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Péssimo jornalismo! O império de Fabrizio Romano começou a desmoronar? Entenda as graves acusações

Péssimo jornalismo! O império de Fabrizio Romano começou a desmoronar? Entenda as graves acusações

Fabrizio Romano construiu uma das maiores marcas individuais do jornalismo esportivo mundial ao transformar três palavras — “Here We Go” — em sinônimo de transferência concluída. A mesma estrutura que o levou a reunir mais de 100 milhões de seguidores nas diferentes plataformas, porém, passou a ser questionada por jornalistas, clubes, agentes e comunidades de torcedores. Uma extensa reportagem de Ian Herbert, publicada pelo Daily Mail, reúne episódios que colocam sob análise o método do italiano: negócios anunciados antes do fechamento, informações divulgadas sem ouvir todas as partes, repetição massiva de conteúdos, conflitos públicos com colegas, proximidade comercial com fontes e publicidade envolvendo a Arábia Saudita.


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O problema levantado pela reportagem não está simplesmente em Fabrizio Romano errar transferências. Qualquer jornalista que trabalhe com negociações sujeitas a mudanças pode publicar informações que não se confirmem. A discussão é mais profunda: até que ponto o modelo criado por Romano continua separando jornalismo, influência, promoção e interesse comercial?

A pergunta ganhou dimensão porque sua audiência deixou de funcionar apenas como público. Para empresários, jogadores, dirigentes e intermediários, aparecer nas redes do italiano significa colocar uma informação diante de dezenas de milhões de pessoas instantaneamente. Nesse estágio, ele não é somente alguém que cobre o mercado; potencialmente passa a integrar o próprio ambiente que influencia.

Informação publicada antes da checagem completa

A reportagem começa com um caso emblemático. Romano afirmou que um jogador de destaque da Premier League definitivamente deixaria seu clube. Os representantes do atleta entraram em contato para dizer que a informação não procedia e que, até aquele momento, não havia sequer discussão entre jogador e equipe sobre uma saída.

A resposta atribuída ao italiano ajuda a explicar a crítica central: o clube havia fornecido aquela versão, portanto ele seguiria com ela. Isso significa que uma das partes envolvidas era tratada como suficiente para sustentar publicamente uma afirmação conclusiva, mesmo diante da negativa do outro lado.

É aqui que o modelo oferece uma vantagem peculiar. Se aquela transferência acontecer meses depois, Romano poderá apontar a publicação inicial como demonstração de que sabia antes de todos. Caso o negócio não se concretize, o erro tende a desaparecer no meio de centenas ou milhares de outros posts produzidos durante a janela.

A quantidade, portanto, não serve apenas para gerar audiência. Ela também dificulta que o público mantenha memória dos equívocos.

O “Here We Go” antes da hora e a briga com Plettenberg

Um dos confrontos mais recentes envolveu Florian Plettenberg. O jornalista alemão questionou Romano por publicar um “Here We Go” para a transferência de Yan Diomande ao Real Madrid quando, segundo ele e os representantes do atleta, ainda existiam questões contratuais pendentes.

A crítica era objetiva: uma negociação bastante provável teria sido transformada em certeza para produzir a percepção de que Romano chegara primeiro à notícia. Os agentes do jogador também teriam afirmado reservadamente que os termos ainda não estavam totalmente acertados.

Em vez de responder apenas com elementos da apuração, Romano tornou o confronto pessoal. Divulgou mensagens privadas nas quais Plettenberg havia lhe pedido conselhos sobre crescimento nas redes sociais e elogiado seu trabalho. O alemão, por sua vez, recuperou exemplos de negociações anunciadas pelo italiano que não se concretizaram e acusou-o de apagar publicações equivocadas.

A diferença de audiência transformou a discussão. Plettenberg recebeu uma avalanche de ataques, enquanto o ponto originalmente levantado — se o negócio realmente estava fechado quando o “Here We Go” foi publicado — perdeu espaço para a guerra entre os dois jornalistas.

Esse comportamento também evidencia uma relação de poder. Quando um profissional com dezenas de milhões de seguidores expõe um crítico, a discussão deixa de acontecer em condições minimamente equilibradas. A massa de seguidores pode acabar funcionando como ferramenta de intimidação, mesmo que não exista uma ordem explícita para atacar ninguém.

Negócios fechados que não estavam fechados

O Daily Mail também reuniu exemplos para demonstrar que não se trata de um episódio isolado. A reportagem cita uma renovação de Ibrahima Konaté com o Liverpool anunciada como concluída antes de o jogador posteriormente deixar o clube sem assinar aquele vínculo, além da ida de João Pedro ao Newcastle tratada como fato semanas antes de outro destino.

Florian Wirtz também aparece como exemplo de uma negociação que ainda precisava de aproximadamente dez dias para ser finalizada quando Romano já a tratava como concluída. Houve ainda o caso de Michael Olise, apresentado com entusiasmo como uma possível “contratação dos sonhos” do Real Madrid por € 150 milhões antes de o clube negar publicamente o interesse.

A questão não é exigir que um repórter espere o anúncio oficial. Se fosse assim, praticamente deixaria de existir jornalismo de mercado. Bons profissionais justamente antecipam negociações antes dos clubes.

O limite está em diferenciar interesse, conversa, negociação avançada, acordo encaminhado e negócio fechado. Essas expressões representam estágios diferentes. Quando todas são comprimidas numa ideia de certeza, a velocidade passa a disputar espaço com a precisão.

O volume cria uma sensação permanente de novidade

Outro pilar do sucesso de Romano está na quantidade. Ele e sua equipe chegam a produzir 100 ou mais publicações por dia, construindo uma sensação de que o mercado nunca para. Só que negociações não funcionam dessa maneira. Existem dias nos quais nenhum avanço relevante acontece. Contratos podem levar semanas para ser discutidos, empresários recuam, clubes alteram condições e jogadores mudam de ideia.

Para manter a máquina funcionando, a mesma história pode receber sucessivas “atualizações” sem que exista uma novidade proporcional. Segundo a reportagem, Romano publicou 13 vezes sobre uma única transferência entre a primeira informação e o anúncio definitivo. É uma lógica reconhecível também no Brasil. Uma sondagem vira interesse; o interesse se transforma em negociação; a ausência de novidade produz uma publicação afirmando que “as conversas seguem”; depois aparece um “negócio avançando”. Muitas vezes, o fato concreto praticamente não mudou.

O mercado deixa de ser apenas cobertura jornalística e passa a funcionar como novela permanente, na qual é preciso entregar um novo capítulo mesmo quando a história ficou parada.

Reddit baniu conteúdo e falou em spam

O desgaste chegou ao r/soccer, uma das maiores comunidades de futebol do Reddit, com milhões de integrantes. Inicialmente, os moderadores decidiram restringir publicações de Romano às verdadeiras exclusivas para diminuir aquilo que classificaram como excesso de exposição.

Entre as justificativas estavam acusações de que ele reproduziria conteúdo originalmente publicado por outros jornalistas e a percepção de que boa parte das postagens havia se afastado das informações exclusivas para se tornar uma sequência de “não atualizações”. Posteriormente, o conteúdo de Romano foi completamente banido da comunidade. Alguns subreddits específicos de clubes já haviam tomado decisão semelhante.

O episódio é simbólico porque Romano construiu sua força justamente dominando o ambiente digital. Quando uma comunidade gigantesca decide que aquele volume deixou de acrescentar informação e passou a funcionar como spam, surge um sinal de saturação do modelo.

Também existe uma questão sobre autoria. Num ecossistema em que Romano possui audiência muito superior à de praticamente qualquer repórter especializado, uma notícia originalmente publicada por um profissional menor pode acabar mundialmente associada ao italiano depois que ele a replica.

Quando a fonte também precisa da exposição

A proximidade com empresários é outro ponto levantado pela reportagem. Romano possui relações com grandes agentes e intermediários, pessoas que também se beneficiam diretamente de sua exposição. Fotografias de empresários ao lado de jogadores dentro de jatos particulares aparecem como exemplo dessa relação. As imagens são publicadas como exclusivas, mas simultaneamente oferecem publicidade às pessoas responsáveis pela negociação.

Essa dinâmica produz uma pergunta fundamental: quando uma fonte fornece uma informação porque precisa da audiência do jornalista, quem está utilizando quem?

Fontes interessadas sempre existiram. Dirigentes vazam informações para pressionar empresários; agentes divulgam propostas para valorizar jogadores; atletas procuram jornalistas para melhorar sua posição numa negociação. O trabalho profissional consiste justamente em reconhecer o interesse da fonte, confrontar versões e publicar aquilo que pode ser confirmado.

Quando a plataforma do repórter passa a possuir valor comercial próprio dentro dessa equação, a fronteira se torna ainda mais delicada.

Clubes também começaram a reagir

Alguns clubes passaram a demonstrar irritação pública. O Southampton chegou a brincar com Romano depois de concluir uma contratação que não havia sido antecipada por ele, utilizando a estatística “Fabrizio Tweets: 0” numa peça de divulgação.

O Atlético de Madrid foi além. Irritado com notícias sobre um possível interesse de Julián Álvarez em deixar o clube pelo Barcelona, publicou montagens de Lamine Yamal, Raphinha e Pedri vestindo sua camisa e reproduziu ironicamente o “Here We Go”. A postagem acusava uma suposta máquina ligada ao Barcelona de produzir vazamentos convenientes e notícias falsas.

Essas acusações pertencem ao Atlético e não devem ser tratadas como fatos comprovados. O relevante é perceber que um clube de primeira linha considerou necessário responder publicamente a um jornalista de mercado porque avaliava que aquela cobertura poderia interferir na narrativa sobre seu jogador.

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Christian Atsu mostra o risco além das transferências

O episódio mais grave citado pela reportagem não envolve contratação alguma. Depois do terremoto que atingiu a Turquia em fevereiro de 2023, Christian Atsu foi dado como desaparecido. Romano publicou que o jogador havia sido encontrado vivo, retirado dos escombros e levado ao hospital com dificuldades respiratórias e ferimento no pé.

A informação estava errada. Atsu havia morrido e seu corpo seria encontrado dias depois. A diferença para uma negociação esportiva é evidente. Errar o destino de um atacante produz constrangimento; divulgar equivocadamente que uma pessoa desaparecida numa tragédia está viva pode provocar sofrimento direto à família.

A reportagem cita uma investigação de Nick Harris segundo a qual o episódio causou angústia aos familiares e afirma não ter localizado um pedido público de desculpas de Romano. Nesse ponto, a discussão sobre método deixa de ser abstrata. A velocidade possui consequências.

Arábia Saudita e a fronteira entre conteúdo e publicidade

Outra controvérsia surgiu quando Romano publicou um vídeo publicitário pago no qual destacou aquilo que chamou de “papel humanitário global” da Arábia Saudita. A postagem recebeu críticas e uma nota contextual do X direcionando usuários para informações sobre direitos humanos no país.

Segundo o material, Romano não respondeu quanto teria recebido pela publicidade. A campanha coincidiu ainda com uma viagem ao país, onde encontrou Cristiano Ronaldo à beira do campo; a cena, posteriormente publicada em suas plataformas, alcançou milhões de visualizações.

Não existe problema intrínseco em um criador de conteúdo possuir patrocinadores. O conflito aparece quando alguém simultaneamente exerce função jornalística, recebe informações de agentes e clubes, comercializa audiência e produz publicidade relacionada ao mesmo universo que cobre. Nesse caso, transparência passa a ser fundamental para que o público consiga distinguir reportagem, conteúdo patrocinado, relacionamento comercial e material promocional.

A investigação mencionada na reportagem acrescenta outro elemento: uma empresa que dizia possuir vínculos com Romano teria abordado clubes noruegueses em 2022 oferecendo publicações e vídeos promocionais pagos. Um ex-dirigente do Vålerenga relatou ter recebido propostas com valores específicos. Romano, segundo o texto, não respondeu às perguntas sobre essas alegações.

Por isso, seria incorreto transformar essas acusações em fatos estabelecidos. Elas precisam ser apresentadas exatamente como estão: alegações publicadas e ainda não respondidas pelo jornalista.

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Romano admite que precisa mudar

Talvez o elemento mais significativo apareça no fim dessa história. Em publicação no LinkedIn, Romano afirmou que provavelmente não continuará trabalhando por muito mais tempo no mercado de transferências da maneira como faz atualmente.

É hora de mudar a abordagem, a visão”, escreveu, indicando que explicaria posteriormente o novo caminho.

A declaração não representa uma confissão sobre as críticas feitas ao seu trabalho, mas demonstra que o próprio criador do modelo percebe a necessidade de transformação.

E talvez aí esteja o paradoxo de Fabrizio Romano. Ele revolucionou a forma como milhões de pessoas acompanham transferências, criou uma marca própria extraordinariamente reconhecível e mostrou que um jornalista individual pode possuir audiência comparável à de grandes empresas de comunicação. Ao mesmo tempo, levou a lógica da velocidade, da repetição e da personalização da notícia a um ponto no qual começam a surgir questionamentos sobre a natureza do produto oferecido.

O debate, portanto, não precisa terminar numa tentativa simplista de decidir se Romano “é jornalista” ou “não é jornalista”. A questão relevante está no método. Um profissional pode ter contatos extraordinários, revelar grandes negócios e construir uma audiência gigantesca; nada disso elimina a necessidade de checar, contextualizar, identificar interesses das fontes e separar claramente informação de publicidade.

O “Here We Go” ganhou valor justamente porque significava certeza. Se passa a ser utilizado quando ainda existe dúvida, sua força diminui. No fim, o maior risco para o império criado por Fabrizio Romano talvez não sejam seus críticos, clubes irritados ou comunidades que decidiram bani-lo. É a própria transformação de uma marca construída sobre confiança numa máquina que precisa produzir novidade a cada minuto, inclusive quando o futebol ainda não tem novidade alguma para oferecer.

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