Ícone do site Ser Flamengo

Lula tem duas MPs na mesa que podem mudar o futuro das bets e impactar o futebol brasileiro; entenda

Lula tem duas MPs na mesa que podem mudar o futuro das bets e impactar o futebol brasileiro; entenda

Foto: Brenno Carvalho / Agênca O Globo

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva trabalha com mais de uma possibilidade para alterar as regras dos jogos on-line no Brasil, e a diferença entre os textos em discussão pode ser decisiva para o futebol. Segundo informação publicada pelo jornalista Marcel Rizzo, do Estadão, há duas versões de medida provisória sobre a mesa: uma delas prevê a proibição das apostas de quota fixa, atingindo diretamente as apostas esportivas; a outra concentra a restrição nos cassinos on-line, preservando, neste primeiro momento, as plataformas relacionadas a eventos esportivos. A possibilidade surge poucos dias depois de clubes se unirem para reagir à ameaça de mudança no mercado e alertarem para os efeitos sobre patrocínios e planejamento financeiro.


Ouça nossas análises e entrevistas sobre a eleição do Flamengo no seu agregador de podcast preferido: Spotify, Deezer, Amazon, iTunes, Youtube Music, Castbox e Anchor.


A distinção é importante porque “bets” virou uma expressão usada para atividades diferentes. As apostas de quota fixa abrangem os palpites esportivos, como resultado de partidas, número de gols ou cartões. Já os cassinos on-line incluem jogos como os chamados “Tigrinho”. Pela legislação brasileira, as apostas de quota fixa foram legalizadas em 2018 no âmbito esportivo e tiveram seu marco regulatório ampliado pela Lei nº 14.790, de 2023. Desde 1º de janeiro de 2025, somente empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda podem operar nacionalmente.

Duas possibilidades, dois impactos

A primeira versão mencionada por Rizzo seria a de maior impacto para o futebol. Ao alcançar todas as apostas de quota fixa, a medida atingiria justamente o segmento que passou a ocupar espaço relevante no mercado de patrocínios esportivos. Clubes, competições, federações e outros integrantes da cadeia esportiva passaram a negociar contratos considerando a existência de um mercado regulado e autorizado pelo próprio Estado.

A segunda alternativa teria alcance diferente. Ao concentrar a medida nos cassinos on-line, preservaria as apostas esportivas ligadas aos eventos oficiais. Isso não eliminaria a preocupação dos clubes, mas reduziria, ao menos inicialmente, o impacto direto sobre contratos que têm as empresas de apostas esportivas como patrocinadoras.

É justamente essa diferença que explica a mobilização antecipada dos dirigentes. Um eventual recuo do mercado de jogos on-line pode diminuir a capacidade de investimento das empresas e, por consequência, atingir o dinheiro destinado ao futebol. O efeito não necessariamente ocorreria de uma vez, mas poderia aparecer nas próximas negociações, quando contratos forem renovados ou novos acordos precisarem ser assinados.

O futebol entrou na discussão

A reação ganhou força em 17 de setembro, quando Flamengo, Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Santos, Botafogo, Fluminense, Vasco, Grêmio e outros clubes divulgaram uma manifestação conjunta em defesa da manutenção de um mercado regulado de apostas. Federações estaduais também participaram do movimento. O documento advertiu para o impacto de eventuais restrições e usou a expressão “fim do futebol brasileiro” para dimensionar a preocupação dos dirigentes.

A escolha das palavras provocou debate. O argumento dos clubes é que uma mudança abrupta afetaria receitas, contratos já celebrados e a capacidade de planejamento das equipes. Há, porém, uma diferença entre reconhecer a importância econômica das bets para o futebol e concluir que o esporte deixaria de existir sem esse tipo de patrocinador. O próprio mercado esportivo já passou por mudanças semelhantes quando empresas ou setores importantes deixaram de investir na modalidade.

Um exemplo lembrado nesse contexto é a Caixa Econômica Federal. Durante determinado período, o banco estatal esteve presente nas camisas de numerosos clubes das Séries A e B. Quando sua estratégia de publicidade mudou, as equipes precisaram procurar outras fontes de receita. Algumas encontraram soluções mais rapidamente; outras tiveram mais dificuldade. O mercado, entretanto, se reorganizou.

A comparação ajuda a colocar a discussão no lugar certo. O problema não é apenas saber se o futebol continuará existindo sem as bets. Ele certamente continuará. A questão econômica é saber quanto uma mudança repentina custaria aos clubes e quanto tempo seria necessário para encontrar alternativas equivalentes.

TRANSMISSÃO AO VIVO COMPLETA:

Um mercado que já está se rearranjando

Os números mostram que a dependência também não é estática. Levantamento publicado pela Folha aponta que a quantidade de clubes da Série A com empresas de apostas no espaço master das camisas caiu de 18, em 2025, para 13, em 2026. Ao mesmo tempo, houve concentração dos investimentos em algumas das equipes de maior exposição.

Ou seja, antes mesmo de uma eventual nova MP, o setor já vinha passando por uma acomodação. A regulamentação aumentou os custos de operação e estabeleceu exigências para as empresas interessadas em atuar legalmente. Parte das casas que operavam anteriormente deixou o mercado, enquanto outras buscaram se adequar às novas regras. O Ministério da Fazenda informa que as empresas autorizadas precisam cumprir requisitos específicos e operar dentro do sistema federal de fiscalização.

Esse histórico é relevante porque a discussão atual não ocorre sobre um mercado completamente desregulado. O Brasil criou uma estrutura legal para as apostas de quota fixa e, a partir dela, clubes e empresas passaram a estabelecer relações comerciais. Uma eventual mudança agora teria de considerar essa trajetória e os contratos firmados durante a vigência das regras.

A questão da propaganda

Mesmo que a versão voltada aos cassinos on-line seja escolhida, o futebol não estará necessariamente livre de novas restrições. Projetos para limitar a publicidade de apostas continuam em discussão, e qualquer redução do espaço destinado às marcas pode interferir no valor dos contratos.

O raciocínio é semelhante ao observado em outros segmentos submetidos a regras específicas de publicidade. Se uma empresa deixa de poder ocupar o espaço mais valorizado de uma camisa, reduz sua exposição ou encontra limitações para anunciar em determinadas plataformas, o valor comercial daquele ativo tende a ser renegociado. O impacto, portanto, pode aparecer não pela proibição da atividade, mas pela redução da capacidade de divulgação.

É por isso que a ideia de um período de transição ganhou força. A duração desse prazo ainda é objeto de discussão, mas a lógica é simples: contratos existentes precisariam ser cumpridos ou reorganizados, enquanto os clubes buscariam novos patrocinadores e fontes de receita. Uma alteração imediata poderia produzir um choque maior justamente nas equipes que montaram seus orçamentos contando com esses recursos.

LEIA MAIS:

CASO PREFIRA OUVIR:

O que pode acontecer com o Flamengo

Para o Flamengo, a possibilidade exige atenção em duas frentes. A primeira é o destino do contrato atualmente existente com a Betano. A segunda está relacionada ao planejamento dos próximos ciclos comerciais, caso o ambiente regulatório se torne menos favorável ao setor.

A manifestação conjunta dos clubes mostrou que a preocupação deixou de ser isolada. Grupos que normalmente disputam espaço e interesses dentro do futebol se aproximaram diante de uma questão econômica comum. A discussão, entretanto, não elimina os argumentos relacionados aos efeitos sociais das apostas, como endividamento e comportamento compulsivo, que estão no centro da posição defendida por Lula.

O presidente elevou o tom contra as bets em comício realizado em Guarulhos, nesta sexta (18). Ao responder ao manifesto dos clubes, Lula afirmou que pretende acabar com as apostas e citou Flamengo, Corinthians, Santos, Grêmio, Internacional e São Paulo como campeões mundiais em períodos anteriores à existência desse mercado. Também afirmou que não considera a perda de arrecadação tributária mais importante do que os problemas provocados pelo jogo entre pessoas de baixa renda.

O argumento histórico de Lula responde a uma parte da discussão: o futebol brasileiro existia e conquistava títulos antes das bets. O debate econômico levantado pelos clubes, porém, trata de outra questão: o modelo atual incorporou essas empresas às receitas de publicidade, e uma mudança nas regras produz consequências para contratos que foram assinados dentro de um ambiente regulatório criado pelo próprio Estado.

É nesse ponto que as duas possíveis MPs ganham importância. Se a escolha for restringir os cassinos on-line, o futebol terá mais tempo para acompanhar a discussão sobre as apostas esportivas e eventuais limites à publicidade. Se a medida atingir também as apostas de quota fixa, o impacto sobre clubes e competições será mais direto.

Por enquanto, não há decisão final sobre qual texto será adotado. O que existe é um mercado em transformação, clubes tentando proteger receitas, empresas diante de novas exigências e um governo que sinaliza disposição para endurecer as regras. Para o Flamengo e para os demais clubes, a necessidade imediata é trabalhar com mais de um cenário. A questão deixou de ser apenas quanto as bets pagam hoje e passou a envolver quanto tempo o futebol terá para substituir essa receita, caso as regras mudem amanhã.

PL ameaça bets no futebol e pode explodir o modelo de patrocínios no Brasil

+ Siga o Ser Flamengo no Twitter, no Instagram e no Youtube.

Comentários
Sair da versão mobile