Série Velho Maraca – Aqui é Flamengo, Tchê!

Série Velho Maraca – Aqui é Flamengo, Tchê!

Neste Brasileirão, por rodadas seguidas, sentimos o gosto amargo de levar um gol nos últimos instantes. Pensei comigo: “Saudades de quando éramos nós que marcávamos no finalzinho”. Claro. Saudosista como sou, não poderia deixar de lembrar de uma final disputada no velho Maraca, no Maraca que abrigava mais de 100 mil… Um suspiro fundo, e tudo se passou como filme na minha cabeça…

É 1978. Um homem e sua câmera assistem atônitos aos últimos momentos de uma final que parecia correr rumo aos braços vascaínos. Depois de um chute forte de Júnior, Marco Antônio manda para a linha de fundo, pelo lado esquerdo do gol do Vasco. A bola para, manhosa, bela, mais redonda e exuberante do que nunca, bem nas pernas de Rubén Etchevarría, que larga sua câmera e honrosamente apanha a pelota. Deuses do futebol fazem com que Zico esteja mais perto e venha se aproximando. E Tchê não tem dúvidas. Ou ao menos não dá espaço para elas:

Vai para o córner, vai para o córner, vai você mesmo! É a última chance, estamos em cima, 45 minutos. Pode ser agora, tche. Capricha, pelo amor de Dios!

Nos últimos lances do jogo, o empate dava o título (do segundo turno) para o Vasco. Corações acelerados por todas as partes do velho Maraca. Zico corre para bater o córner e faz sinal para que Rondinelli, um dos melhores cabeceadores do time, vá para a área. Rondinelli pede:

Segundo pau, segundo pau!

Rondinelli, o deus da raça, de cabeça. Gol. Gol nos últimos minutinhos, gol que sacramentou a partida e coroou o Flamengo como campeão carioca de 1978. Lágrimas do Rei, explosão geral.

Zico não cobrava escanteios. Posso dizer que geralmente nem treinava tais cobranças. Mas foi justamente ele quem cobrou, na medida para o deus da raça fazer. Fomos campeões, tínhamos que ser! O tricampeonato estadual de 78/79/79 foi o marco inicial do maior time de futebol de todos os tempos. E também um certo alívio para um time que evidentemente brilhava, mas sofria certa cobrança, ainda que pouca, por não ter em seu currículo um título de maior expressão no futebol, em aliança também ao fato de não faturar um Campeonato Carioca desde 1974, competição que outrora já foi muito mais querida pelo público.

O uruguaio Rubén Etchevarría, mais conhecido como Tchê, tornou-se amigo e churrasqueiro dos nossos craques. Vivia de retratar a felicidade do futebol. Queria que alguém tivesse retratado a sua, naquele momento em que pouco ou muito se sentiu parte de um lance tão importante, tão intenso. Quantas vezes nós, torcedores, desejamos ser mais do que vozes e entrar em campo? Ajeitar a barreira, tirar uma bola da pequena área… Mas ficamos com o nosso papel, que não é pequeno. Juntos formamos o 12º jogador. É o indispensável, o astro de todas as temporadas.

Ouvi dizer que, naquele dia, no vestiário, foi feito um pacto em vermelho e preto. E pactos só acontecem quando há uma real entrega do grupo. Grupo? O Flamengo era uma família. Tal pacto de vitória foi mais do que bem-sucedido. A partir daquela conquista, viu-se uma equipe ainda mais sólida, prestes a entrar na maior era de todos os tempos do Mengão. Poucas mudanças, dentre as quais saliento a derradeira retomada de Andrade, que havia retornado da Venezuela, e o time chegou às quartas de final do Campeonato Brasileiro de 1979, sendo eliminado pelo ótimo, aliás, excelente, time do Palmeiras na ocasião. Reverberou então um boato maldoso e desfundado: o de que o Flamengo era time de Maracanã e que suas conquistas só aconteciam se fossem nos limites do Rio de Janeiro. Boatinho torpe, deliciosamente derrubado quando o Fla tomou para si a década de 80 e assombrou o mundo com sua magia desconcertante.

Falar do título de 78 é citar um exemplo de respeito ao Manto Sagrado posto em prática. Indubitavelmente, a mística flamenga se desvela aos nossos olhos para nos lembrar que o Flamengo jamais será apenas um clube. Mas esse desvelo só ocorre quando há respeito às nossas tradições. E uma delas é o cultivo da raça.

Poderia enxergar esse triunfo taticamente e atribuí-lo à força de um time que não se entregava às dificuldades, não rifava a bola na área, tampouco chutava para onde o nariz apontava. Senhoras e senhores, eis um time que tocava e trabalhava com eficiência até chegar ao gol. Nem que ele viesse quando a partida estivesse nos últimos instantes. Nesse caso em especial, a tensão era relevante. Deveras, a frase mítica de (que ironia) um ilustre tricolor, Nelson Rodrigues, serve como legenda à imagem do gol de Rondinelli:

Quando a derrota arreganha os dentes para o Flamengo, ei-lo que se desfralda, irresistivelmente.

Ficha Técnica:
VASCO 0 x 1 FLAMENGO
Final do Campeonato Carioca 1978 
Local: Maracanã, Rio de Janeiro (RJ)
Data: 03/12/1978
Gol: Rondinelli, aos 41’/2ºT
FLAMENGO: Cantarelli, Toninho, Manguito, Rondinelli, Júnior, Carpeggiani, Adílio, Zico, Marcinho, Cleber(Eli Carlos) e Tita(Alberto Leguelé).
Técnico: Cláudio Coutinho.

Bruna Uchoa
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