A contradição de Alicia Klein: ela acusou Bap de bajular colonizador, mas já fez o mesmo

A contradição de Alicia Klein: ela acusou Bap de bajular colonizador, mas já fez o mesmo
Imagem: Reprodução/UOL

A jornalista Alicia Klein criticou publicamente as declarações de Luiz Eduardo Baptista, o BAP, presidente do Flamengo, dadas ao jornal espanhol AS, ao afirmar que o dirigente teria demonstrado “viralatis­mo” e feito uma “alusão carinhosa aos colonizadores” ao comparar a expansão internacional de clubes às navegações dos séculos XV e XVI. A fala ocorreu em debate no UOL, no mesmo dia da publicação da entrevista concedida ao jornal AS, da Espanha. O episódio reacendeu uma discussão antiga no futebol brasileiro: a linha tênue entre referência administrativa ao modelo europeu e suposta submissão cultural.


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O ponto central da crítica foi a analogia usada por BAP. Ao explicar por que clubes buscam novos mercados fora de seus países, o dirigente afirmou que o movimento atual lembra as grandes navegações, com a diferença de que hoje se viaja de avião, não de caravela. Não houve, na transcrição publicada, juízo de valor sobre colonização, tampouco elogio histórico aos processos que marcaram aquele período. Ainda assim, Alicia classificou a comparação como bajulação ao colonizador e disse que o presidente rubro-negro demonstra necessidade de validação europeia ao falar em transformar o Flamengo no “Real Madrid das Américas”.

A crítica ao conceito pode ser legítima. Questionar se o Flamengo precisa mirar outro clube como referência simbólica é debate pertinente. O que chama atenção, porém, é o critério adotado.

A linha do tempo da incoerência

Em março de 2022, Alicia publicou coluna analisando o trabalho de Abel Ferreira, treinador do Palmeiras. No texto, ao enumerar adjetivos usados contra o técnico português, incluiu o termo “colonizador” e, na sequência, construiu uma defesa enfática de sua trajetória. Destacou títulos, capacidade estratégica e chegou a afirmar que parte das críticas ao treinador era fruto de ranço.

Mais que isso. Em outra ocasião, ao comentar declarações de Abel sobre o nível tático de jogadores e profissionais brasileiros, Alicia relativizou a fala e sustentou que havia ali uma discussão necessária sobre estudo e evolução do futebol nacional. O contexto era delicado: o treinador fora acusado por parte da imprensa de adotar discurso que beirava a xenofobia ao sugerir inferioridade intelectual de atletas sul-americanos.

A diferença de tratamento é evidente. Quando o europeu critica o ambiente brasileiro, a abordagem é analítica, compreensiva e, em certo grau, justificadora. Quando o dirigente brasileiro utiliza metáfora histórica para explicar estratégia de mercado, o enquadramento é moral e acusatório.

O peso da palavra “colonizador”

O termo não é neutro. Ele carrega memória histórica de violência, exploração e apagamento cultural. Aplicá-lo a um técnico estrangeiro no calor da rivalidade esportiva pode soar como retórica exagerada, mas classificá-lo depois como figura incompreendida e pedir menos ranço dilui a gravidade inicial do rótulo.

Já no caso de BAP, a acusação parte da interpretação de uma analogia. Ele não celebrou colonizadores nem atribuiu virtudes civilizatórias às navegações. Comparou movimentos de expansão econômica. É possível discordar da escolha retórica, considerá-la infeliz ou desnecessária. Transformá-la em defesa ideológica do colonialismo exige salto interpretativo.

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Patriotismo seletivo

Na crítica ao presidente rubro-negro, Alicia invocou orgulho nacional. Lembrou que crianças sonham vestir a camisa da seleção brasileira, citou Pelé e Marta como referências máximas e afirmou que clubes do país não precisam de validação externa para serem grandes. O argumento é consistente sob o ponto de vista simbólico.

O contraste surge quando, em debates anteriores, a mesma jornalista relativizou críticas vindas da Europa ao futebol brasileiro. Se o patriotismo serve como régua moral em um episódio, deveria servir em todos. Caso contrário, o critério deixa de ser técnico e passa a ser circunstancial.

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O debate que importa

Há uma discussão séria sobre modelos de gestão. O futebol europeu opera sob outra lógica de mercado, calendário e distribuição de receitas. Utilizar benchmarks internacionais não implica desprezo pela cultura local. Empresas brasileiras fazem isso há décadas em diferentes setores. No esporte não é diferente.

Também é verdade que o Flamengo construiu sua identidade sem precisar ser réplica de ninguém. O clube alcançou faturamento bilionário e protagonismo continental por mérito próprio, fruto de reestruturação iniciada ainda na gestão de Eduardo Bandeira de Mello, da qual o próprio BAP participou antes de romper politicamente.

O problema não está em discordar. Está em aplicar pesos distintos a situações semelhantes.

O debate público exige coerência. Quem acusa alguém de bajular colonizadores precisa medir palavras ao defender outro personagem enquadrado no mesmo conceito. Caso contrário, a crítica perde força e vira instrumento retórico.

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