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O dia em que o Flamengo entrou nas igrejas, terreiros e centos espíritas; histórias impressionantes

O dia em que o Flamengo entrou nas igrejas, terreiros e centos espíritas; histórias impressionantes

O Flamengo costuma ser associado a multidões, títulos, ídolos e manifestações populares espalhadas por todo o território nacional. No entanto, uma das vertentes mais curiosas da história rubro-negra permanece praticamente desconhecida da maioria dos torcedores. Durante entrevista concedida à Brabo TV, o pesquisador Paulo Tinoco revelou detalhes de um amplo levantamento que será publicado no segundo volume do livro “Flamengo, o Fenômeno Nacional” e que investiga a presença do clube em diferentes manifestações religiosas ao longo de mais de um século.


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A conversa foi conduzida por Rafael Penido, Tulio Rodrigues e Cristiano Oliveira e trouxe à tona episódios que ajudam a explicar por que o Flamengo ultrapassou há muito tempo a condição de simples clube esportivo. Segundo Tinoco, a pesquisa identificou referências rubro-negras em igrejas católicas, centros espíritas, terreiros de umbanda e candomblé, músicas religiosas e até em narrativas associadas ao universo espiritual brasileiro.

O tema não integra o primeiro volume da obra por uma questão de espaço. Com mais de 500 páginas e centenas de imagens, o livro precisou concentrar-se em outros aspectos da trajetória rubro-negra. Ainda assim, a quantidade de material reunido foi suficiente para justificar um capítulo exclusivo no volume seguinte.

O Flamengo de São Judas Tadeu

Um dos relatos mais interessantes apresentados por Tinoco remonta aos anos 1950, período do histórico tricampeonato carioca conquistado pelo Flamengo em 1953, 1954 e 1955.

Segundo o pesquisador, o Padre Góes, ligado à Igreja de São Judas Tadeu, promovia celebrações em homenagem ao clube. Após conquistas importantes, jogadores, dirigentes e integrantes do elenco participavam das cerimônias religiosas. O vínculo era tão forte que existem registros fotográficos da presença do sacerdote ao lado da equipe campeã de 1955. Além disso, símbolos rubro-negros faziam parte daquele ambiente de devoção e celebração popular.

O episódio ajuda a compreender como o Flamengo já ocupava, naquela época, um espaço singular no imaginário coletivo carioca. Mais do que uma equipe vencedora, tornava-se um elemento capaz de reunir fé, identidade e pertencimento social.

Exu é Flamengo

Outro capítulo curioso citado por Tinoco envolve Dona Calcilda de Assis, figura bastante conhecida no cenário espiritual brasileiro durante as décadas de 1970 e 1980.

Frequentado por artistas, políticos e personalidades públicas, o Centro Espírita Santíssimo recebia centenas de visitantes. De acordo com a pesquisa, o Exu Seu Sete da Lira, incorporado em Dona Cacilda de Assis, declarava-se torcedor do Flamengo e chegou a inspirar uma composição musical chamada “Exu é Flamengo“, posteriormente gravada em disco. O próprio pesquisador afirma possuir um exemplar desse registro histórico.

Durante entrevistas realizadas para a obra, Tinoco ouviu relatos de pessoas ligadas ao centro espiritual que confirmaram outro detalhe simbólico: em determinadas cerimônias, o hino do Flamengo era executado pelos músicos responsáveis pelo acompanhamento das sessões religiosas.

Independentemente da crença de cada indivíduo, o episódio demonstra como a identidade rubro-negra encontrou espaço em manifestações culturais e espirituais muito além dos estádios.

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Flamengo no espiritismo brasileiro

A pesquisa também aborda uma das histórias mais intrigantes envolvendo o clube.

Tinoco menciona a existência de uma corrente interpretativa segundo a qual Faustino Esposel, ex-presidente do Flamengo, teria sido a inspiração para a construção da figura espiritual conhecida como André Luiz, personagem central da obra psicografada atribuída a Chico Xavier. O pesquisador não apresenta a hipótese como fato consumado, mas registra a existência dessa versão dentro do universo espírita brasileiro.

O simples fato de o nome de um dirigente rubro-negro surgir em uma narrativa desse porte mostra o alcance social alcançado pelo Flamengo ao longo de sua trajetória.

Das igrejas aos terreiros

Outro aspecto destacado pelo autor é a quantidade de músicas religiosas que mencionam o clube em suas letras.

Segundo Tinoco, foram identificadas referências ao Flamengo em composições ligadas tanto ao ambiente católico quanto ao universo evangélico e afro-brasileiro. Essa multiplicidade reforça uma característica que acompanha o clube desde o início do século XX: sua capacidade de dialogar com públicos de origens sociais, culturais e religiosas completamente distintas.

Poucos símbolos nacionais conseguem atravessar tantas fronteiras de maneira simultânea. O Flamengo aparece nas arquibancadas, nas ruas, na música, na literatura, no cinema e, segundo a pesquisa apresentada, também ocupa um espaço singular dentro das manifestações religiosas brasileiras.

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Um fenômeno além do futebol

Ao longo da entrevista, Paulo Tinoco deixou claro que seu objetivo não é discutir crenças ou validar interpretações espirituais específicas. O foco da pesquisa está na documentação histórica de fatos, registros, depoimentos e manifestações culturais que demonstram como o Flamengo foi incorporado por diferentes segmentos da sociedade brasileira ao longo das décadas.

A relevância do tema está justamente nesse aspecto. Quando um clube aparece em missas comemorativas, inspira músicas religiosas, frequenta centros espíritas, surge em relatos de médiuns e é citado por diferentes tradições de fé, ele ultrapassa os limites convencionais do esporte.

É exatamente essa dimensão que Paulo Tinoco procura demonstrar em sua obra. O Flamengo não se tornou um fenômeno nacional apenas por acumular títulos ou reunir multidões. Sua força está na capacidade de se integrar à cultura brasileira em praticamente todas as suas manifestações.

A pesquisa sobre religião talvez seja uma das evidências mais contundentes dessa característica. Afinal, poucos clubes do mundo podem afirmar que sua história passou simultaneamente por igrejas, terreiros, centros espíritas e manifestações populares espalhadas por gerações de torcedores. Para Tinoco, essa é apenas mais uma prova de que compreender o Flamengo exige olhar muito além das quatro linhas.

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