A declaração partiu de quem ocupa o centro do poder no futebol brasileiro e atravessou os limites do esporte. Leila Pereira, presidente do Palmeiras e presidente da Crefisa, afirmou, em reunião com o mandatário do INSS, que sua empresa não é instituição de caridade e que seu objetivo é lucrar. A fala, feita no contexto das investigações sobre irregularidades em empréstimos consignados a aposentados, ganhou nova dimensão quando passou a ser relativizada por setores da grande imprensa esportiva e, de forma ainda mais controversa, associada ao Flamengo em comentários recentes de Juca Kfouri.
O episódio expõe uma engrenagem antiga: dirigentes blindados, discursos naturalizados e a tentativa recorrente de diluir responsabilidades jogando clubes populares no centro da confusão.
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O que Leila disse e por que isso importa
A frase não foi dita em rede social nem em conversa informal. Ela ocorreu durante uma reunião institucional, em meio a um escândalo que envolveu milhões de aposentados obrigados a manter conta em bancos conveniados ao INSS. A investigação apontou práticas abusivas, com aposentados sendo direcionados a linhas de crédito com juros superiores a 5% ao mês, quando havia alternativas consignadas com taxas muito menores.
A Crefisa, presidida por Leila Pereira, concentrou grande parte desses convênios. A Polícia Federal e órgãos de controle identificaram distorções contratuais, o que levou o próprio INSS a revisar parcerias e estabelecer critérios mais rígidos. Foi nesse contexto que a dirigente afirmou não estar ali para ser generosa.
Não se trata de demonizar o lucro, mas de discutir o limite ético quando o negócio envolve população vulnerável e contratos compulsórios. Ao reduzir a questão a uma defesa genérica do mercado, Leila revelou mais do que pretendia.
A reação da imprensa e o papel de Juca Kfouri
Dias depois, o tema chegou ao programa Posse de Bola no UOL. Juca Kfouri abordou o assunto, criticou a postura da dirigente, mas incluiu o Flamengo no debate ao falar sobre patrocínios bancários, fair play financeiro e a necessidade de rastrear a origem do dinheiro no futebol brasileiro.
A inclusão do Flamengo foi, no mínimo, forçada. O clube mantém contrato com o BRB, banco que, segundo as próprias investigações, figura como vítima em operações envolvendo o Banco Master. O ex-presidente do BRB foi afastado, um novo comando assumiu e procurou o clube para manter a parceria.
Misturar situações distintas cria uma falsa simetria. O Flamengo não opera banco, não concede crédito consignado e não mantém relação direta com o INSS. Associá-lo ao caso funciona mais como ruído narrativo do que como análise responsável.
Dois pesos, duas medidas
Enquanto a fala de Leila foi minimizada por influenciadores do canal Futeboteco, que chegaram a dizer que ela não fez nada ilegal, o debate se desviou do essencial. Legalidade não esgota a discussão. A ética pública exige mais, sobretudo quando se fala de milhões de aposentados.
O contraste chama atenção. A mesma imprensa que cobra transparência de clubes populares trata com complacência uma dirigente celebrada como modelo de gestão. Em recortes recentes, Leila foi descrita como carismática, eficiente e até como nome ideal para presidir a CBF, mesmo com sua empresa no centro de um escândalo financeiro de grandes proporções.
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Flamengo como cortina de fumaça
Trazer o Flamengo para o centro do debate serve a um propósito conhecido: deslocar o foco. Ao mencionar o clube, o discurso ganha engajamento, torcida reage e o tema original perde força. É uma estratégia recorrente em momentos de crise alheia.
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O debate que deveria estar sendo feito
O futebol brasileiro precisa discutir, com seriedade, a origem dos recursos que o financiam. Bancos, casas de apostas e fundos de investimento fazem parte dessa engrenagem. Mas esse debate exige precisão, não atalhos.
No caso de Leila Pereira, a crítica é direta e documentada. Sua empresa esteve envolvida em contratos abusivos, a investigação existe e a declaração é pública. Não há necessidade de importar outros clubes para sustentar o argumento.
Quando o jornalismo confunde as coisas, ele não esclarece. Ele protege.
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