Leila Pereira é sócia de empresa que garante compra do Vasco; entenda o conflito investigado pela CBF

A participação societária de Leila Pereira em uma empresa do grupo Crefisa que aparece como garantidora da compra da SAF do Vasco pelo enteado Marcos Lamacchia acrescentou uma nova peça à investigação aberta pela Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (ANRESF). Documentos do processo de recuperação judicial do Vasco e registros societários mostram que a Crefipar Participações e Empreendimentos, empresa que figura entre as garantidoras da operação, tem a presidente do Palmeiras como sócia minoritária, com 5% das ações. O marido, José Lamacchia, detém os outros 95%.
A informação veio a público um dia depois de a agência reguladora instaurar procedimento para verificar possível influência cruzada entre clubes que disputam as mesmas competições e impor restrições temporárias a relações entre Vasco, Palmeiras e empresas ligadas à operação.
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A novidade é relevante porque a Crefipar não aparece apenas como uma empresa ligada ao universo empresarial de Leila e José Lamacchia. Segundo os documentos reunidos no processo de recuperação judicial, a companhia participa das garantias oferecidas para a aquisição do Vasco pela Almirante Participações e Empreendimentos, empresa que tem Marcos Lamacchia como principal sócio. O registro citado na documentação aponta para “fiança e aval” concedidos pela Crefipar e pelo próprio Marcos Lamacchia sobre as obrigações assumidas na operação. A companhia também aparece na assinatura de um aditivo ao acordo de investimento que antecede a conclusão do negócio.
É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas uma especulação sobre possíveis relações entre Palmeiras e Vasco e passa a envolver documentos empresariais. A ANRESF instaurou o Procedimento de Verificação de Conflito depois de identificar, em junho, indícios de que a estrutura da operação poderia configurar influência cruzada entre clubes da mesma competição. Em julho, o Vasco foi notificado, apresentou esclarecimentos e disponibilizou documentos. Após analisar o material, a unidade técnica recomendou uma investigação mais aprofundada, aceita pela Segunda Turma de Julgamento.
A Crefipar e os números da operação
A Crefipar possui capital social próximo de R$ 3 bilhões, segundo os dados societários citados na reportagem de Rodrigo Mattos. A participação de Leila Pereira é de 5%, enquanto José Lamacchia concentra 95%. A empresa também foi responsável pela concorrência para administrar a Arena Barueri, estádio que passou a receber partidas do Palmeiras quando o Allianz Parque, atualmente denominado Nubank Parque, não está disponível, além de jogos das equipes de base e do futebol feminino.
Há ainda outra conexão financeira. O Banco Crefisa aparece no processo de recuperação judicial do Vasco por ter concedido um empréstimo de R$ 80 milhões ao clube em setembro. Como garantia do mútuo, 10% das ações da SAF vascaína foram dadas em alienação fiduciária. Pelo mecanismo, a propriedade fica vinculada ao credor até a quitação da obrigação. Caso Lamacchia conclua a aquisição, a dívida segue a estrutura prevista na operação; se o negócio não for concluído, o débito vence e passa a ser exigível pelo Vasco.
A ANRESF, por sua vez, não desfez os negócios já realizados. A agência deixou claro que as operações formalizadas antes da notificação permanecem válidas. O que foi determinado é a interrupção temporária de novas relações que possam ampliar a influência entre os envolvidos enquanto a apuração estiver em andamento.
Entre as restrições estão transferências e empréstimos de jogadores entre Vasco e Palmeiras, operações de crédito, aportes, antecipações de receitas, compartilhamento de estruturas, sistemas, plataformas de análise, bases de dados e serviços. Também foram proibidas novas relações de crédito entre o Vasco e empresas que aparecem como garantidoras do acordo de investimento ou integrantes dos respectivos grupos econômicos. A agência ainda vetou, enquanto a operação não for consumada e aprovada, a nomeação de pessoas ligadas à investidora para cargos de administração, gestão ou decisão estratégica no clube.
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Uma história que já vinha sendo discutida
O elemento mais curioso da nova revelação está no contraste com declarações dadas por Leila Pereira em 2024. Naquele momento, quando surgiram rumores sobre um eventual interesse de José Lamacchia na compra da SAF do Vasco, a presidente do Palmeiras negou qualquer possibilidade. Na declaração, recuperada agora, ela afirmou que, por ser presidente do Palmeiras e estar envolvida na eleição do clube, não poderia negociar a aquisição de outra equipe. Disse ainda que ela e o marido tinham interesse apenas no Palmeiras.
Naquele período, portanto, a ideia de Lamacchia participar da compra de outro clube era publicamente rejeitada. O cenário mudou nos dois anos seguintes. A Almirante Participações e Empreendimentos, estrutura empresarial associada à operação, foi criada em abril de 2024, enquanto o debate sobre a possibilidade de aquisição do Vasco continuou a aparecer no ambiente esportivo.
A diferença entre aquele discurso e o cenário atual ajuda a explicar por que a operação passou a despertar atenção institucional. Hoje, além da participação de Marcos Lamacchia na tentativa de aquisição da SAF vascaína, aparecem documentos relacionando a Crefipar à garantia do negócio e registros mostrando que Leila Pereira possui participação societária na empresa. Ao mesmo tempo, empresas do grupo Crefisa já tiveram relações financeiras com o Vasco.
O que a ANRESF está investigando
A regra que sustenta a investigação está no artigo 86 do Regulamento do Sistema de Sustentabilidade Financeira. O procedimento busca verificar se uma mesma pessoa pode exercer, direta ou indiretamente, controle ou influência significativa sobre mais de um clube participante da mesma competição. A própria agência ressalta que a abertura do processo não equivale a um julgamento. Para instaurá-lo, não é necessário que a violação esteja comprovada. Basta que os elementos reunidos indiquem uma hipótese que possa ser alcançada pela norma.
Essa ressalva é especialmente importante neste caso. A ANRESF ainda não afirmou que Leila Pereira controla o Vasco, tampouco concluiu que a participação dela na Crefipar configura, por si só, influência sobre a SAF cruz-maltina. A investigação existe justamente para responder a essas perguntas.
O procedimento terá manifestação dos envolvidos, produção de provas e novas diligências. Ao final, a turma de julgamento poderá arquivar o caso, se não encontrar violação, ou determinar um plano de remediação caso identifique uma situação incompatível com as regras. O processo corre sob sigilo, com divulgação restrita à existência da investigação e às medidas administrativas adotadas.
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Flamengo vê confirmação de uma preocupação
O Flamengo recebeu a abertura do procedimento como um avanço na discussão. Em manifestação publicada pelo clube, a diretoria considerou relevante a decisão da ANRESF e afirmou que a medida reforça uma preocupação que vinha apresentando desde a entrada em vigor do novo regulamento, em janeiro de 2026.
O clube defendeu a independência dos participantes, a integridade das competições e a aplicação efetiva das regras de fair play financeiro. Na avaliação rubro-negra, relações de influência, controle ou dependência econômica entre equipes da mesma competição podem produzir assimetrias competitivas e representar um risco para o mercado de SAFs.
O Flamengo também pediu que as cautelares alcancem empresas relacionadas aos grupos econômicos envolvidos. Na manifestação, citou inclusive a Placar Linhas Aéreas, apontada pelo clube como uma empresa que deveria estar abrangida pelas restrições. A posição rubro-negra é que não basta impedir uma relação direta entre duas equipes se estruturas empresariais ligadas aos mesmos grupos puderem continuar funcionando como canais indiretos de operação.
O caso, portanto, ganhou uma dimensão que vai além da disputa entre Vasco e Palmeiras. A revelação sobre a participação de Leila Pereira na Crefipar coloca sob exame uma conexão societária que até então não estava no centro do debate público. Somada às garantias oferecidas pela empresa para a aquisição da SAF e ao histórico de operações financeiras da Crefisa com o Vasco, ela ajuda a explicar por que a estrutura passou a ser analisada pelo novo sistema regulatório.
O desfecho ainda não está dado. A venda do Vasco não foi suspensa pela ANRESF, e as cautelares não representam uma declaração de que existe conflito de interesses. A negociação pode seguir seu curso enquanto a agência realiza a apuração. O que mudou foi o nível de escrutínio sobre a operação e, principalmente, a quantidade de vínculos empresariais que agora precisam ser explicados.
Para o Flamengo, é justamente aí que está a importância do episódio. O clube defendia que possíveis relações cruzadas fossem analisadas antes que se tornassem irreversíveis. Agora, a ANRESF abriu formalmente o procedimento, adotou medidas preventivas e colocou no centro da discussão uma estrutura empresarial que conecta a aquisição do Vasco ao grupo econômico associado à presidente do Palmeiras.
O futebol brasileiro ainda terá de descobrir qual será a conclusão da agência. Mas a pergunta que antes circulava como hipótese ganhou documentos, registros societários, garantias financeiras e uma investigação formal. E, enquanto o mérito não é julgado, o Flamengo acompanha de perto o primeiro grande teste das novas regras de sustentabilidade e independência competitiva do futebol nacional.
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