Massini cria teoria contra o Flamengo e Vessoni defende calote no Band Esporte

Massini cria teoria contra o Flamengo e Vessoni defende calote no Band Esporte

O debate sobre a tentativa do Flamengo de renegociar comissões de empresários ganhou mais um capítulo no Band Esporte, em falas de Massini e Vessoni, e acabou expondo um problema recorrente da imprensa esportiva brasileira: quando o assunto envolve o Rubro-Negro, o erro é tratado como escândalo moral; quando a lógica é transferida para outros clubes, aparece a relativização, a piada, a comparação torta e até a sugestão de que terceiros deveriam agir da mesma forma.

A questão central é objetiva: o Fla teria comunicado a agentes que não pagaria agora valores já acordados, buscando reprogramar ou rediscutir compromissos assumidos por gestões anteriores. O tema merece crítica, cobrança e apuração. O problema começa quando jornalistas que cobram contrato assinado passam, no mesmo debate, a sugerir que Corinthians ou outros clubes façam movimento semelhante contra o próprio Flamengo, como se o absurdo deixasse de ser absurdo quando serve para devolver uma provocação.


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A primeira camada da discussão precisa ser separada com honestidade. Se o Flamengo assinou contrato, assumiu obrigação e não há cláusula que permita revisão unilateral, o clube tem de pagar. Não interessa se o acordo foi feito pela gestão anterior, se o percentual é alto, se a atual diretoria considera o modelo ruim ou se Bap entende que determinadas comissões são abusivas. Contrato assinado pelo clube é compromisso. Mesmo que a diretoria atual tenha identificado valores exagerados, chegando a comissões de 26% ou algo próximo de um quarto ou um terço de determinadas operações, o acordo precisa ser honrado se não houver base jurídica para rediscuti-lo.

O ponto cego do debate

A cobrança feita no programa, porém, ficou incompleta. Se os empresários entendem que o Flamengo está descumprindo contratos, existem caminhos formais: CNRD da CBF e Justiça comum. O São Paulo já foi punido após empresários buscarem o CNRD por falta de pagamento. A pergunta a ser feita é pertinente: por que os agentes não seguiram de imediato esses caminhos e preferiram bater à porta da CBF tentando incluir o tema no debate de fair play financeiro? Esse detalhe não absolve O Mais Querido, mas ajuda a entender a disputa. Em vez de tratar o caso apenas como “calote”, era obrigação jornalística perguntar também qual estratégia os empresários adotaram, por que escolheram pressão institucional e quais efeitos pretendem produzir.

A fala de Massini, nesse ponto, é mais direta: “preto no branco”, o Flamengo não estaria pagando algo que deve. Ele também lembra que clubes já sofreram transfer ban por inadimplência com comissão de empresário e cita o caso Calleri, no São Paulo, como exemplo recente. O diagnóstico tem força porque toca no aspecto documental: se existe contrato, vencimento e inadimplência, a discussão não pode virar eufemismo corporativo. Chamar de “renegociação”, “reorganização” ou “reprogramação” não muda a natureza do problema se a outra parte não concordou formalmente com os novos termos. Até aí, a crítica ao Flamengo é legítima e necessária.

O problema é que a discussão degringola quando Vessoni usa o exemplo de Mateuzinho e Hugo Souza para sugerir que o Corinthians deveria mandar um e-mail ao Flamengo dizendo que, em vez dos 40% acordados em direitos econômicos, passaria a reconhecer apenas 20%. A intenção era criar uma comparação para mostrar o absurdo de mudar unilateralmente um contrato já assinado. Só que a forma escolhida abre outro flanco: se ele critica o Fla por não cumprir acordo, não faz sentido propor que outro clube repita a conduta para “dar o troco”. O argumento poderia terminar na crítica correta: contrato firmado deve ser respeitado. Ao transformar isso em sugestão para o Corinthians agir contra o Flamengo, Vessoni troca a defesa de princípio por um recurso de torcida.

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Quando o errado vira argumento

O jornalista poderia dizer que o Flamengo erra se tenta impor revisão de contrato sem concordância dos agentes. Poderia cobrar transparência, expor os valores, perguntar quais acordos estão vencidos, quais ainda vencerão, quais têm cláusulas de revisão e quais empresários aceitaram negociar. Mas, ao sugerir que outros clubes façam o mesmo, ele acaba justificando o errado com o errado. O ponto não é defender o clube rubro-negro de qualquer crítica. Ao contrário: o texto parte do reconhecimento de que acordo assinado tem de ser honrado. A questão é a qualidade do debate de quem se apresenta como fiscal da moral contratual e, minutos depois, normaliza a ruptura quando ela atinge o rival.

Esse não é um deslize isolado. Vale lembrar do caso com Gabriel Simões, que havia criticado o Botafogo por ter sido campeão brasileiro e da Libertadores em 2024 com pendências financeiras no caso Almada. Vessoni respondeu com a tese de que o futebol brasileiro sempre funcionou assim, como se a repetição histórica do erro servisse para reduzir a cobrança atual. Gabriel devolveu bem: se o errado sempre foi feito, a imprensa deveria brigar pelo direito de todos continuarem fazendo ou cobrar um padrão melhor? A pergunta resume o papel que o jornalismo esportivo deveria desempenhar, mas muitas vezes evita quando a camisa do comentarista aparece por baixo da análise.

O argumento de que “isso nunca foi tema” também não resiste à memória. Quando o Flamengo era o clube da dívida, da luz cortada, dos salários atrasados e das piadas nacionais, o tema era manchete, pauta, coluna, mesa-redonda e deboche público. O clube foi ridicularizado durante anos por sua desorganização financeira, e com razão em muitos momentos. O que mudou é que agora o Fla está do outro lado da mesa: é o clube rico, poderoso, comprador, capaz de pressionar agentes e impor padrões próprios. Isso não torna automaticamente correta qualquer decisão da diretoria, mas explica por que há tanto prazer em pintar o Rubro-Negro como “caloteiro” no primeiro conflito de grande repercussão envolvendo compromissos financeiros.

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O torcedor ouve que o Corinthians deveria avisar ao Flamengo que vai reduzir unilateralmente os 40% de Mateuzinho e Hugo Souza para 20%, e sai repetindo isso como se fosse raciocínio jurídico, quando na prática seria convite ao descumprimento contratual. É o jornalismo que deveria organizar o debate ajudando a confundir o público.

Há também uma crítica ao formato. O programa G4, formado por jornalistas ligados ao eixo dos quatro grandes de São Paulo, fala do Flamengo porque dá audiência e engajamento. Isso é legítimo; o clube é nacional, movimenta público e ocupa o centro de muitas disputas do futebol brasileiro. O problema é comentar sem se aprofundar. No caso das comissões, Massini especula que o clube talvez queira diminuir o poder dos empresários, quando a discussão central parece ser dinheiro, teto e percentual. Empresários continuarão existindo, jogadores seguirão com staff, advogados, representantes e consultores. Nenhum clube do porte do Rubro-Negro vai contratar Thiago Almada, renovar com Arrascaeta ou negociar qualquer atleta importante fingindo que empresário não existe. O que se discute é a regulamentação de percentuais, a tentativa de impor teto e a revisão de acordos considerados abusivos.

A diferença entre renegociar e não pagar está no aceite da outra parte. Se o agente concorda com desconto, parcelamento, prazo novo ou reprogramação documentada, há renegociação. Se não concorda e o clube simplesmente suspende o pagamento, há inadimplência. O debate sério deveria estar nesse ponto. Quais contratos venceram? Quais foram reprogramados? Houve assinatura de aditivo? Há cláusulas que autorizam revisão? Quais empresários recusaram? Qual é o valor total? Sem essas respostas, todo mundo fala por cima: uns para atacar o Flamengo, outros para defender o clube, e a imprensa, que deveria buscar documento, se perde entre moralismo seletivo e torcida disfarçada de análise.

O episódio envolvendo Vessoni e Massini mostra como o Flamengo continua sendo o centro nervoso da imprensa esportiva. Quando erra, precisa ser cobrado sem anestesia. Quando acerta, não pode ser tratado como exceção incômoda. Quando tenta mudar práticas ruins do mercado, deve explicar método, respeitar contratos e evitar imposição unilateral. O que não cabe é jornalista denunciar descumprimento e, no mesmo movimento, sugerir que outro clube descumpra também, desde que o prejudicado seja o Fla. A discussão sobre comissões é séria demais para virar meme de bancada. Se o futebol brasileiro quer ser menos amador, precisa começar por uma regra simples: contrato vale para todos, crítica vale para todos e princípio não pode mudar conforme a camisa de quem está na mesa.

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