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Jornalista muda até de versão para distorcer fala de Boto sobre impedimento semiautomático

José Boto critica especulações, fala em influência de agentes e explica chegada de Vitão ao Flamengo

Foto: Adriano Fontes/Flamengo

A manifestação de José Boto após o empate do Flamengo por 1 a 1 com o São Paulo, no último domingo (26), no Maracanã, foi convertida por parte da imprensa esportiva em algo diferente do que o dirigente efetivamente disse. O diretor de futebol contestou um possível pênalti em Arrascaeta e pediu que a CBF mostrasse o momento exato do passe nas imagens do impedimento semiautomático, mas comentaristas trataram a cobrança por clareza como uma tentativa de desacreditar a tecnologia e alimentar suspeitas sobre a arbitragem.


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O debate surgiu depois da anulação do gol de Samuel Lino aos 45 minutos do segundo tempo. Wallace Yan, que participou da jogada, foi identificado em posição irregular por poucos centímetros. A reprodução exibida na transmissão mostrou os jogadores e a linha produzida pelo sistema, mas não apresentou ao público o instante do toque na bola utilizado para determinar o impedimento.

Boto declarou que não estava contestando o traçado nem afirmando que a decisão havia sido manipulada. Sua cobrança era para que a entidade exibisse a imagem completa, permitindo ao torcedor visualizar o mesmo ponto de contato considerado pela ferramenta. A diferença entre essas duas posições é objetiva: questionar a validade do resultado seria dizer que a marcação estava errada; pedir a apresentação do processo significa defender que uma decisão correta também precisa ser compreensível.

A crítica que ignora o conteúdo da fala

Paulo Massini classificou a solicitação como uma tentativa de “procurar pelo em ovo”. Rodrigo Vessoni ironizou a possibilidade de Boto querer entrar para a história como o primeiro dirigente brasileiro a reclamar do semiautomático. Em outro programa, Arnaldo Ribeiro e Eduardo Tironi associaram o episódio a um suposto “método do Flamengo”, caracterizado pela contestação da arbitragem sempre que o clube não consegue vencer.

O problema não está na crítica ao dirigente. Boto pode ser cobrado pelo trabalho no departamento de futebol, pelas contratações realizadas, pelas escolhas técnicas e pela frequência com que se manifesta sobre decisões de campo. Também é legítimo discutir se o Flamengo deveria apresentar suas reclamações por meio de um vídeo enviado à imprensa ou formalizar as sugestões diretamente à CBF.

Nenhuma dessas ressalvas, porém, autoriza atribuir ao português uma declaração que ele não fez. Ao transformar um pedido de exibição do momento do passe em contestação ao próprio impedimento, os comentaristas substituíram o conteúdo original por uma interpretação mais conveniente à narrativa previamente estabelecida.

Boto realmente afirmou que houve pênalti no toque de braço de Wendell durante a disputa com Arrascaeta. Nesse ponto, apresentou uma leitura discutível da jogada e cobrou uniformidade na aplicação da regra. Paulo Cesar de Oliveira, comentarista de arbitragem da Globo, considerou natural a posição do braço e concordou com a decisão de Anderson Daronco e do VAR. O desacordo técnico faz parte do futebol e não precisa ser transformado em prova de perseguição ou favorecimento.

No caso do semiautomático, entretanto, a demanda ultrapassava os interesses do Flamengo. Torcedores de Bahia e Corinthians também discutiam a ausência do ponto de contato depois de outro gol anulado por poucos centímetros na mesma rodada. O assunto já estava colocado antes da publicação do vídeo do dirigente rubro-negro.

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A própria CBF reconheceu a necessidade do ajuste

A cronologia enfraquece a tese de que Boto inventou uma polêmica para desviar o foco do empate. Antes de sua manifestação pública, a CBF já havia analisado a repercussão da estreia do sistema e decidido trabalhar com a Genius Sports para incluir o momento do passe na animação enviada às transmissões. A mudança ainda depende de ajustes técnicos, mas foi considerada positiva pela direção da entidade e pelo setor de arbitragem.

Isso não significa que o gol do Flamengo tenha sido mal anulado. A ferramenta opera com câmeras que capturam as imagens a 100 quadros por segundo, recomenda o ponto de contato e cria uma reprodução tridimensional dos atletas. Os árbitros da cabine verificam as informações antes da confirmação, motivo pelo qual o processo é chamado de semiautomático.

Na rodada de estreia, o recurso foi utilizado cinco vezes e apresentou tempo médio de checagem de 47 segundos. No Maracanã, a análise do gol do São Paulo durou 33 segundos, enquanto a jogada rubro-negra levou 64. A velocidade representa um avanço diante do traçado manual, mas a agilidade não elimina a obrigação de explicar como a conclusão foi alcançada.

A decisão posterior da CBF confirma que a pergunta sobre o momento do passe era tecnicamente pertinente. Não comprova que Boto estava certo sobre o pênalti, tampouco invalida o impedimento de Wallace Yan. Apenas demonstra que a apresentação oferecida ao público podia ser aperfeiçoada, exatamente o ponto central da manifestação.

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A contradição dentro do próprio debate

A reação ganha contornos ainda mais frágeis porque Arnaldo Ribeiro havia questionado a confiabilidade absoluta da novidade antes de transformar a ponderação de Boto em parte de um método de pressão. Em análise publicada no dia seguinte à estreia, o jornalista afirmou que a ferramenta não era infalível. Poucos dias antes, ele e Tironi haviam ressaltado que o modelo brasileiro não utiliza chip na bola, diferentemente da versão adotada pela Fifa em Copas do Mundo.

Posteriormente, o próprio Arnaldo reconheceu que mostrar o instante do passe poderia ser necessário no Brasil pela falta de confiança acumulada na arbitragem e admitiu que a CBF deveria ter definido essa apresentação antes da estreia. Ainda assim, o debate retornou à ideia de que o dirigente havia colocado a tecnologia sob suspeita.

A incoerência não está em mudar de opinião depois de receber novas informações. O jornalismo precisa revisar avaliações quando os fatos exigem. O problema aparece quando a ponderação aceita para o comentarista é tratada como artifício político quando parte de um representante do Flamengo.

Também é possível questionar o formato adotado pelo clube. Uma postura institucional mais produtiva seria protocolar a proposta na CBF, explicar publicamente o pedido e apresentar uma solução que beneficiasse todo o campeonato. Esse caminho reduziria a aparência de reclamação circunstancial e transformaria a insatisfação em contribuição objetiva.

Ainda assim, o formato não modifica o sentido das palavras. Boto não afirmou que o semiautomático havia fraudado o lance nem rejeitou a regra. Ele pediu que a imagem do toque fosse exibida, justamente para diminuir a desconfiança em torno de uma ferramenta recém-implantada.

O episódio revela um problema recorrente da cobertura esportiva: uma declaração é encaixada em uma narrativa antes de ser analisada pelo que contém. Como existe a percepção de que o Flamengo reclama frequentemente da arbitragem, toda manifestação passa a ser apresentada como prova desse comportamento, mesmo quando o assunto envolve uma lacuna reconhecida pela própria CBF.

Criticar dirigentes faz parte do trabalho da imprensa. Distorcer uma fala para fortalecer uma tese não pode ser confundido com independência editorial. O bom jornalismo não precisa defender José Boto, o Flamengo ou qualquer clube, mas tem a obrigação elementar de diferenciar aquilo que foi dito daquilo que o comentarista gostaria que tivesse sido declarado.

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