Jornalista erra no caso Paquetá e expõe falta de conhecimento jurídico ao vivo; advogado rebate
A confirmação da contratação de Lucas Paquetá pelo Flamengo, tema central do debate esportivo da semana, acabou sendo atravessada por uma discussão que diz menos sobre futebol e mais sobre a forma como conceitos jurídicos básicos são tratados na televisão. O episódio ocorreu no programa De Primeira, quando a jornalista Fabíola Andrade afirmou, de maneira categórica, que Paquetá “não é inocente”, gerando uma sequência de correções, contrapontos e, sobretudo, confusão conceitual diante do público.
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A fala surgiu no contexto da análise do desfecho da sua contratação. Segundo a jornalista, não haveria como afirmar que Paquetá foi inocentado, mas apenas que não existiam provas suficientes para incriminá-lo. Em seguida, tentou-se sustentar que essa ausência de provas não equivaleria a uma absolvição plena. A discussão avançou sem rigor técnico, misturando percepções pessoais com conceitos jurídicos objetivos, o que acabou criando uma narrativa tortuosa sobre um tema que exige precisão.
No Direito, especialmente no campo penal, a lógica não comporta atalhos retóricos. Se alguém é acusado, processado e o processo é encerrado sem condenação por insuficiência de provas, não há meio-termo conceitual. O ônus da prova pertence a quem acusa. Sem prova válida, não há crime reconhecido, não há culpa estabelecida e não há débito com a Justiça. O nome disso é absolvição, sustentada pelo princípio da presunção de inocência, um dos pilares do Estado de Direito.
Onde a análise falha
O ponto crítico da fala não está em uma opinião esportiva ou em uma avaliação subjetiva sobre o jogador, mas na tentativa de reinterpretar conceitos jurídicos consolidados a partir de impressões pessoais. Ao sugerir que alguém pode ser “inocente, mas não absolvido”, cria-se uma categoria inexistente no ordenamento jurídico, que apenas alimenta desinformação.
Processos não terminam em um limbo semântico. Ou há condenação, ou há absolvição. A absolvição pode ocorrer por diferentes fundamentos, entre eles a inexistência de provas suficientes para sustentar a acusação. Isso não fragiliza a inocência do acusado, ao contrário: a reafirma.
Especialistas da área jurídica são unânimes ao tratar desse ponto. O advogado Rodrigo Rollemberg foi direto ao afirmar que Paquetá foi absolvido, justamente porque respondeu a uma acusação formal e não houve prova capaz de sustentar uma condenação. A lógica é simples, mas parece cada vez mais ignorada no debate midiático.
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A repetição de um roteiro conhecido
O episódio não é isolado nem casual. Há um padrão recorrente quando determinados personagens retornam ao centro do noticiário esportivo, especialmente ligados ao Flamengo. A tentativa de relativizar decisões formais, lançar dúvidas onde não existem e manter uma sombra permanente de suspeição tornou-se quase automática.
Paquetá, até pouco tempo atrás, era alvo de interesse de clubes como Manchester City, Chelsea e Tottenham, com cifras que chegaram a ser estimadas em cerca de 90 milhões de libras. Disputou Copa do Mundo, manteve protagonismo na Premier League e, subitamente, após resolver sua situação jurídica e querer voltar para o Flamengo, passa a ser tratado como jogador comum, ou até desqualificado, em parte da mídia.
Esse movimento não ocorre por acaso. A narrativa muda conforme o contexto e o clube envolvido. O que antes era talento valorizado passa a ser questionado, não por critérios técnicos, mas por leituras enviesadas que encontram eco em análises mal fundamentadas.
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O impacto no debate público
Quando jornalistas, especialmente em programas de grande alcance, tratam conceitos jurídicos com imprecisão, o efeito vai além do futebol. Forma-se uma audiência mal informada, que passa a reproduzir ideias equivocadas sobre Justiça, culpa e inocência. Em um país marcado por julgamentos midiáticos e condenações morais antecipadas, esse tipo de abordagem é particularmente nocivo.
Não se trata de exigir que profissionais da imprensa esportiva sejam juristas, mas de reconhecer limites. Quando o tema ultrapassa o campo esportivo e entra no terreno jurídico, o mínimo esperado é apuração, consulta a especialistas ou, ao menos, cautela na forma de comunicar.
Paquetá não tem pendências judiciais. Não responde a processo. Não foi condenado. Não carrega qualquer sanção legal. Qualquer tentativa de relativizar isso não é análise crítica, é desinformação.
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