Vim. Vi. Vivi: uma elegia à Rubro-Negra Mariano

Escolho meus amigos não pela pele, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante“.
Vivi Mariano.

Quando Vivi nasceu, teve que seguir a dinastia da família Mariano: ser FLAMENGO! Rebentou predestinada como seu irmão, como sua mãe e como o seu pai, o Célio. Foi pelas suas mãos que lhe foi dada a missão mais importante da sua vida: a de amar o Flamengo acima de todas as coisas, a de espalhar e a sentir o Rubro-negrismo irracional de forma incondicional! Mas ela foi além! Olhos de lince, viu que o preto e o vermelho transcendem o campo, a bola, o gol, o artilheiro, a Gávea, a taça… Viu que o Mengo, como um deus, é onipresente, vasto, ubíquo!

Vivi se emaranhou nas letras, se envolveu na poesia, se embebedou de música, se perdeu nas profundezas das artes, se enveredou pela política. E em tudo ouvia e via o Flamengo. Lispector. Flamengo! Leminski. Flamengo! Caetano. Flamengo! Cartola. Flamengo! Nelson. Flamengo! Ulysses. Flamengo! Diziam que era obsessão! Nas arquibancadas, o néctar dos cantos do povo de um só lugar. Ainda naquele espaço, o letramento dos primórdios. Jayme. Presente! Laura. Presente! Cláudio. Presente! Moraes. Presente! Alvarenga. Presente! Célio. Presente! Vivi. Presente!

Com a pena Rubro-negra, foi levando adiante os seus conhecimentos da alma magnética. Seu alcance ia além dos seus aclamados 11 súditos. Vivi não era monarquista, mas tinha alma de rainha, a dinastia lhe deu o trono e a missão mais importante da sua vida. Ainda mais após a partida de Célio. Mas ela já não estava mais sozinha. Afeita ao coletivo e a irmandade, foi adotando irmãos nas arquibancadas. E escrevia, escrevia… E parafraseando Leminski, escrevia e pronto. Escrevia porque precisava, porque estava tonta. Ninguém tinha nada com isso. Ou tinha. Ou tem.

Questionadora, inquieta, amou a democracia. Afinal, ela começou pelos mulambos! Como Castro Alves, o poeta dos escravos, Vivi foi uma escritora sensível às mazelas sociais, ao afastamento do povo, da multidão, do anônimo sem rosto, que vê uma distância do clube que nasceu para ser amado à vontade. As estruturas internas do Flamengo foram estremecidas por ela. Perguntas, respostas, perguntas, respostas… Transformação. Reestruturação. Paradigmas. Outro patamar. Vil metal. Prêmio. Glória eterna: “tem passe decisivo do Diego nessa vida. A glória eterna é ser Flamengo“, ela disse. Ela esperou. 38 anos. Ela viu!

Ela saiu da Glória, mas viu o tri libertador em Quintino, Terra Santa. Vivi foi de muitas casas. Foi do setor Norte, das alamedas da sede da Gávea, passou por Montevídeu, por Lima, por Quito e enfim, na República Paz & Amor. Sua última morada. Viviane de Sant´Anna Mariano. Era singular. Única. Mas sua obra é plural. Coletiva. Seu legado é eterno. Herança de Arthur, ancestralidade Coimbra. Vivi veio, viu, viveu o Flamengo. A cada instante, a cada segundo, alucinada, constante, obsessiva… Honrou a dinastia Mariano! Honrou o Flamengo, o seu nome e sua glória!

E eu, ao seu lado, vim, vi, Vivi! Pra sempre! Presente!

Agora tô aqui lembrando de cada momento, de cada torcedor anônimo,
de cada gol, cada título, cada festa na torcida que me fez mais Flamengo.
Cada amigo, cada amor, cada abraço no meu irmão na arquibancada.
Engolir o choro? A não, pai. É de alegria. É por ser Flamengo.
Por amar o Flamengo. Por sentir Flamengo.
Eu sou Flamengo, porque nós somos“.
Vivi Mariano.

Por Tulio Rodrigues (@PoetaTulio)

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Tulio Rodrigues