Voto à distância no Flamengo volta ao debate e sócios pressionam por mudança na eleição de 2027

Voto à distância no Flamengo volta ao debate e sócios pressionam por mudança na eleição de 2027
Foto: Tulio Rodrigues/Ser Flamengo

A discussão sobre voto à distância nas eleições presidenciais do Flamengo voltou a ganhar força na Gávea após a aprovação recente da reforma eleitoral e da criação do novo Código Eleitoral do clube sem a adoção do mecanismo para a escolha do presidente. A mobilização agora parte de grupos políticos e associados que não querem deixar o tema morrer, entre eles o Flamengo Sem Fronteiras e uma frente que também conta com Walter Monteiro, com coleta de assinaturas para que uma emenda sobre o voto remoto seja levada ao Conselho Deliberativo e possa valer já na eleição de 2027. A pauta, tratada por muitos como sensível, toca em um ponto central da vida rubro-negra: se o Fla é nacional, internacional e vive de uma torcida espalhada pelo mundo, faz sentido manter a principal eleição do clube presa quase exclusivamente à presença física na Gávea?


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A reforma eleitoral aprovada recentemente foi importante, mas saiu incompleta nesse aspecto. A justificativa política apresentada nos bastidores é conhecida: havia forte resistência interna ao voto à distância, e insistir no tema naquele momento poderia colocar em risco outros pontos da mudança. Em outras palavras, a diretoria teria optado por aprovar o pacote possível e deixar o assunto mais espinhoso para depois. A estratégia pode ser compreendida do ponto de vista da sobrevivência legislativa de uma reforma, mas não elimina a contradição. O Flamengo avançou em regras eleitorais, mas evitou enfrentar justamente um dos temas mais simbólicos de participação, pertencimento e modernização institucional.

A pauta que não morreu

A campanha que circula entre sócios trabalha com uma frase que resume bem a disputa política: “Flamengo não é só da Gávea e nem só do Brasil, é do mundo”. A defesa é pelo voto remoto nas eleições de 2027, com mais participação para a Nação rubro-negra. Neste momento, há dois textos diferentes sendo articulados por grupos distintos, ambos em busca de assinaturas para levar a proposta à votação no Conselho Deliberativo. Ainda não existe consenso entre as frentes, porque as minúcias importam, e em matéria eleitoral cada palavra pode alterar alcance, segurança, controle, auditoria e legitimidade do processo.

Essa falta de convergência não deveria ser tratada como problema insolúvel. Ao contrário, é natural que propostas diferentes surjam em um clube político, grande, dividido e com interesses diversos. O que não pode acontecer é o debate ser sufocado por medo, conveniência ou apego a uma lógica antiga de poder. O voto remoto não é uma aventura se for construído com regra clara, plataforma segura, auditoria independente, identificação robusta e fiscalização de todas as chapas. A questão não é aprovar qualquer modelo a qualquer custo, mas obrigar o Flamengo a discutir tecnicamente um assunto que já passou da hora de ser tratado como inevitável.

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A contradição da segurança

O principal argumento contra o voto à distância costuma aparecer na palavra “segurança”. O problema é que o próprio Flamengo já convive com mecanismos remotos em decisões relevantes do Conselho Deliberativo. Conselheiros participam e votam à distância em assuntos sensíveis, incluindo contratos de patrocínio de milhões de reais, como Betano e Lubrax, alterações estatutárias e outras matérias estratégicas. Até aqui, não houve intercorrência conhecida que comprometesse a transparência das votações remotas no Conselho. Se a tecnologia serve para aprovar receitas milionárias, mudanças estatutárias e temas estruturais, por que não poderia servir, com ainda mais cuidado, para a eleição presidencial?

Essa é a pergunta que os opositores precisam responder sem recorrer a generalidades. Dizer apenas que “não é seguro” é pouco para um clube que já utiliza votação remota em temas tão ou mais sensíveis para o futuro institucional. O debate honesto deveria partir de critérios objetivos: qual tecnologia seria usada, quem auditária, como o eleitor seria autenticado, quais seriam os prazos, que tipo de comprovante existiria, como impedir coação, de que forma as chapas acompanhariam o processo e quais mecanismos de contestação seriam previstos. Sem isso, a resistência parece menos preocupação com integridade eleitoral e mais preservação de um modelo em que a distância física funciona como filtro político.

O sócio fora do Rio também é Flamengo

A discussão se conecta diretamente ao papel das embaixadas e consulados. O projeto, criado para agregar torcedores fora do Rio, representa uma das expressões mais claras de que o Flamengo não cabe nos limites geográficos da Gávea. Esses rubro-negros espalhados pelo Brasil e pelo mundo têm interesse natural em participar da vida política do clube, sobretudo quando se tornam associados e cumprem as exigências estatutárias. A lógica é simples: se o Flamengo explora comercialmente sua força nacional e internacional, se orgulha de sua torcida global e usa essa dimensão para vender marca, audiência, patrocínio e produtos, precisa também criar instrumentos de participação para quem está longe.

O voto remoto não beneficia apenas quem mora fora do Rio de Janeiro. Também atende associados que vivem na cidade, mas não conseguem comparecer à Gávea em determinado dia por trabalho, viagem, horário, doença, compromisso familiar ou qualquer impedimento cotidiano. A participação remota, como já ocorre nas reuniões do Conselho, pode ampliar presença, qualificar acompanhamento, facilitar anotações, permitir consulta a documentos e reduzir barreiras artificiais. Democracia associativa não pode ser confundida com ritual presencial obrigatório, especialmente em uma instituição que já reconhece, na prática, a validade da participação digital em outras instâncias.

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Embaixadas, consulados e profissionalismo

Há ainda uma segunda frente conectada ao mesmo debate. A reforma do profissionalismo proposta pela diretoria prevê a eliminação das vice-presidências temáticas, o que, automaticamente, afetaria a vice-presidência de Embaixadas e Consulados. Por isso, grupos como o Flamengo Sem Fronteiras defendem a criação de uma diretoria específica para o projeto, evitando perda de força, tração e importância estatutária. A preocupação é legítima. Durante anos, embaixadas e consulados não tiveram o mesmo peso formal dentro do estatuto, mesmo depois de criada a modalidade off-Rio, e o risco de rebaixar novamente a pauta precisa ser enfrentado antes que a reforma administrativa transforme uma boa ideia de profissionalização em apagamento político de uma base essencial do clube.

Não parece haver, pelo menos no relato apresentado, uma oposição frontal da atual diretoria à valorização das embaixadas e consulados. O próprio Ricardo Hinrichsen, hoje diretor de marketing do Flamengo, é alguém ligado historicamente ao Flamengo Sem Fronteiras e entusiasta do projeto. Isso torna o debate ainda mais favorável a uma solução institucional. Se a direção não é contra, se existem grupos mobilizados, se o clube já tem experiência com votações remotas e se a torcida fora do Rio é parte decisiva da grandeza rubro-negra, o caminho deveria ser de construção, não de postergação indefinida.

O Flamengo tem uma oportunidade rara de alinhar discurso e prática. O clube que se apresenta como global, que fala com milhões de torcedores, que transforma alcance em valor comercial e que celebra a Nação em todos os seus materiais institucionais precisa reconhecer essa mesma Nação quando o assunto é participação política. O voto à distância não deve ser aprovado como gesto emocional, nem recusado por reflexo conservador. Deve ser debatido com maturidade, técnica, transparência e auditoria. O que não cabe mais é o Fla aceitar o voto remoto para patrocínios milionários, alterações estatutárias e decisões estratégicas, mas tratar a eleição presidencial como se a tecnologia, de repente, deixasse de ser confiável. A pergunta que fica para o Conselho é objetiva: o clube quer ser do mundo apenas quando isso rende marca e receita, ou também quando isso exige democracia e pertencimento?

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