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Padronização de gramados vira debate raso, e Flamengo expõe desconhecimento estrutural da imprensa paulista

Padronização de gramados vira debate raso, e Flamengo expõe desconhecimento estrutural da imprensa paulista

O debate sobre gramados no futebol brasileiro voltou ao centro da cena em 2025, impulsionado por falas de jogadores, discussões em mesas redondas e, sobretudo, por uma evidente confusão conceitual entre ser contra o gramado sintético e defender a padronização dos campos. O tema ganhou nova camada quando programas esportivos passaram a tratar como liderança política aquilo que, na prática, foi apenas participação técnica de clubes por convite da CBF. Nesse ruído, um ponto central acabou soterrado: o desconhecimento generalizado sobre o que, de fato, está sendo discutido.


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A CBF, ao longo da temporada, abriu diálogo com os clubes para construir parâmetros mínimos de qualidade para os gramados. A iniciativa surgiu após sucessivas reclamações de atletas, entre eles Neymar, que criticou abertamente o impacto do piso artificial no jogo, e técnicos como Fernando Diniz e Abel Ferreira, que relacionaram desempenho e condições do campo. A CBF solicitou contribuições formais. Alguns clubes ignoraram. Outros responderam de forma protocolar. O Flamengo enviou um estudo técnico de 25 páginas, detalhando critérios de fiscalização, padronização de altura da grama, irrigação, temperatura de superfície e impacto na dinâmica da partida.

Ainda assim, parte da imprensa tratou o episódio como se o clube carioca tivesse “liderado um movimento” para banir o sintético, o que não corresponde aos fatos. O pedido formal não foi pelo fim imediato desse tipo de gramado, mas pela criação de regras claras, fiscalização contínua e parâmetros mínimos que garantam qualidade do espetáculo. A diferença é fundamental, mas frequentemente ignorada em análises superficiais.

Essa confusão ficou evidente em debates recentes, quando comentaristas misturaram críticas pontuais de jogadores a uma discussão estrutural mais ampla. Em um mesmo bloco, falava-se de pênaltis, arbitragem e gramado sintético como se fossem temas equivalentes, diluindo o foco. Em outro momento, resgatou-se o argumento recorrente de que “sempre foi assim”, evocando campos esburacados das décadas de 1960 e 1970 para relativizar a discussão atual. A comparação, além de anacrônica, ignora avanços médicos, científicos e comerciais que transformaram o futebol em um produto globalizado.

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A linha do tempo desmonta essa retórica. O gramado sintético do Allianz Parque foi instalado em 2020 com promessa de durabilidade e alto padrão. Em 2023, já era alvo de críticas públicas. O Palmeiras rompeu contrato com a empresa responsável pela manutenção, reconhecendo problemas técnicos. Abel Ferreira classificou o campo como ruim em mais de uma entrevista. Jogadores admitiram dificuldade de adaptação. Programas esportivos o apontaram como um dos piores entre os sintéticos do país. Nada disso surgiu agora.

O que muda em 2025 é a tentativa de organizar o debate em torno de critérios objetivos. Padronização não significa ignorar diferenças climáticas ou geográficas, argumento frequentemente usado para defender a inércia. Países com variações extremas de temperatura e umidade conseguem manter gramados de alto nível porque adotam tecnologia, fiscalização e investimento contínuo. A Espanha, citada em debates recentes, mede altura da grama, controla irrigação e aplica punições quando padrões não são cumpridos. Não se trata de copiar modelos, mas de compreender princípios.

No Brasil, a resistência à padronização costuma vir acompanhada de interesses comerciais. Estádios multiuso priorizam shows, eventos e ativações que comprometem o campo. A própria CBF já sinalizou que, a partir de 2026, não haverá remanejamento de datas por causa de espetáculos. Quem optar por esse modelo terá de lidar com as consequências. O que não pode é transferir o custo dessa escolha para o jogo, os atletas e o público.

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O argumento de que padronizar é impossível serve mais para preservar o status quo do que para qualificar o futebol. A discussão não é saudosista nem ideológica. É técnica. E, nesse ponto, o desconhecimento exposto em parte da cobertura revela mais sobre a fragilidade do debate público do que sobre o mérito da proposta. O futebol brasileiro não perde por discutir gramados. Perde quando prefere simplificar um tema complexo para não enfrentar escolhas incômodas.

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Por Tulio Rodrigues (@PoetaTulio)

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