Paquetá no Flamengo e o jornalismo seletivo: por que a imprensa de SP insiste em diminuir a contratação

Paquetá no Flamengo e o jornalismo seletivo: por que a imprensa de SP insiste em diminuir a contratação

O debate em torno da possível contratação de Lucas Paquetá pelo Flamengo escancarou, mais uma vez, uma distorção recorrente no tratamento dado ao clube por parte de setores relevantes da imprensa paulista. O que se viu nos últimos dias, sobretudo em programas esportivos de alcance nacional, foi menos uma análise técnica consistente e mais um esforço contínuo para reduzir o peso esportivo, simbólico e histórico de um jogador formado no Ninho do Urubu que construiu carreira sólida na Europa e na seleção brasileira.


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O ponto de partida é simples. O Flamengo negocia o retorno de um atleta de 28 anos, titular em Copa do Mundo, com passagem relevante por Milan, Lyon e na Premier League, que esteve a poucos passos de um acordo com o Manchester City antes de um processo disciplinar que sequer avançou por falta de provas. Ainda assim, parte da mídia passou a tratar Paquetá como um nome superestimado, inflado por marketing e incapaz de elevar o nível do elenco rubro-negro. A pergunta que se impõe não é sobre discordâncias técnicas, legítimas no futebol, mas sobre o padrão narrativo que se repete sempre que o Flamengo entra em cena.

A comparação insistente com Gerson ajuda a entender o fenômeno. Gerson é um ótimo jogador, multicampeão no Flamengo, peça central em temporadas históricas. Isso não está em discussão. O problema começa quando a análise abandona critérios objetivos e passa a operar no campo da conveniência. Paquetá é tratado como inferior não por suas atuações, mas por não carregar o mesmo pacote de títulos coletivos, ignorando contextos distintos de carreira, clubes, ligas e funções exercidas em campo. Títulos, nesse caso, viram argumento absoluto, enquanto desempenho individual, versatilidade tática e nível de competição são relativizados ou descartados.

Em programas recentes, analistas chegaram a afirmar que Paquetá “não mudaria o patamar do Flamengo” e que sua chegada teria mais impacto midiático do que prático. Curiosamente, o mesmo raciocínio raramente aparece quando jogadores com currículo inferior, mas vinculados a clubes paulistas, são colocados no centro do debate. A régua muda conforme a camisa. Quando o Flamengo contrata, o discurso tende a ser de cautela extrema, quase desconfiança moral. Quando outros clubes fazem movimentos semelhantes ou até menos ambiciosos, a narrativa se inclina ao entusiasmo e à aposta no potencial.

Há também uma leitura tática empobrecida que se repete. Reduzir Paquetá à função de “reserva do Arrascaeta” ignora a dinâmica real do futebol moderno e do próprio elenco rubro-negro. O jogador atua como meia central, segundo homem de meio, meia aberto e já exerceu até funções mais avançadas em contextos específicos. A temporada brasileira é longa, exige rotação, adaptação a adversários distintos e variação de desenho tático. Tratar o debate como se apenas uma vaga estivesse em disputa revela mais preguiça analítica do que convicção técnica.

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Outro ponto recorrente é a evocação seletiva do episódio das apostas na Inglaterra. Sempre que o nome de Paquetá surge, o caso reaparece, mesmo sem desdobramentos jurídicos concretos. Não houve condenação, não houve provas suficientes para sustentar a acusação, mas a sombra permanece convenientemente acionada para enfraquecer a imagem do atleta. O ônus da prova, princípio básico em qualquer análise minimamente séria, parece não valer quando o personagem em questão veste rubro-negro.

Esse padrão não se limita a Paquetá. Ele se insere em um contexto mais amplo de tratamento enviesado ao Flamengo, que vai da cobertura sobre a Libra às análises de mercado, passando pela leitura de desempenho em campo. Movimentos institucionais do clube raramente recebem a mesma profundidade ou reconhecimento. Contratações são vistas como exageradas, jogadores como superestimados, vitórias como obrigação e derrotas como crises morais.

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Ao fim, a discussão deixa de ser sobre quem joga mais ou menos bola e passa a revelar algo mais estrutural. Existe um desconforto persistente com o protagonismo do Flamengo. Um incômodo que se traduz em narrativas que diminuem, relativizam ou ironizam qualquer tentativa do clube de se fortalecer esportiva ou politicamente. Paquetá, nesse cenário, não é causa, mas sintoma. O debate sobre sua volta escancara menos o jogador que ele é e mais o jornalismo que escolhe ser feito.

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