“O presidente do Flamengo pode muito, mas não pode tudo”: Bap detalha Emenda do Profissionalismo e explica como pretende blindar o clube

“O presidente do Flamengo pode muito, mas não pode tudo”: Bap detalha Emenda do Profissionalismo e explica como pretende blindar o clube
Imagem: Reprodução / Flamengo TV

A modernização do Estatuto do Flamengo ganhou novos contornos durante a reunião de prestação de contas realizada na Gávea, nesta quarta (17). Diante de conselheiros e associados, o presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, apresentou os fundamentos da chamada Emenda do Profissionalismo, proposta que pretende transformar em regra permanente práticas de gestão adotadas pelo clube ao longo dos últimos anos. A iniciativa surge em um momento de crescimento institucional e busca criar mecanismos capazes de preservar o modelo associativo, profissionalizar ainda mais a administração e reduzir a dependência das decisões individuais de futuros presidentes.


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Ao longo da apresentação, Bap procurou afastar a ideia de que a proposta representa concentração de poder ou mudança na natureza jurídica do clube. Pelo contrário. O dirigente sustentou que a emenda foi concebida justamente para limitar poderes presidenciais, fortalecer órgãos de fiscalização e criar barreiras contra eventuais gestões consideradas irresponsáveis ou temerárias.

O debate não acontece por acaso. Desde 2013, o Flamengo atravessou um processo de recuperação financeira e reorganização administrativa que transformou o clube em uma das instituições esportivas mais sólidas do país. Para Bap, porém, parte desse sucesso ainda depende da visão dos dirigentes que ocupam temporariamente os cargos de comando. O desafio agora seria transformar boas práticas em obrigações estatutárias permanentes.

A preocupação com o futuro do modelo associativo

Durante sua exposição, o presidente afirmou que o futebol mundial vive um cenário de profundas transformações, marcado pela expansão das SAFs e pela entrada de grandes investidores no esporte. Segundo ele, o Flamengo precisa estar preparado para enfrentar essa realidade sem abrir mão do controle associativo que caracteriza a instituição.

Bap citou que o clube não pode ignorar a movimentação financeira observada em diversos mercados do futebol, nem o surgimento de concorrentes impulsionados por aportes milionários. Ao mesmo tempo, defendeu que o Flamengo possui condições de competir mantendo sua estrutura atual, desde que consiga institucionalizar mecanismos modernos de governança.

A principal preocupação apresentada foi a ausência de dispositivos estatutários capazes de impedir que futuras administrações abandonem práticas responsáveis de gestão. Segundo o dirigente, o estatuto atual não obriga a profissionalização da administração, tampouco cria barreiras eficazes contra decisões que possam comprometer a estabilidade financeira construída ao longo da última década.

O poder presidencial no centro da discussão

Um dos pontos mais destacados da apresentação foi a concentração de atribuições na figura do presidente.

Bap afirmou que o modelo vigente concede poderes amplos ao ocupante do cargo, permitindo decisões praticamente monocráticas em diversos setores da administração. Em tom didático, chegou a comparar a eleição presidencial do clube à escolha de um “imperador“, destacando que a caneta presidencial pode produzir grandes avanços, mas também causar danos significativos caso seja utilizada de forma inadequada.

A emenda propõe justamente uma redistribuição dessas competências. Pela nova estrutura, decisões estratégicas passariam a depender de mecanismos de validação e fiscalização por parte de órgãos colegiados, especialmente o novo Conselho Gestor e o Conselho de Administração.

Segundo o material apresentado, o presidente continuaria exercendo papel central na condução institucional do clube, mas deixaria de possuir autonomia absoluta em diversas decisões executivas.

Os principais pilares da emenda

A proposta apresentada durante a reunião está estruturada em alguns eixos centrais.

O primeiro deles é a criação definitiva de uma diretoria profissional. Na prática, a execução administrativa deixaria de depender de vice-presidentes amadores e passaria a ser conduzida por executivos dedicados exclusivamente às suas áreas de atuação. Outro ponto relevante envolve a criação de políticas corporativas obrigatórias. Essas normas passariam a ser auditáveis e aprovadas pelos órgãos de governança, criando parâmetros permanentes para a administração do clube.

A proposta também prevê uma barreira política para cargos profissionais. O objetivo é impedir que funções técnicas sejam preenchidas apenas por critérios de afinidade política, priorizando qualificação, experiência e competência comprovada. Além disso, a emenda estabelece metas de longo prazo obrigatórias. Planos trienais e projeções de cinco anos passariam a fazer parte da estrutura formal de gestão, permitindo maior previsibilidade e acompanhamento por parte dos conselheiros e associados.

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Conselho Gestor ganha protagonismo

Outro aspecto importante da proposta é o fortalecimento dos órgãos colegiados.

De acordo com Bap, o novo Conselho Gestor teria a responsabilidade de aprovar propostas estratégicas, acompanhar a execução dos projetos e fiscalizar a atuação da diretoria profissional. A intenção é criar um sistema de freios e contrapesos capaz de reduzir a dependência de decisões individuais.

O dirigente argumentou que, atualmente, muitas escolhas dependem exclusivamente da vontade presidencial. Com a nova estrutura, a permanência de profissionais, a validação de projetos e a supervisão das metas passariam a contar com participação mais ampla de outros dirigentes e conselheiros.

A proposta também preserva as atribuições dos órgãos estatutários já existentes. Segundo a apresentação, não há retirada de competências dos conselhos, mas sim ampliação dos instrumentos de fiscalização e controle.

Blindagem contra futuras mudanças de rumo

Um dos argumentos mais recorrentes durante a exposição foi a necessidade de proteger o Flamengo contra eventuais retrocessos administrativos.

Bap ressaltou que o clube cresceu significativamente nos últimos anos. Segundo ele, o Flamengo passou de aproximadamente 100 funcionários para mais de 620 colaboradores, ampliando sua estrutura sem comprometer o equilíbrio financeiro. O presidente afirmou ainda que o aumento das despesas ocorreu em ritmo inferior à inflação do período, mesmo com a contratação de profissionais especializados para diversas áreas.

Para o dirigente, esse modelo não pode depender exclusivamente da boa vontade ou da competência de quem estiver ocupando a presidência no futuro. A proposta busca justamente criar uma estrutura capaz de sobreviver às mudanças de gestão e preservar princípios que vêm sendo aplicados desde a recuperação financeira iniciada em 2013.

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A relação com as SAFs

Embora o tema tenha aparecido diversas vezes durante a apresentação, Bap procurou enfatizar que a emenda não representa uma preparação para transformar o Flamengo em SAF.

Pelo contrário. Segundo o presidente, a intenção é utilizar mecanismos modernos de governança normalmente associados ao ambiente corporativo sem abrir mão da estrutura associativa. A avaliação é que o clube pode absorver práticas eficientes do mercado privado sem transferir o controle da instituição para investidores externos.

O dirigente revelou, inclusive, ter sido procurado recentemente por um bilionário norte-americano interessado em conhecer melhor o Flamengo. Para ele, situações desse tipo tendem a se tornar mais frequentes à medida que o clube aumenta sua relevância internacional. Justamente por isso, argumentou, torna-se necessário fortalecer instrumentos capazes de preservar a autonomia institucional da agremiação.

Ao final da apresentação, a mensagem central ficou clara. A Emenda do Profissionalismo não foi apresentada como uma ruptura com o modelo atual, mas como uma tentativa de transformar em norma permanente aquilo que sucessivas administrações implementaram ao longo dos últimos treze anos. Na visão da diretoria, a profissionalização deixa de ser uma escolha circunstancial de cada presidente e passa a integrar a própria estrutura institucional do Flamengo.

Se aprovada, a proposta criará um conjunto de mecanismos voltados à governança, transparência, fiscalização e planejamento estratégico. Mais do que discutir nomes ou mandatos específicos, o debate passa a girar em torno da capacidade do clube de construir salvaguardas permanentes para um modelo que pretende combinar profissionalismo, controle associativo e sustentabilidade de longo prazo. Em outras palavras, a discussão não se resume ao presente. Ela trata de como o Flamengo pretende se organizar para enfrentar as próximas décadas sem abrir mão daquilo que considera seus principais ativos: a participação dos sócios, a independência institucional e a continuidade de uma gestão cada vez mais profissional.

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