A conquista do Corinthians na Copa do Brasil, de 2025 abriu uma janela curiosa para observar não apenas o campo, mas sobretudo o discurso que se constrói fora dele. Em São Paulo, no Maracanã e nas mesas redondas, o título foi apresentado como prova de uma suposta excepcionalidade corintiana, quase uma virtude mística capaz de superar dívidas bilionárias, transfer bans, salários atrasados e uma crise política que incluiu impeachment presidencial. A quem acompanhou a temporada com um mínimo de atenção, essa narrativa pede freio, contexto e memória histórica.
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O Corinthians venceu a Copa do Brasil por mérito esportivo. Isso precisa estar claro desde o início. Comissão técnica, jogadores e Dorival Júnior entregaram uma campanha eficiente, pragmática e competitiva. O problema começa quando o triunfo é deslocado do campo para servir como atestado de saúde institucional. Não é. Nunca foi. Nem no Corinthians, nem em clube algum.
A ideia de que “só o Corinthians” consegue ganhar títulos em meio ao caos ignora fatos básicos do futebol brasileiro recente. Em 2009, por exemplo, o Flamengo venceu o Campeonato Brasileiro e o Carioca vivendo uma penúria financeira extrema. Não havia dinheiro para despesas básicas, havia penhoras recorrentes e salários atrasados. A famosa frase “acabou o dinheiro”, dita por Márcio Braga, não foi metáfora, foi diagnóstico. Ainda assim, aquele time foi campeão. Não por planejamento, mas por uma conjunção improvável de fatores esportivos, contexto emocional e talento individual, com Petkovic, Adriano e Andrade como símbolos de um ano fora da curva.
Antes disso, em 2006, o próprio Flamengo conquistou a Copa do Brasil após uma sequência de crises políticas que começaram no início da década, passaram por impeachment presidencial, mandato tampão e anos flertando com o rebaixamento. Em 2012, o Palmeiras foi campeão da Copa do Brasil e, no mesmo ano, caiu para a Série B. São exemplos suficientes para desmontar a tese de exclusividade.
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Quando comentaristas como Fábio Sormani afirmam que qualquer clube, na situação do clube paulista, estaria condenado ao rebaixamento, enquanto o Corinthians não apenas resiste como vence, o discurso deixa de ser análise e passa a ser mitologia. O Santos terminou o Campeonato Brasileiro à frente, por exemplo. O Corinthians só conseguiu priorizar a Copa do Brasil depois de se livrar matematicamente da ameaça de queda. Esses dados não diminuem o título, mas desmontam a aura de invencibilidade simbólica.
Há um ponto ainda mais delicado. Glamourizar a má gestão como se fosse virtude é perigoso para o próprio clube. Quando se transforma dívida, desorganização administrativa e investigações em pano de fundo heroico, o recado implícito é claro: não há urgência em corrigir rotas. O título vira álibi. A vitória, escudo. E isso cobra seu preço no médio prazo.
A história mostra que títulos conquistados em meio ao caos raramente deixam legado estrutural. O Flamengo de 2009 é um exemplo cristalino. No ano seguinte, brigou novamente contra o rebaixamento. A situação financeira seguiu crítica. O presidente campeão perdeu a eleição. O clube só iniciou um processo real de reconstrução anos depois, em 2013, quando trocou a lógica do improviso pela do saneamento. O Corinthians, hoje, corre o risco de repetir o erro se confundir exceção esportiva com regra administrativa.
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É nesse ponto que o jornalismo precisa ser mais responsável. Não se trata de tirar mérito do Corinthians, nem de diminuir a festa da torcida. Trata-se de não vender ilusão como virtude. O futebol já produz emoção suficiente por conta própria. Não precisa de romantização da irresponsabilidade.
No fim, a pergunta que fica não é sobre o passado recente, mas sobre o amanhã. Qual legado esse título deixa para o Corinthians fora das páginas de história e das taças na galeria? Se a resposta for apenas memória e euforia, o preço virá. O futebol sempre cobra.
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Por Tulio Rodrigues (@PoetaTulio)
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