PVC defende royalties para canais de torcida e reacende debate sobre elitismo na mídia esportiva

PVC defende royalties para canais de torcida e reacende debate sobre elitismo na mídia esportiva
Imagem: Reprodução/Youtube

O jornalista Paulo Vinícius Coelho, o PVC, provocou uma reação que ultrapassou a discussão sobre propriedade de marcas ao defender que clubes cobrem direitos de canais de YouTube que utilizam seus símbolos para falar sobre futebol. A declaração, feita em um programa dedicado a negócios e finanças do esporte, colocou novamente em evidência uma disputa que vem crescendo desde a popularização das redes sociais: quem tem legitimidade para falar sobre os clubes e, principalmente, quem pode ocupar o espaço conquistado pela mídia tradicional.


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PVC argumentou que os clubes deveriam estabelecer parcerias ou cobrar direitos de quem utiliza escudos, bandeiras, camisas e outros elementos de identidade das equipes. Para ele, haveria uma diferença entre alguém simplesmente vestir uma camisa e uma produção que utiliza deliberadamente os símbolos de um clube para criar um canal dedicado àquela instituição. A afirmação pode parecer, à primeira vista, uma discussão legítima sobre proteção de marca. O problema surge quando essa lógica é aplicada à produção editorial de torcedores, porque transforma um elemento de identificação em uma espécie de licença para falar sobre o próprio clube.

É justamente aí que aparece o aspecto mais controverso da declaração. A cobrança não atingiria apenas grandes canais ou empresas que exploram comercialmente uma marca. O universo das mídias segmentadas é formado, em sua maioria, por pequenos produtores, jornalistas independentes, blogueiros, comentaristas e torcedores que trabalham com estruturas enxutas. Muitos não possuem receita suficiente sequer para manter uma equipe profissional. Vincular a utilização de uma bandeira, uma camisa ou um escudo ao pagamento de royalties poderia criar uma barreira financeira que, na prática, reduziria o espaço desses produtores.

O problema, portanto, não está em um clube proteger sua propriedade intelectual. Isso é legítimo. O problema está na possibilidade de transformar a proteção comercial da marca em mecanismo de controle sobre quem pode produzir conteúdo a respeito dela.

A censura econômica como consequência

Quando uma regra passa a exigir pagamento para que um canal independente utilize elementos visuais de um clube durante sua cobertura, não é necessário proibir diretamente a publicação para produzir um efeito de censura. Basta tornar a atividade financeiramente inviável.

Imagine um canal que arrecada R$ 1 mil, R$ 2 mil ou R$ 3 mil por mês. Uma cobrança percentual sobre sua receita pode representar uma parcela relevante do orçamento. Para um grande conglomerado, o mesmo valor seria praticamente irrelevante. Para o pequeno produtor, pode significar abandonar o projeto.

Essa diferença de capacidade econômica é justamente o que torna a proposta especialmente problemática. O resultado não seria necessariamente a retirada de todos os canais independentes do ambiente digital, mas uma seleção econômica de quem conseguiria permanecer. Os maiores e mais capitalizados teriam condições de negociar. Os menores seriam empurrados para fora.

É por isso que a crítica de que a declaração flerta com uma forma de censura econômica não pode ser simplesmente descartada. Não se trata de afirmar que PVC tenha declarado querer censurar produtores. Trata-se de observar o efeito potencial de uma medida como essa: limitar o acesso ao espaço público por meio da capacidade financeira de cada criador.

A censura do século XXI nem sempre precisa vir acompanhada de uma ordem proibindo alguém de falar. Em determinadas circunstâncias, basta estabelecer um custo que poucos conseguem pagar.

O elitismo por trás da discussão

Existe também um componente de elitismo na forma como parte da imprensa tradicional encara as mídias segmentadas. Durante décadas, o futebol brasileiro foi narrado por um grupo relativamente restrito de veículos, jornalistas e empresas de comunicação. O torcedor consumia aquilo que rádio, televisão, jornal e revista decidiam produzir.

A internet rompeu essa lógica.

Blogs, fóruns, podcasts, canais de YouTube e perfis nas redes sociais criaram uma estrutura paralela de comunicação. Um torcedor deixou de ser apenas consumidor da notícia e passou a produzir, comentar, investigar, entrevistar e disputar audiência. O crescimento dessa mídia não significou que todos os seus representantes tenham qualidade. Há trabalhos excelentes e conteúdos ruins. Mas a seleção passou a ser feita também pelo público.

Essa mudança incomodou setores da imprensa tradicional porque retirou deles uma exclusividade histórica.

No futebol, isso é particularmente evidente. Um clube como o Flamengo possui centenas de produtores falando diariamente sobre seus jogos, política, finanças, mercado, história e bastidores. Alguns canais alcançaram milhões de visualizações. Outros permanecem pequenos, sustentados pelo esforço de seus próprios criadores.

A proposta de cobrar pela utilização dos símbolos coloca esses dois mundos em uma relação desigual. De um lado estão grandes empresas, estruturas profissionais e contratos comerciais. Do outro, produtores que muitas vezes começaram simplesmente com um computador, uma câmera e uma paixão pelo clube.

Quando se propõe que ambos sejam submetidos à mesma lógica de licenciamento, ignora-se essa diferença.

O corporativismo entra em campo

A questão também toca no corporativismo da comunicação esportiva. Não porque todo jornalista tradicional defenda a mesma posição, mas porque existe uma disputa concreta por espaço, audiência, influência e acesso.

A ascensão das mídias independentes mudou a relação entre clubes e imprensa. O jornalista deixou de ser necessariamente o único intermediário entre a instituição e o torcedor. O clube pode publicar diretamente uma informação. O jogador pode falar com milhões de pessoas pelas redes sociais. Um produtor independente pode entrevistar um dirigente e alcançar uma audiência superior à de determinados veículos tradicionais.

Essa descentralização diminuiu o poder de intermediação de antigos atores.

É nesse contexto que a fala de PVC ganha uma dimensão política dentro da própria comunicação esportiva. Se os clubes passassem a cobrar royalties de canais que utilizam seus símbolos, a medida poderia reforçar justamente os atores que já possuem estrutura para negociar contratos e enfraquecer aqueles que chegaram ao mercado pelas portas da internet.

Seria uma espécie de reserva de mercado construída não por uma proibição explícita, mas pelo custo de entrada.

E há uma ironia nessa discussão. O futebol brasileiro utiliza intensamente a paixão dos torcedores para valorizar suas marcas. Camisas, escudos, músicas, bandeiras e cores são parte fundamental do produto esportivo. Os clubes transformam essa identidade em patrocínio, merchandising, licenciamento, publicidade e audiência. Mas, quando o próprio torcedor transforma essa paixão em conteúdo, surge a proposta de cobrar pelo direito de utilizar aquilo que também funciona como expressão espontânea de pertencimento.

A relação parece desequilibrada.

O precedente do Flamengo

A história recente do Flamengo ajuda a compreender por que o assunto provoca tanta preocupação entre produtores rubro-negros.

Em 2019, o clube passou a adotar medidas mais rigorosas relacionadas à proteção de sua marca, provocando problemas para páginas e perfis que utilizavam o nome e elementos visuais do Flamengo nas redes sociais. Houve casos de páginas que perderam suas contas ou precisaram modificar sua identidade digital.

O episódio mostrou como a proteção da propriedade intelectual pode produzir efeitos que vão muito além de produtos falsificados ou exploração comercial indevida. Um perfil criado por torcedores não é necessariamente uma loja que comercializa produtos não licenciados. Um canal de análise não equivale a uma empresa que fabrica camisas utilizando o escudo oficial. Uma página de notícias não deveria ser tratada automaticamente como concorrente comercial do clube.

São atividades diferentes.

Essa distinção precisa ser preservada para que o combate ao uso comercial indevido das marcas não se transforme em uma ferramenta para controlar manifestações editoriais.

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A mídia independente incomoda porque funciona

Talvez esse seja o ponto que mais explique o desconforto existente em determinados setores da comunicação tradicional. A mídia independente não precisou pedir autorização para nascer. Ela apareceu porque havia público interessado em outras formas de informação.

No Flamengo, isso ganhou proporções ainda maiores. A cobertura política do clube, por exemplo, passou a contar com produtores que acompanhavam eleições, grupos internos, reuniões, documentos e disputas de bastidores com uma profundidade que nem sempre estava disponível nos grandes veículos.

Essa produção não substituiu a imprensa tradicional. Criou concorrência. E concorrência costuma ser desconfortável para quem durante muito tempo teve pouca concorrência. Por isso, classificar o debate apenas como uma questão de propriedade de marca é insuficiente. Existe uma disputa econômica, mas também existe uma disputa simbólica. Quem controla os símbolos também pode influenciar quem consegue construir audiência em torno deles.

A consequência de uma cobrança generalizada seria particularmente grave para os menores. O produtor que já tem milhões de visualizações poderia negociar. O canal com poucos milhares de inscritos provavelmente não teria a mesma força. O resultado seria uma concentração ainda maior da produção de conteúdo.

Não existe imprensa sem opinião, mas existe responsabilidade

Outro argumento recorrente contra canais de torcida é a falta de imparcialidade. É uma crítica válida quando utilizada para avaliar a qualidade do conteúdo, mas não pode servir como justificativa para restringir sua existência. Canais independentes são, muitas vezes, assumidamente parciais. Eles não escondem sua relação emocional com o clube. Isso não significa que todo conteúdo produzido por eles seja falso ou que não possa existir jornalismo dentro dessas estruturas.

Da mesma maneira, a imprensa tradicional não é formada por seres humanos sem opiniões, preferências ou interesses. A diferença está no compromisso profissional com a apuração e na responsabilidade de separar fato, análise e opinião. O público é capaz de fazer essa distinção. Ele compara fontes, abandona canais, questiona informações e escolhe quem deseja acompanhar.

Não precisa de uma barreira econômica criada pelos clubes para decidir o que quer consumir.

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A verdadeira disputa

A declaração de PVC revela, ainda que provavelmente não tenha sido essa a intenção explicitada, uma visão de comunicação que pode recolocar intermediários no centro de um ambiente que deixou de depender exclusivamente deles. Durante décadas, os grandes veículos determinaram quais histórias chegariam ao público, quais personagens ganhariam espaço e quais assuntos mereceriam atenção. A internet desmontou parte dessa estrutura.

Agora, qualquer tentativa de estabelecer um custo para a utilização dos símbolos dos clubes precisa ser examinada também sob essa perspectiva. Proteger uma marca é uma coisa. Controlar quem pode falar sobre ela é outra. Cobrar de uma empresa que fabrica produtos utilizando indevidamente o escudo é compreensível. Cobrar de um torcedor porque ele colocou uma bandeira no fundo de um vídeo sobre seu clube é uma discussão completamente diferente.

É nesse limite que aparece o caráter elitista da proposta. Não necessariamente porque exista uma intenção declarada de excluir os pequenos, mas porque o mecanismo sugerido pode produzir exatamente esse resultado. E é também nesse ponto que o corporativismo se torna uma preocupação. Se apenas grandes empresas tiverem condições de pagar, negociar e operar dentro desse modelo, a diversidade conquistada pelas redes sociais estará sendo substituída por uma nova concentração.

O futebol brasileiro não precisa escolher entre imprensa tradicional e mídia independente. Há espaço para as duas. O torcedor já mostrou que quer as duas. O que não parece razoável é usar a proteção de uma marca como pretexto para criar uma porta de entrada econômica para o direito de falar sobre um clube. Se a ideia avançar nessa direção, os maiores beneficiários não serão necessariamente os torcedores ou as próprias instituições. Serão aqueles que já possuem dinheiro, estrutura e acesso para ocupar o espaço que a internet democratizou.

E talvez seja justamente isso que esteja por trás do incômodo: depois de décadas em que poucos tinham o microfone, muita gente descobriu que também podia falar.

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