A cobertura do caso Flamengo x Libra ganhou um novo capítulo nos últimos dias, não pela disputa jurídica em si, mas pela forma como parte da imprensa segue tratando o tema mesmo após o acordo firmado entre os clubes. Em live, Danilo Lavieri voltou a abordar o conflito envolvendo os critérios de audiência da Libra e retomou argumentos já utilizados durante o auge da crise. O problema é que, mais uma vez, o debate parece caminhar muito mais pela construção de narrativas do que pela análise concreta do mérito jurídico e estatutário da questão.
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A insistência em afirmar que “o Flamengo assinou e depois quis mudar o contrato” talvez seja o principal exemplo disso. A frase, repetida em programas, colunas e comentários ao longo de meses, simplifica um caso extremamente técnico e ignora justamente o ponto central levantado pelo clube: a ausência de definição objetiva sobre os critérios por plataforma na divisão dos 30% referentes à audiência.
Esse detalhe muda completamente a interpretação dos fatos.
O Flamengo nunca alegou desconhecer a existência da divisão dos 30% por audiência. O clube questionava exatamente como essa divisão seria operacionalizada. Não se tratava de rejeitar o contrato inteiro, mas de apontar que o Anexo 1 permanecia incompleto em pontos fundamentais.
Ainda assim, parte da cobertura preferiu transformar a discussão técnica em uma narrativa política simplificada: “BAP chegou, não gostou do contrato e resolveu judicializar”.
O uso da “assinatura” como peça central da narrativa
A cronologia ajuda a entender por que a discussão ganhou tanta repercussão.
Durante meses, Danilo Lavieri sustentou publicamente que Rodolfo Landim teria assinado concordando com “todos os critérios de audiência”. O problema é que o próprio conteúdo posteriormente apresentado mostrava justamente a ausência desses critérios específicos.
O debate nunca foi sobre a existência do contrato. O debate era sobre a ausência de complementação técnica referente às plataformas, percentuais e metodologia prática de medição. E isso aparece justamente na tabela do Anexo 1 mencionada ao longo da discussão.
Em determinado momento da cobertura recente, o próprio Lavieri passa a dizer que “os critérios eram confusos”. A frase chama atenção porque contradiz diretamente o discurso anterior de que havia concordância clara e objetiva sobre todos os parâmetros de audiência.
Se os critérios eram confusos, incompletos ou dependiam de complementação, como sustentar simultaneamente a tese de que o Flamengo simplesmente “mudou de ideia” sobre algo já plenamente definido? Essa contradição virou um dos pontos centrais do debate público sobre a cobertura do caso.
O problema ignorado: o mérito da ação
Enquanto a maior parte da repercussão girava em torno da narrativa da assinatura, diversos pontos jurídicos relevantes acabaram recebendo pouca atenção.
O Flamengo alegava que a Libra tomou decisões sem observar exigências estatutárias previstas para alterações relacionadas ao critério de audiência. O clube também questionava instruções feitas à Globo para pagamento com base no cenário 1 que, segundo sua interpretação, não havia sido aprovado por unanimidade pela assembleia.
Houve ainda discussões sobre mudança de pauta em assembleia, ausência de unanimidade exigida pelo estatuto, omissão de trechos em atas e divergências entre medição por domicílio e por indivíduo. Esses elementos compunham o coração jurídico do processo. Só que boa parte da cobertura preferiu transformar a discussão em algo mais superficial: “o Flamengo assinou e depois correu para a Justiça”.
A diferença entre as duas abordagens é enorme. Uma tenta compreender o mérito técnico do caso. A outra simplifica tudo em narrativa política.
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O ataque aos críticos e a tentativa de descredibilização
Outro aspecto que chamou atenção nas falas recentes de Lavieri foi a tentativa de desqualificar quem rebateu suas análises durante a cobertura do caso. Ao citar “gabinete do ódio” para se referir aos questionamentos feitos sobre sua matéria da assinatura, o jornalista desloca o debate do campo factual para o emocional. Em vez de responder diretamente às inconsistências apontadas, passa a enquadrar críticos como agentes movidos por torcida ou hostilidade organizada.
O problema dessa estratégia é simples: os questionamentos apresentados não surgiram de ataques pessoais, mas da comparação entre falas públicas do próprio jornalista em momentos diferentes da cobertura. A discussão deixou de ser subjetiva. Ela passou a envolver contradições objetivas entre declarações anteriores e posteriores.
Quando um comentarista afirma primeiro que havia concordância com “todos os critérios” e depois admite que os critérios eram “confusos”, o debate inevitavelmente migra para a coerência da própria cobertura.
O Flamengo demorou oito meses para judicializar
Existe ainda um detalhe frequentemente ignorado na reconstrução cronológica do caso: o Flamengo não entrou imediatamente na Justiça com a chegada da gestão. Antes, o clube passou meses tentando resolver internamente a questão dentro da Libra.
Entre fevereiro e setembro de 2025, ocorreram assembleias, debates sobre cenários, notificações, discussões sobre metodologia e divergências relacionadas à operacionalização do contrato. Ou seja, a judicialização não surgiu como primeiro movimento político do clube. Ela aparece apenas após sucessivos impasses internos e após a Libra avançar em procedimentos que o Flamengo considerava irregulares estatutariamente. Essa diferença também altera completamente a leitura do caso.
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A imprensa esportiva e a dificuldade em lidar com temas jurídicos
Talvez o episódio diga menos sobre Flamengo e Libra do que sobre a própria cobertura esportiva brasileira.
Boa parte do jornalismo esportivo está acostumada a trabalhar com rivalidade, bastidor político, polêmica e repercussão emocional. Só que o caso da Libra exigia compreensão estatutária, leitura contratual, interpretação jurídica e análise institucional. Nesse ambiente, simplificações acabam se tornando perigosas.
Quando jornalistas transformam lacunas contratuais em “mudança de ideia”, ou reduzem um debate jurídico complexo a uma suposta birra administrativa, a cobertura deixa de informar adequadamente e passa a alimentar versões parciais do conflito. O mais curioso é que o próprio desfecho político do caso desmontou parte das narrativas construídas inicialmente.
O Flamengo não saiu isolado. Não perdeu força dentro da Libra. Não foi esmagado politicamente pelos demais clubes. Pelo contrário: reorganizou alianças, fortaleceu sua posição institucional e terminou o processo em condição muito mais confortável do que aquela existente no início da disputa.
Ainda assim, parte da cobertura segue resistindo em revisar interpretações feitas ao longo do processo. E talvez esteja justamente aí o maior problema. O jornalismo erra. Isso é inevitável. O que define sua qualidade não é a ausência de erro, mas a disposição para revisar análises, contextualizar informações e corrigir distorções quando os fatos mostram outro caminho.
No caso Flamengo x Libra, a impressão que fica é que alguns preferiram defender a própria narrativa até o fim, mesmo quando os acontecimentos começaram a apontar em direção oposta.
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