Milly Lacombe ataca Bap pelos esportes olímpicos, mas deixa debate raso e evita discutir o sistema

Milly Lacombe ataca Bap pelos esportes olímpicos, mas deixa debate raso e evita discutir o sistema

O debate sobre o papel do Flamengo no esporte olímpico voltou ao centro da cena nesta semana, impulsionado por uma coluna de Milly Lacombe que questiona o modelo de gestão adotado por Luiz Eduardo Baptista, o BAP, e seus efeitos sobre modalidades como a canoagem, o remo paralímpico e o futebol feminino. A discussão ganhou corpo em meio a decisões recentes do clube, que encerraram investimentos em equipes adultas de esportes que historicamente ajudaram a moldar a identidade poliesportiva rubro-negra.


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A crítica parte de um ponto legítimo. O Flamengo não é apenas um time de futebol masculino vencedor, mas uma instituição que construiu pertencimento, afetos e formação esportiva em múltiplas frentes ao longo de décadas. Questionar até que ponto a busca por eficiência financeira pode tensionar essa tradição é um exercício necessário. O problema surge quando a análise se limita ao ato final da gestão, sem examinar o sistema que sustenta ou sufoca essas modalidades.

O modelo que hoje é atribuído a BAP não nasceu em 2025. Em 2013, quando Eduardo Bandeira de Mello assumiu o clube em meio a uma crise financeira profunda, o Flamengo extinguiu equipes adultas de ginástica olímpica e reduziu investimentos em diversas modalidades. Atletas consagrados, como César Cielo, deixaram o clube naquele período. A justificativa era clara: cortar custos, reorganizar finanças e garantir sobrevivência institucional. Houve reação, protesto e desgaste, mas o caminho foi seguido. Anos depois, com as contas equilibradas, parte dessas modalidades retornou.

Esse histórico ajuda a entender que decisões duras não são exclusividade de uma gestão específica. Elas refletem escolhas recorrentes dentro de um modelo que cobra sustentabilidade econômica em um país onde o esporte olímpico depende quase integralmente de patrocínios instáveis, verbas públicas e visibilidade episódica. O Flamengo, nesse contexto, atua muitas vezes mais como apoiador institucional do que como formador pleno, arcando com custos sem retorno proporcional de exposição ou receita.

A canoagem exemplifica esse paradoxo. Isaquias Queiroz, maior nome da modalidade no Brasil, construiu sua trajetória com apoio do clube e carregou símbolos rubro-negros em momentos emblemáticos, como pódios olímpicos. Ainda assim, nas transmissões e programas esportivos, o vínculo com o Flamengo raramente foi mencionado. Levantamento feito por jornalistas que transcreveram horas de programas olímpicos revelou um dado incômodo: clubes formadores quase não aparecem no discurso midiático. Federações e confederações ocupam o centro da narrativa, enquanto quem mantém estrutura, técnico e salário fica invisível.

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O mesmo ocorre com a ginástica artística. Rebeca Andrade treina no Flamengo desde 2011, mas em coberturas extensas de conquistas olímpicas, o nome do clube simplesmente não é citado. Em um programa de mais de uma hora exibido por um dos principais canais esportivos do país, apenas um clube foi mencionado, e não foi o rubro-negro. Esse apagamento não é casual. Ele compromete a cadeia de valor do esporte, reduz o interesse de patrocinadores e fragiliza a sustentabilidade das modalidades.

Ao relacionar diretamente o encerramento da canoagem ou do remo paralímpico a investimentos milionários no futebol, como propostas por atacantes do mercado nacional, cria-se uma relação de causa e efeito que não se sustenta nos números. O Flamengo só chegou à capacidade de fazer ofertas elevadas após anos de crescimento em marketing, direitos de transmissão, bilheteria e internacionalização da marca. A economia gerada por modalidades olímpicas, embora relevante simbolicamente, é ínfima frente ao orçamento global do clube.

Isso não invalida o debate sobre o papel social e esportivo da instituição. Pelo contrário. Ele deveria ser ampliado. A questão central não é apenas se o Flamengo acertou ou errou ao encerrar determinados projetos, mas por que o esporte olímpico brasileiro permanece refém de um modelo que oferece pouca visibilidade, quase nenhum retorno comercial e cobertura seletiva da mídia. Criticar o clube sem questionar esse ecossistema resulta em uma análise incompleta.

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Há, ainda, um ponto que merece atenção. A mesma imprensa que cobra manutenção de modalidades raramente dedica espaço contínuo a elas. O remo paralímpico do Flamengo foi uma potência esportiva durante anos. Quantas colunas, reportagens ou manchetes destacaram essas conquistas antes do encerramento do projeto? O silêncio foi quase absoluto. A modalidade só ganhou holofote quando virou pauta de corte e polêmica.

O Flamengo, como qualquer instituição de grande porte, deve ser cobrado por transparência, ética e coerência. Se houver desvio de conduta, ilegalidade ou abandono da formação esportiva, a crítica é não apenas legítima, mas necessária. O que empobrece o debate é transformar o clube em bode expiatório de um sistema que marginaliza o esporte olímpico desde sempre.

Enquanto não houver valorização consistente dos direitos de transmissão, reconhecimento dos clubes formadores e presença regular na mídia, o investimento seguirá frágil. E isso não vale apenas para o Flamengo. Vale para todo o esporte olímpico nacional. Reduzir a discussão a um corte específico é confortável, mas não resolve o problema. O debate, como o próprio esporte, é mais profundo.

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Tulio Rodrigues

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