex-jogador como Silva é também um ato de resistência cultural. É dizer que a história do Flamengo não é feita só dos grandes ciclos mais lembrados, nem apenas dos ídolos mais midiáticos. Ela também é sustentada por figuras que atravessaram décadas, mantiveram vínculos e ajudaram a dar espessura humana à instituição.

Tulio Rodrigues e Gilson Lima, ao representarem o Blog Ser Flamengo nesse encontro, colocaram em prática uma ideia que deveria ser mais comum entre clubes e torcidas, a de que ídolos não podem ser convocados apenas em datas redondas ou vídeos comemorativos. Eles precisam ser lembrados em vida, com presença, escuta e afeto.

O Flamengo que permanece nas pessoas

O caso de Silva também ajuda a compreender uma dimensão muito própria do Flamengo. O clube tem a força das multidões, a escala das grandes audiências, o impacto das conquistas e da mobilização nacional. Mas sua grandeza não se sustenta apenas nisso. Sustenta-se também na permanência de figuras que continuam orbitando a Gávea, o clube social, os bastidores, os corredores e a rotina.

Silva é um desses personagens que ligam tempos diferentes do Flamengo. O Flamengo de 1965, campeão carioca. O de 1966, ainda forte em torno de seu faro de gol. O de 1968, que o recebe de volta e novamente encontra nele sua principal referência ofensiva. E o Flamengo posterior, já transformado por outras eras, mas ainda capaz de abrigá-lo em sua estrutura, como se reconhecesse ali uma parte viva de si mesmo.

Isso dá à homenagem um valor adicional. Ela não reverencia um retrato congelado. Reverencia uma presença contínua. A placa, nesse sentido, funciona menos como monumento e mais como confirmação. Confirma que o nome de Silva Batuta não está preso a arquivos, súmulas ou coleções. Está também no cotidiano do clube.

Um tributo justo, ainda que pequeno diante do legado

Toda homenagem a um jogador dessa dimensão corre o risco de parecer insuficiente. E talvez seja mesmo. Não por falha de quem homenageia, mas porque a biografia ultrapassa qualquer gesto isolado. Ainda assim, há um mérito claro nessa tentativa. Reconhecer, registrar, agradecer.

O futebol brasileiro, em geral, convive mal com sua própria memória. Exalta pouco, preserva mal e, não raro, esquece depressa. Quando alguém se dispõe a interromper a correria do presente para olhar para um nome como Silva, o mínimo que se pode dizer é que há ali uma compreensão correta do que significa amar um clube. Amar um clube também é cuidar dos seus rastros.

Silva Batuta fez gols, ganhou títulos, vestiu a camisa do Flamengo em duas passagens importantes, jogou Copa do Mundo, atuou ao lado de Pelé, brilhou também fora do Brasil e, ao fim de tudo isso, continuou no clube. Poucos podem dizer o mesmo. Menos ainda com a naturalidade e a dignidade de quem nunca precisou forçar a própria grandeza.

A homenagem do Blog Ser Flamengo, nesse cenário, não é apenas justa. É necessária. Porque certos nomes não devem voltar à pauta apenas como lembrança. Devem voltar como presença, como legado e como parte inseparável daquilo que o Flamengo foi e ainda é.

Seu Silva, o eterno Batuta. Obrigado!

Entrevista feita por Gilson Lima (@GilsonFlaLimae Tulio Rodrigues (@PoetaTulio)
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