O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a defender o fim das bets no Brasil e colocou o futebol no centro da discussão ao rebater a reação de clubes à possibilidade de novas restrições ao setor. Em um comício em Guarulhos, na sexta-feira (18), o petista afirmou que, se depender de sua vontade, as apostas serão encerradas no país e contestou o argumento de que o futebol brasileiro não sobreviveria sem esse dinheiro. A declaração ocorreu um dia depois de Flamengo, Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Santos, Grêmio, Internacional e outros clubes reagirem à possibilidade de uma medida provisória do governo.
Ouça nossas análises e entrevistas sobre a eleição do Flamengo no seu agregador de podcast preferido: Spotify, Deezer, Amazon, iTunes, Youtube Music, Castbox e Anchor.
Lula apresentou a questão principalmente pelo impacto social das apostas. Ao mencionar os títulos mundiais conquistados por clubes brasileiros antes da existência das bets, procurou desmontar a associação entre a atividade e a própria sobrevivência do futebol. O presidente também afirmou que a preocupação do governo não deveria estar concentrada na perda de arrecadação, mas na situação de pessoas pobres que comprometem dinheiro com jogos.
“Eu vou acabar com as bets”, disse Lula durante o ato. Na mesma fala, classificou como uma “balela” a ideia de que o fim das apostas levaria ao fim do futebol e relacionou a decisão pretendida pelo governo ao combate à lavagem de dinheiro e a outras irregularidades. A declaração foi registrada também pelo UOL, que destacou a referência direta do presidente a Flamengo e Corinthians após o manifesto dos clubes.
O argumento presidencial tem uma lógica própria: o futebol brasileiro existia muito antes das apostas esportivas e, portanto, não poderia ser apresentado como dependente delas para continuar funcionando. A comparação, entretanto, deixa de lado uma diferença importante entre passado e presente. O problema apontado pelos clubes não é a possibilidade de o futebol deixar de existir sem bets, mas o impacto financeiro de retirar, de forma rápida, uma fonte de receita que passou a integrar contratos e planejamentos recentes.
É justamente nesse ponto que a reflexão da jornalista Raísa Simplício ganha importância.
O problema não é o futebol ter existido sem bets
Em uma análise, a jornalista Raísa Simplício, em seu perfil no X (antigo Twitter), chamou atenção para aquilo que considera o ponto central da discussão: a regulamentação criou um ambiente no qual contratos foram firmados sob determinadas regras. A partir desse marco, clubes, jogadores, federações, esportes olímpicos, eventos culturais e veículos de comunicação passaram a estabelecer compromissos comerciais considerando a presença das empresas de apostas.
A jornalista resumiu a questão ao observar que o problema não está no fato de o futebol ter vivido décadas sem esse tipo de receita. O ponto, segundo sua reflexão, são os compromissos assumidos depois da regulamentação.
É uma diferença importante. Dizer que São Paulo, Santos, Grêmio, Flamengo, Internacional e outros clubes foram campeões antes das bets demonstra que o futebol não nasceu dependente das apostas. Mas não responde, sozinho, ao que acontece com um contrato assinado no ambiente regulado, com duração de vários anos, nem com um orçamento construído a partir daquela receita.
O manifesto divulgado pelos clubes seguiu exatamente essa linha. As equipes defenderam a manutenção do mercado regulado e argumentaram que contratos, planejamentos plurianuais e compromissos financeiros foram estabelecidos depois da criação das regras pelo Estado. O documento também sustentou que a retirada abrupta das empresas autorizadas poderia favorecer o mercado clandestino.
A palavra mais importante é transição
Raísa não ignorou o problema social provocado pelas apostas. A própria discussão apresentada por ela parte do reconhecimento de que existe uma questão envolvendo pessoas que desenvolveram dependência e precisam de atenção do poder público. O questionamento está em saber se uma mudança imediata nas regras comerciais será suficiente para resolver esse problema.
Esse é um dos pontos que tornam o debate mais complexo. Uma pessoa com comportamento compulsivo pode não deixar de apostar simplesmente porque uma empresa autorizada desapareceu do mercado. A atividade pode migrar para plataformas clandestinas, inclusive hospedadas fora do país, criando dificuldades adicionais de fiscalização.
O Ministério da Fazenda, por sinal, vem ampliando o combate ao mercado ilegal. Em 15 de setembro, a Secretaria de Prêmios e Apostas publicou uma portaria com procedimentos para prevenção, identificação e repressão de transações de pagamento relacionadas à exploração irregular de apostas de quota fixa.
O próprio futebol reconhece que há necessidade de fiscalização e proteção do consumidor. A divergência está no caminho para chegar a esse objetivo.
Na reflexão de Raísa, uma mudança sem período de adaptação poderia produzir um problema adicional: contratos de clubes, premiações de competições, investimentos e folhas de pagamento foram planejados dentro das regras existentes. Se a fonte de receita desaparecer de uma hora para outra, a conta precisa ser reorganizada em algum lugar.
TRANSMISSÃO AO VIVO COMPLETA:
O exemplo da Premier League
A Premier League oferece um exemplo utilizado na discussão para demonstrar a importância de uma transição. Os clubes ingleses aprovaram a retirada voluntária dos patrocínios de apostas da frente das camisas a partir da temporada 2026/27, mas a decisão foi anunciada com antecedência, permitindo que as equipes buscassem novas alternativas comerciais.
Não se trata de comparar diretamente os sistemas brasileiro e inglês. O ponto é outro: uma restrição comercial pode ser anunciada com tempo suficiente para que clubes e empresas reorganizem contratos e receitas.
No Brasil, a preocupação aparece justamente quando o setor ainda passa por uma fase relativamente recente de regulamentação. Empresas autorizadas assumiram obrigações, passaram a recolher tributos e fecharam acordos com propriedades esportivas. Uma nova mudança nas regras produz, inevitavelmente, uma discussão sobre segurança jurídica.
E há uma segunda questão: mesmo que o governo decida inicialmente atingir apenas os chamados cassinos on-line, sem proibir as apostas esportivas, o mercado de patrocínio pode sofrer reflexos indiretos.
Reportagens recentes indicam que a possibilidade em análise no governo é justamente restringir jogos on-line, preservando inicialmente as apostas esportivas. O ge informou que a proposta em discussão revogaria a parte da legislação que incluiu os jogos virtuais entre as apostas de quota fixa, sem proibir as apostas esportivas.
Isso muda bastante o impacto imediato sobre o futebol, mas não elimina a insegurança para os clubes. O próprio Lula, em sua manifestação pública, ampliou o discurso para as bets de maneira geral.
Flamengo está no centro da discussão
A citação ao Flamengo não foi casual. O clube está entre as maiores propriedades comerciais do futebol brasileiro e aparece no debate como um dos principais exemplos da dimensão financeira alcançada pelos patrocínios de apostas. O clube possui contrato de R$ 268,5 milhões anuais com a Betano, valor informado pelo próprio clube. Outros grandes times também mantêm acordos expressivos com empresas do segmento.
Por isso, quando Lula afirma que o futebol precisa existir sem bets, está tratando de uma realidade histórica. Quando os clubes alertam para o impacto econômico de uma retirada abrupta, estão tratando de uma realidade contratual atual. As duas afirmações não são necessariamente incompatíveis.
O futebol pode sobreviver sem apostas. O que precisa ser respondido é como será feita a passagem de um modelo para outro caso o governo decida restringir o mercado ou a publicidade. Essa é a principal contribuição da reflexão de Raísa Simplício para o debate. Em vez de discutir apenas se as bets são boas ou ruins, ela desloca a pergunta para o momento seguinte: o que acontece com aquilo que já foi contratado, planejado e orçado?
LEIA MAIS:
CASO PREFIRA OUVIR:
O debate vai além do futebol
A fala de Lula também ampliou a discussão para uma questão social que não pode ser ignorada. O presidente mencionou o endividamento provocado pelas apostas e voltou a defender uma intervenção mais dura do Estado. Em outro ato, neste sábado (19), repetiu que está determinado a acabar com as bets e afirmou que o problema atinge pessoas endividadas pelo jogo.
Ao mesmo tempo, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que ainda não havia decisão final sobre as medidas, enquanto o governo avaliava os impactos sociais das apostas.
Esse detalhe é importante porque a discussão ainda não estava encerrada. Entre a declaração política do presidente e uma eventual mudança definitiva na legislação existe uma etapa de elaboração da medida, publicação e análise pelo Congresso Nacional.
É também nesse intervalo que aparece a necessidade de uma política pública mais ampla. Combater a dependência não significa apenas retirar uma plataforma do ar. Envolve fiscalização, educação financeira, prevenção, tratamento para quem desenvolveu transtorno relacionado ao jogo e combate aos operadores clandestinos.
Do outro lado, preservar contratos não significa ignorar os problemas sociais. Significa reconhecer que uma política pública pode produzir efeitos sobre diferentes setores e que esses efeitos precisam ser considerados antes da mudança.
Bets: Senado avança com restrições e Flamengo precisa se preparar
—
+ Siga o Ser Flamengo no Twitter, no Instagram e no Youtube.

