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Zico, Nação e arte urbana: Flamengo inaugura nova fase do Muros da Gávea; veja as imagens

Zico, Nação e arte urbana: Flamengo inaugura nova fase do Muros da Gávea; veja as imagens

Foto: Julliana Nascimento e Anderson Brasil/CRF

O Flamengo abriu nesta segunda-feira (23), uma nova etapa do projeto Muros da Gávea e reafirmou uma ideia que, no clube, raramente cabe apenas em troféus, vitrines ou galerias internas. Na Rua Gilberto Cardoso, a sede rubro-negra volta a se oferecer à cidade como superfície de memória, identidade e expressão popular. A edição 2026 da intervenção amplia a galeria de arte urbana criada nos arredores da Gávea e reforça a tentativa de fazer da história do clube algo visível também para quem passa, olha, fotografa, comenta e se reconhece ali. Não é apenas decoração. É uma política de imagem, pertencimento e ocupação simbólica do espaço.


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Esta primeira fase da nova edição inaugura um trecho que, ao fim do processo, chegará a 156 metros de extensão. O clube optou por organizar a intervenção em torno de três eixos, cotidiano, herança e mundo, um recorte que ajuda a entender não só a proposta estética dos murais, mas também a maneira como o Flamengo deseja ser narrado para além do campo. A fachada deixa de funcionar como limite físico da sede e passa a operar como uma espécie de museu a céu aberto, em que a história institucional se mistura à experiência popular e à linguagem da arte urbana.

Há um acerto importante nessa escolha. Em vez de tratar a memória rubro-negra como algo encerrado em molduras, arquivos ou salas climatizadas, o clube a projeta para fora, para o fluxo da cidade. Isso não diminui o papel do Museu Flamengo nem do acervo do Patrimônio Histórico. Ao contrário. Complementa. O que está preservado internamente ganha também uma tradução pública, de rua, mais aberta, mais porosa, mais condizente com a escala social do Flamengo. Um clube com essa dimensão simbólica talvez precise mesmo falar em vários idiomas ao mesmo tempo, o da tradição, o da emoção, o da comunicação institucional e o da arte.

Um Flamengo que se vê no cotidiano

O primeiro dos eixos, cotidiano, parece mirar o ponto mais elementar da relação entre o clube e sua torcida. Não se trata apenas do Flamengo como time, mas do Flamengo como presença. Presença nos bares, nas esquinas, nas escolas, nas salas de casa, nas festas, nas ruas e nos pequenos rituais da vida comum. É um caminho inteligente porque desloca a narrativa do espetáculo esportivo e a coloca no território da experiência compartilhada. O clube não aparece apenas como evento, mas como hábito, linguagem e convivência.

Cotidiano — Talita Persi – Fotos: Julliana Nascimento e Anderson Brasil/CRF

A artista escolhida para esse mural foi Talita Persi, que atua entre ilustração, pintura urbana, escultura e criptoarte. Sua trajetória em festivais pelo Brasil e o modo como trabalha a relação entre arte e espaço público ajudam a justificar a escolha. Há, em seu percurso, uma atenção clara à vida concreta das cidades e à circulação cotidiana das pessoas, algo que conversa diretamente com a proposta do painel. Nesse sentido, o Flamengo acerta ao não escolher artistas apenas pela fama ou pelo currículo, mas por afinidade entre obra e conceito.

Herança, afeto e o centro emocional da história rubro-negra

O segundo eixo, herança, se concentra em Zico. A essa altura, isso não surpreende. Seria quase impossível falar em memória flamenguista sem passar por ele. Mas o desafio, nesse caso, não está em escolher o personagem. Está em conseguir representá-lo sem cair na obviedade de uma homenagem protocolar.

Zico — Ananda Nahu – Fotos: Julliana Nascimento e Anderson Brasil/CRF

Para essa tarefa, o clube convidou Ananda Nahu, pintora e muralista baiana com mais de duas décadas de trajetória e reconhecimento nacional e internacional. Seu trabalho, marcado por forte carga simbólica e por releituras visuais de diferentes tradições artísticas, parece adequado ao tema. Zico, afinal, não é apenas um ídolo esportivo. É um centro afetivo. Um nome que organiza lembranças, pertencimentos e narrativas familiares dentro do Flamengo. Ao colocá-lo em destaque num mural dessa natureza, o clube não homenageia apenas seu maior craque. Reafirma uma linhagem emocional.

Há, nisso, uma dimensão mais profunda. O Flamengo sabe que sua memória não é neutra. Ela é seletiva, afetiva, disputada e permanentemente atualizada. Ao transformar Zico em imagem monumental na fachada da Gávea, o clube produz um gesto de síntese. Ele se torna, mais uma vez, elo entre passado glorioso, identidade institucional e imaginação popular.

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O mundo como escala de ambição e de presença

O terceiro eixo, mundo, aposta numa ideia que o Flamengo vem cultivando há décadas e intensificou nos últimos anos, a de um clube que ultrapassa fronteiras e se entende como marca global. É um tema menos sentimental que o de Zico e menos espontâneo que o cotidiano, mas não menos relevante para a narrativa institucional contemporânea. O Flamengo quer se ver, e ser visto, como potência internacional.

Para traduzir essa dimensão, o escolhido foi David Smith, artista urbano com mais de dez anos de atuação, obras no Museu de Arte do Rio e experiência em painéis de grande escala. Sua linguagem monumental e a familiaridade com a transformação de espaços públicos em marcos visuais se alinham ao conceito do mural. O objetivo é explicitar as conquistas internacionais, a expansão simbólica da Nação e a ambição de um clube que não se contenta em ser apenas o maior dentro de casa.

Essa escolha revela uma camada importante do projeto. O Muros da Gávea não quer somente contar uma história passada. Quer também organizar uma visão de futuro. Ao colocar o mundo como um de seus pilares, o Flamengo indica que a arte urbana também pode servir à construção de posicionamento institucional. É memória, sim, mas também é mensagem.

Mundo — Smith – Foto: Julliana Nascimento e Anderson Brasil/CRF

Mais do que intervenção estética

Há um aspecto que merece atenção especial. Num momento em que clubes buscam profissionalizar sua comunicação e ampliar seus canais de contato com o público, o projeto Muros da Gávea surge como algo mais sofisticado do que uma ação de embelezamento. Ele articula patrimônio, cidade, cultura visual e marca. Faz isso sem depender da lógica fria da publicidade tradicional e sem reduzir a arte a mero pano de fundo para campanhas.

Esse ponto é importante porque há sempre um risco, em projetos assim, de o discurso cultural ser usado apenas como vitrine. No caso do Flamengo, a iniciativa parece conseguir ir além, ao menos nesta proposta inicial de 2026. A escolha dos temas, dos artistas e do lugar sugere coerência. A Gávea não recebe apenas pinturas. Recebe uma nova camada de leitura sobre o que o clube diz ser.

Também há um ganho político, no melhor sentido da palavra. Ao inscrever sua memória na rua, o Flamengo reivindica presença urbana. A sede deixa de ser apenas sede. Torna-se interface com a cidade. Isso importa especialmente para um clube cuja força simbólica sempre esteve ligada à capacidade de extrapolar seus próprios muros.

A arte como forma de permanência

O futebol brasileiro, em geral, ainda trata sua memória com descontinuidade. Preserva muito pouco, perde documentos, esquece personagens, mal conserva acervos. Quando um clube decide traduzir parte de sua história em linguagem pública e contemporânea, isso merece registro. Não porque resolva tudo, mas porque aponta um caminho.

No caso do Flamengo, essa nova edição do Muros da Gávea mostra um clube consciente da necessidade de narrar a si mesmo. E de fazer isso não apenas para dentro, para sócios, conselheiros ou colecionadores, mas também para a rua, para a cidade e para a massa que o acompanha. O muro, que por definição separa, aqui passa a ligar.

No fim das contas, talvez seja esse o principal mérito da iniciativa. Transformar concreto em memória visível. Fazer da fachada não um limite, mas um convite. E lembrar que a história de um clube como o Flamengo nunca coube apenas do lado de dentro.

Cotidiano — Talita Persi – Foto: Julliana Nascimento e Anderson Brasil/CRF

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