Mudança fiscal pode custar R$ 728 milhões ao Flamengo e comprometer esportes olímpicos no Brasil
O debate sobre a retirada de incentivos fiscais aos clubes associativos ganhou contornos mais concretos quando o Flamengo resolveu colocar números sobre a mesa. Em pronunciamento nesta segunda (2), o presidente rubro-negro, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, detalhou o impacto direto das recentes mudanças no marco fiscal e alertou para um efeito em cadeia que pode comprometer não apenas o futebol profissional, mas toda a estrutura esportiva mantida por clubes sociais sem fins lucrativos no Brasil.
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A fala ocorre em um momento de replanejamento das contas públicas e de endurecimento das regras fiscais. O problema, segundo o dirigente, está na assimetria criada entre associações esportivas tradicionais e as SAFs. Enquanto clubes como o Flamengo podem chegar a uma carga tributária de até 11%, sociedades anônimas do futebol seguem operando com incidência próxima de 6%, mesmo tendo finalidade declaradamente lucrativa.
O ponto central da crítica não é corporativo, tampouco restrito ao Flamengo. Trata-se de um alerta sobre o modelo esportivo brasileiro. O clube da Gávea mantém hoje 11 modalidades olímpicas, abriga mais de 1.100 atletas e investe cerca de 70 milhões de reais por ano em esportes que não geram retorno financeiro direto. Ainda assim, arrecada algo em torno de 24 a 25 milhões via incentivos fiscais. A diferença, aproximadamente 46 milhões anuais, sai do próprio caixa do clube.
Ao longo dos próximos sete anos, esse desequilíbrio pode representar um custo adicional próximo de 728 milhões de reais. Não é uma projeção abstrata. É matemática básica aplicada a um modelo que passa a penalizar justamente quem sustenta formação, inclusão social e resultados esportivos internacionais.
Bap lembra que o Flamengo é um dos maiores medalhistas olímpicos do país, líder histórico em Jogos Pan-Americanos e referência na formação de atletas. Esse papel não surgiu por acaso. Ele é fruto de décadas de investimento contínuo, feito mesmo quando o futebol era a única fonte real de receita. O risco agora é simples: se manter 11 atividades deficitárias se torna mais oneroso do que encerrar todas elas, o sistema empurra os clubes para a decisão errada.
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Há ainda um efeito colateral perigoso. Ao igualar, do ponto de vista fiscal, uma associação sem fins lucrativos a uma SAF, o poder público cria um incentivo perverso. Torna-se mais vantajoso transformar clubes em empresas, investir fora do país ou abandonar projetos sociais e olímpicos. Não por convicção esportiva, mas por sobrevivência financeira.
O presidente foi explícito ao afirmar que não acredita haver intenção deliberada do Congresso ou do Executivo em desmontar o esporte brasileiro. O problema está na consequência prática da decisão. Retirar deduções fiscais não resolve o déficit público, mas corrói um ecossistema inteiro. O impacto arrecadatório é irrelevante para o Estado, mas devastador para clubes que operam no limite.
A comparação feita durante o pronunciamento é dura, mas didática. Tirar recursos do esporte para ajustar contas públicas é como recolher as moedas de quem já tem pouco, sem que isso resolva a dívida maior. O resultado é apenas ampliar o dano social.
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Por isso, o Flamengo defende a construção de um novo marco legal que reconheça de forma definitiva a natureza não lucrativa dos clubes associativos. Não como privilégio, mas como reconhecimento de função social. A campanha “Amigos do Esporte”, lançada pelo clube, busca ampliar esse debate em um ano eleitoral, chamando atenção para candidatos comprometidos com políticas públicas voltadas à formação esportiva.
Se até o clube com maior saúde financeira do país admite que sofrerá fortemente com esse modelo, a pergunta inevitável recai sobre os demais. Pinheiros, Minas, Sogipa, Praia Clube, Corinthians e tantos outros terão ainda menos margem para absorver perdas. O risco não é teórico. Ele é estrutural.
No fim, a questão extrapola o Flamengo. Está em jogo a sobrevivência de um modelo que formou atletas, construiu identidades esportivas e projetou o Brasil no cenário internacional. Ignorar isso é aceitar, por omissão, a redução do esporte a um negócio de curto prazo, desconectado de sua função social.
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