1ª do ano: Fake news sobre Supercopa: como informação virou distorção no caso Flamengo x Corinthians

1ª do ano: Fake news sobre Supercopa: como informação virou distorção no caso Flamengo x Corinthians
Foto: Adriano Fontes/Flamengo

A confusão envolvendo a Supercopa do Brasil de 2026 começou cedo, logo no primeiro dia do ano, e escancarou mais uma vez como informações mal formuladas, ainda que não necessariamente inventadas, podem ganhar contornos de fake news quando não são tratadas com o devido rigor jornalístico. O episódio teve como ponto de partida um post publicado na manhã de 1º de janeiro por Larissa Beppler, editora-chefe de um veículo independente voltado à cobertura do Corinthians, e rapidamente ganhou repercussão nas redes.


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Na publicação, a jornalista afirmou que o Corinthians teria tentado levar a final da Supercopa para o Maracanã, com divisão igualitária da carga de ingressos, e que o Flamengo não teria concordado com a proposta. A informação, segundo ela, teria vindo de bastidores do clube paulista.

O problema central não foi a existência de bastidores ou conversas informais, algo comum no futebol brasileiro, mas a forma como o conteúdo foi apresentado e, posteriormente, defendido. Usuários do X, antigo Twitter, acionaram o sistema de notas da comunidade, mecanismo criado justamente para contextualizar ou corrigir informações consideradas enganosas. Após avaliação coletiva, a nota passou a acompanhar o post original, destacando que não havia confirmação de que o Flamengo tivesse se recusado a enfrentar o Corinthians no Maracanã.

Diante da repercussão, Larissa reagiu publicamente. Disse que, em anos de profissão, aquela era a primeira vez que recebia uma nota da comunidade e reforçou que sua informação não tratava de critérios da CBF, mas de uma tentativa do Corinthians. Até aí, tratava-se de uma disputa clássica entre fonte, bastidor e confirmação oficial. O ponto de inflexão veio quando ela passou a utilizar uma matéria do GE, assinada por Cahê Mota, como suposta validação de sua versão.

O texto citado, no entanto, dizia algo substancialmente diferente. Segundo a apuração do GE, quem cogitou levar a Supercopa para Rio de Janeiro ou São Paulo foi a própria CBF, que avaliou Maracanã e Morumbi, além de outras alternativas, incluindo o Nordeste. Os clubes, de acordo com a matéria, até enxergaram a possibilidade com bons olhos, mas, ao final, a entidade optou por Brasília. Não há, em nenhum momento, a afirmação de que o Corinthians tenha formalmente proposto o Maracanã nem que o Flamengo tenha vetado essa possibilidade.

LIVE COMPLETA:

Essa distinção não é detalhe. Muda completamente o sujeito da ação. Uma coisa é a CBF estudar cenários logísticos e comerciais, algo rotineiro em decisões desse porte. Outra, bem diferente, é um clube sugerir um estádio específico e o adversário se negar a jogar ali. Ao usar uma reportagem que aponta a CBF como agente da cogitação para sustentar a tese de que o Corinthians tomou a iniciativa, cria-se uma distorção factual.

Há ainda um erro conceitual relevante na narrativa original. A Supercopa do Brasil não pertence a nenhum dos clubes participantes. O mando é da CBF, e a divisão de ingressos é, por regulamento, igualitária. Portanto, a ideia de que um clube teria “proposto” a divisão 50 a 50 não faz sentido prático, já que essa condição é pré-estabelecida pela entidade organizadora.

O episódio ilustra bem como uma informação de bastidor pode se transformar em ruído quando não é contextualizada com precisão. A jornalista poderia, legitimamente, sustentar que mantém sua fonte e sua apuração, mesmo diante de versões divergentes. O problema surge quando se tenta validar uma afirmação específica com um conteúdo que diz outra coisa. A partir daí, a crítica deixa de ser torcida organizada ou perseguição e passa a ser técnica.

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No fim, a própria CBF encerrou o debate ao bater o martelo: Flamengo e Corinthians se enfrentam em Brasília, no Mané Garrincha. Todo o resto virou pano de fundo para uma discussão maior, que não é sobre clubes, mas sobre método. Jornalismo não se faz apenas com acesso, mas com clareza, distinção entre hipótese e fato consumado, e responsabilidade na forma de apresentar a informação ao público.

Começar o ano com um episódio desses não é um bom sinal para ninguém. Nem para quem informa, nem para quem consome notícia. O alerta foi dado.

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