A história de uma das torcidas organizadas mais conhecidas do Flamengo ganhará um novo registro no dia 11 de setembro de 2026, quando será lançado o livro O Maior Movimento de Torcidas do Brasil: memórias da velha guarda da Raça Rubro-Negra. O evento começará às 17h, na sede do Flamengo, na Gávea, e reunirá pesquisadores, fundadores, integrantes históricos e torcedores em torno de uma obra dedicada aos primeiros anos da organização, entre as décadas de 1970 e 1990.
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Organizada por Bernardo Buarque de Hollanda, Cláudio Cruz, Eduardo Benfica e Juliana Nascimento, a publicação foi construída a partir de pesquisas e relatos de quem acompanhou o nascimento, o crescimento e as transformações da Raça Rubro-Negra. Mais do que reunir fotografias e recordar partidas, o volume procura preservar experiências que sobreviveram durante décadas principalmente pela memória oral de seus integrantes.
O lançamento contará com a presença da bateria da torcida, responsável por levar ao encontro parte da sonoridade que marcou sua trajetória nas arquibancadas. A escolha transforma a apresentação em uma extensão do próprio conteúdo: um encontro no qual documentos, depoimentos e lembranças serão acompanhados pelo ritmo que ajudou a construir a identidade dos chamados casacas vermelhas.
Uma campanha começou antes da estreia
A história da Raça Rubro-Negra não teve início apenas no dia de sua primeira aparição no Maracanã. Ainda em 1976, cartazes espalhados pelo estádio e mensagens divulgadas em rádios anunciavam a chegada do “maior movimento de torcidas do Brasil”, estratégia que despertou curiosidade antes mesmo da apresentação oficial do grupo.
A fundação ocorreu em 24 de abril de 1977, durante uma partida do Flamengo contra a Portuguesa da Ilha. Seus idealizadores pretendiam estabelecer uma forma mais participativa de acompanhar o time, na qual a arquibancada deixaria de ser tratada apenas como uma presença complementar para assumir o papel simbólico de primeiro jogador da equipe. O slogan utilizado naquela campanha inicial atravessou as décadas e permanece associado à identidade da organização.
O período escolhido para a publicação acompanha uma fase decisiva para o futebol brasileiro. Entre os anos 1970 e 1990, os estádios passaram por mudanças comportamentais, políticas e culturais, enquanto grupos de torcedores ampliavam sua presença e criavam novas formas de produzir cantos, símbolos, faixas e caravanas.
A trajetória da Raça também se cruzou com a maior geração esportiva da história do Flamengo. A organização surgiu pouco antes das conquistas estaduais do fim dos anos 1970, acompanhou os títulos brasileiros, a Libertadores e o Mundial de 1981, além de participar de viagens que ajudaram a consolidar a imagem da torcida rubro-negra para além do Rio de Janeiro.
Memória contada por quem viveu
A proposta de ouvir a velha guarda permite que a história seja reconstruída a partir de personagens que não costumam ocupar os registros oficiais. Presidentes, ritmistas, responsáveis por caravanas, integrantes de bandeiras e torcedores anônimos participaram da formação de uma cultura coletiva, mas muitas dessas experiências permaneceram dispersas em arquivos pessoais e conversas entre gerações.
Esse tipo de pesquisa amplia a compreensão sobre as torcidas organizadas, frequentemente apresentadas apenas por episódios de violência ou conflitos nos estádios. Sem ignorar contradições, disputas internas e problemas que acompanharam essas associações, a obra procura observar também sua capacidade de produzir vínculos comunitários, identidade, música, memória e participação na vida dos clubes.
Juliana Nascimento possui trabalhos acadêmicos dedicados à Raça Rubro-Negra e às transformações culturais ocorridas entre seus integrantes. Bernardo Buarque de Hollanda, professor da Escola de Ciências Sociais da Fundação Getulio Vargas, desenvolve pesquisas sobre a história social do futebol e das organizações de torcedores, além de ter coordenado estudos e publicações sobre o tema no Brasil e em outros países da América Latina. Benfica acrescenta a perspectiva de quem conhece o movimento por dentro. Cláudio está ligado à fundação e aos primeiros passos da organização e integra a memória construída por seus membros. A combinação entre experiência vivida e investigação acadêmica oferece ao leitor uma narrativa que não se limita ao olhar externo sobre as arquibancadas.
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Financiamento coletivo ajudou a viabilizar a obra
Antes de ganhar uma data de lançamento, o projeto passou por uma campanha de financiamento coletivo. Torcedores puderam adquirir exemplares antecipadamente e contribuir para que a pesquisa fosse transformada em publicação, modelo que aproxima o público do processo editorial e reduz a dependência de grandes editoras.
A pré-venda também revelou o interesse por histórias que permanecem fora da bibliografia tradicional do futebol. Enquanto livros sobre jogadores, técnicos e títulos ocupam grande parte do mercado esportivo, a participação das arquibancadas ainda aparece com menos frequência, apesar de sua influência na construção da cultura dos clubes.
Ao reunir a memória da velha guarda, O Maior Movimento de Torcidas do Brasil procura registrar não apenas a trajetória de uma associação, mas um capítulo da história social do Flamengo. As páginas devem revelar como foram organizadas as primeiras campanhas, festas, viagens e redes de solidariedade, além dos conflitos e mudanças enfrentados ao longo do processo.
O encontro de 11 de setembro representará, portanto, mais do que a apresentação de uma publicação. Ao levar antigos integrantes, pesquisadores e novas gerações à sede do Flamengo, o lançamento devolverá à comunidade rubro-negra uma memória construída coletivamente, preservando relatos que poderiam desaparecer com o tempo e abrindo espaço para que a história das arquibancadas seja contada por quem ajudou a escrevê-la.
Livro “Dez vezes Flamengo” resgata os primeiros títulos cariocas e a origem da grandeza rubro-negra
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