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Por que o Flamengo mudou sua marca? Entenda o novo projeto

Por que o Flamengo mudou sua marca? Entenda o novo projeto

Imagem: Reprodução / Site Ana Couto

Se o Flamengo terminou 2025 com uma receita operacional bruta de R$ 2,089 bilhões, ultrapassando pela primeira vez a marca de R$ 2 bilhões, e entrou em 2026 com uma das marcas esportivas mais fortes do país, a pergunta parece inevitável: por que mudar?


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A resposta passa longe de uma simples troca de logotipo. Apresentado em agosto, na Gávea, o novo projeto desenvolvido pelo Flamengo em parceria com a Ana Couto reorganiza a forma como o clube administra, apresenta e explora comercialmente sua marca. A proposta é transformar o Rubro-Negro em uma plataforma de sportainment, conceito que aproxima esporte, conteúdo, entretenimento, produtos, serviços e experiências.

Ou seja: o Flamengo não mudou sua marca porque ela deixou de funcionar. Mudou porque pretende fazer com que ela funcione em muito mais lugares.

Se a marca é tão forte, por que mudar?

Durante décadas, a marca Flamengo esteve naturalmente associada ao futebol. O escudo, as cores, a camisa, o hino, o Maracanã e os grandes jogadores formaram um conjunto reconhecido pelo torcedor e pelo mercado. O problema é que o clube cresceu em uma velocidade que tornou mais complexa a maneira de organizar todos esses ativos.

O Flamengo deixou de ser apenas uma instituição esportiva que disputa partidas. Tornou-se também produtor de conteúdo, plataforma digital, negócio de licenciamento, mídia, experiência, relacionamento e entretenimento. São diferentes iniciativas disputando espaço dentro de um mesmo ecossistema.

Foi justamente essa expansão que levou à reorganização da arquitetura de marcas. O projeto estruturou o portfólio em três grandes frentes de negócio: Esporte, Entretenimento e Legado & Formação. A intenção é definir melhor o papel de cada marca e, ao mesmo tempo, preservar a força da marca principal.

A agência Ana Couto resume a lógica como a transformação do Flamengo em uma plataforma integrada, capaz de ampliar sua relevância para além do futebol e gerar valor de maneira contínua.

O Flamengo mudou o escudo?

Não.

E essa talvez seja uma das primeiras confusões que precisam ser afastadas quando se fala em “nova marca”. O Flamengo não abandonou sua identidade histórica nem decidiu substituir aquilo que o torcedor reconhece imediatamente como Flamengo.

A mudança está principalmente no sistema que organiza a marca.

O projeto trabalha a identidade visual, a arquitetura das diferentes iniciativas e a maneira como elas se relacionam. O urubu, por exemplo, ganhou um novo tratamento dentro desse sistema, enquanto outros elementos tradicionais continuam funcionando como patrimônio visual do clube.

É uma diferença importante. Uma mudança de escudo seria uma ruptura. O que o Flamengo está fazendo é uma tentativa de organizar uma estrutura que cresceu ao longo dos anos.

O problema estava na marca ou na estrutura?

Mais na estrutura.

O projeto identificou um portfólio formado por diferentes marcas, submarcas e iniciativas que nem sempre tinham uma lógica única de apresentação. A reorganização procura reduzir essa fragmentação sem transformar tudo em uma única identidade.

Essa é uma questão fundamental para qualquer organização que cresce: quanto maior o número de produtos, serviços, plataformas e projetos, maior a necessidade de estabelecer uma arquitetura clara.

No caso do Flamengo, isso ganha uma dimensão ainda maior porque a marca principal possui uma força emocional extraordinária. O desafio não é fazer com que as pessoas conheçam o Flamengo. Elas já conhecem.

O desafio é fazer com que cada novo negócio aproveite essa força sem enfraquecê-la ou competir desnecessariamente com ela.

É nesse ponto que a estratégia deixa de ser apenas visual e passa a ser empresarial.

O recorde de receita ajuda a explicar a mudança?

Ajuda, mas não significa que uma coisa tenha provocado diretamente a outra.

O Flamengo alcançou em 2025 uma receita operacional bruta de R$ 2,089 bilhões, crescimento de 56,6% em relação ao ano anterior.

O número mostra o tamanho que o clube alcançou. Mas também expõe uma questão: até onde é possível crescer apenas com as fontes tradicionais de receita?

Televisão, patrocínios, bilheteria, premiações e venda de jogadores continuam fundamentais. O problema é que algumas dessas receitas possuem limites naturais. O estádio não pode crescer indefinidamente, os contratos de transmissão têm ciclos próprios e uma partida dura 90 minutos.

A marca, por outro lado, pode estar presente antes, durante e depois do jogo.

É essa mudança de lógica que ajuda a explicar o conceito de sportainment adotado pelo Flamengo. Em vez de pensar no torcedor apenas como alguém que assiste a uma partida, o clube quer enxergá-lo como alguém que consome informação, produtos, entretenimento, experiências e serviços relacionados ao Flamengo durante toda a semana.

E o que o Flamengo quer ganhar com isso?

Dinheiro é parte importante da resposta.

Mas não é a única.

O objetivo é aumentar a frequência e a variedade dos pontos de contato com o torcedor. Quanto mais momentos de relacionamento, maiores são as possibilidades de publicidade, patrocínio, licenciamento, venda de produtos, conteúdo próprio e experiências.

O movimento já aparece na criação do Hub Digital, que concentra diferentes serviços e pontos de relacionamento, e no Uru.Hub, estrutura voltada à produção de conteúdo. A ideia é transformar a audiência que o clube acumulou nas redes sociais em um ativo ainda mais estratégico.

A lógica é relativamente simples: se milhões de pessoas acompanham o Flamengo todos os dias, por que a relação comercial deveria depender exclusivamente do dia do jogo?

É aí que entra a campanha “Flamengo Sem Intervalo”.

O conceito resume bem a ambição do novo modelo. O Flamengo quer deixar de pensar sua presença em ciclos determinados pelo calendário esportivo e passar a ocupar continuamente a rotina do torcedor.

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O Flamengo quer ser uma empresa de mídia?

Em parte, sim.

A nova estratégia amplia o espaço destinado à produção própria de conteúdo. O clube pretende utilizar sua audiência para desenvolver documentários, filmes, projetos digitais e outras propriedades capazes de gerar valor. O Uru.Hub aparece nesse cenário como uma espécie de estrutura de produção e distribuição. A ideia, segundo a diretoria, é aproveitar a enorme base digital do Flamengo para produzir conteúdos próprios e explorar oportunidades que antes poderiam ser deixadas para terceiros.

Isso muda também a posição do clube diante do mercado. O Flamengo não quer apenas aparecer na mídia. Quer produzir mídia. Não quer apenas licenciar sua história. Quer transformar parte desse patrimônio em conteúdo. Não quer apenas vender espaço publicitário. Quer criar novos ambientes para que marcas estejam dentro do universo rubro-negro.

Então a mudança é estética ou financeira?

As duas coisas, mas a estética é consequência de uma transformação maior.

O novo sistema visual precisa acompanhar uma organização empresarial mais ampla. Se existem diferentes unidades de negócio, submarcas e plataformas, elas precisam conversar entre si. Por isso, a mudança não pode ser analisada apenas pela aparência de um logo ou pela forma como o urubu foi redesenhado.

O verdadeiro projeto está por trás da identidade. O Flamengo está tentando criar uma linguagem capaz de funcionar na camisa, nas redes sociais, em uma plataforma digital, em uma produção audiovisual, em um produto licenciado, em uma experiência para o torcedor ou em uma parceria comercial.

É uma tentativa de fazer a mesma marca caber em mais negócios sem perder aquilo que a tornou reconhecível.

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Afinal, por que o Flamengo mudou sua marca?

Porque o clube cresceu.

E a antiga organização da marca já não acompanhava completamente o tamanho desse crescimento.

O Flamengo de hoje possui uma operação financeira muito maior, uma audiência digital gigantesca, uma quantidade crescente de produtos e serviços e uma ambição que ultrapassa os limites tradicionais de um clube de futebol. A própria diretoria admite que o movimento não pretende inventar um modelo completamente novo, mas organizar melhor algo que já vinha acontecendo enquanto o clube crescia rapidamente.

A questão, portanto, não é descobrir se o Flamengo precisava trocar sua identidade histórica. Não precisava. A questão é saber se conseguiria transformar uma paixão que já existe em uma plataforma de negócios mais organizada, frequente e rentável. O novo posicionamento tenta responder justamente a isso.

O Flamengo não está abandonando o futebol. Está tentando fazer com que o futebol seja apenas o centro de um ecossistema muito maior.

E o resultado dessa mudança não será medido pela reação ao novo desenho do urubu ou pela aparência das aplicações nas redes sociais. Será medido quando a nova arquitetura conseguir transformar a força que o Flamengo já possui em novos produtos, novas experiências, novas receitas e uma relação ainda mais constante com o torcedor.

No fim, talvez essa seja a verdadeira resposta para a pergunta que deu origem à mudança: o Flamengo mudou sua marca porque já não queria que ela servisse apenas para identificar o clube. Quer que ela passe a organizar tudo aquilo que o clube pode ser.

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